Por Juliane Gallo

Sempre defendi que História não é apenas o que ocorreu; não é apenas passado, com direito à presença de pessoas distantes de nós e de nossa realidade. Acredito que somos personagens da História vívida, da que acontece hoje, como esta da qual somos testemunhas oculares e que também pode ser caracterizada como a maior crise sanitária e econômica do século 21.

Ainda não sei como é que tudo isso que está sendo vivido no mundo de hoje será escrito, descrito, contado. Porém, acho correto que a História não exclua nada e ninguém – os trabalhadores sem emprego, os empresários com dificuldades de manterem suas empresas, as ações políticas, a atuação magistral dos profissionais da Saúde, a imprescindível cobertura da Imprensa, as redes de solidariedade, as lives infinitas, o isolamento social, o assustador número de mortos, a relevância dos professores em aulas remotas, as saidinhas do presidente na contramão da quarentena e as mulheres, as mães, para quem dedico, de forma especial, estas linhas, em referência ao Dia das Mães, comemorado neste domingo.

As mulheres que também são mães, até em razão da cultura machista alimentada por nossa sociedade, têm historicamente tripla jornada de trabalho. Não são poucos os casos, ainda, de mulheres que têm menores remunerações em comparação com homens que desempenham a mesma atividade laboral. E o que falar sobre as vítimas de violência doméstica?

Em tempos de isolamento social imposto pela pandemia de Covid-19, o cenário é ainda mais cruel. Mulheres que são mães estão sendo submetidas a significativo aumento das tarefas domésticas, sem contar o trabalho em sistema home office, a pressão, a cobrança, a ansiedade, a depressão e as agressões psicológicas e físicas das quais acabam sendo vítimas.

O Coronavírus alterou toda uma rotina, e não apenas no Estado de São Paulo, no Brasil. A doença viral modificou o mundo. E essa mudança não foi bondosa para um grupo já tão frágil. O isolamento social, por exemplo, tem resultado em aumento de feminicídio e até de suicídio entre as mulheres no País. Os números de violência doméstica crescem por aqui, infelizmente, na mesma velocidade que a de infectados por Covid.

Hospitais de campanha são montados às pressas, compras sem licitação são feitas, recursos são autorizados e liberados por esferas superiores – tudo para que a pandemia seja enfrentada, nem sempre na mesma velocidade que se espera e com a qualidade que se necessita. Por outro lado, há invisibilidade e, muitas vezes, silêncio frente ao agravamento das doenças da saúde mental de homens, de crianças, de jovens e, também, das mulheres, das mães – de todas nós.

Em suma – em meio à quarentena, as mães estão na linha de frente do sofrimento. E é por elas, donas de casa e responsáveis por seus filhos, e que também se tornaram, nas últimas semanas, em professoras, psicólogas, cozinheiras, recreadoras, consciliadoras e economistas, além de sobreviventes, que sou solidária e para quem deixo meu abraço repleto de afeto e de respeito.

Juliane Gallo é graduada em Direito, especialista em Defesa do Consumidor, pós-graduanda em Direito Público, membro do Conselho Municipal de Direitos da Mulher de Ferraz de Vasconcelos-SP e mãe do Pedro