Em 2005 Amilcka e Chocolate lançaram a música Som de Preto, o hit virou febre e até hoje sua batida é preservada na memória coletiva, juntamente com a impactante frase “É som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado.”

De fato, quando o funk toca, ninguém fica parado, nem mesmoas pesquisadores do Instituto Butantã que se renderam a homenagem de MCFioti na música Vacina Butantã. Fioti, na contramão do negacionismo e obscurantismo que marcam o Governo Bolsonaro, celebra a ciência, defende a vida e valora as nossas pesquisadoras. A CoronaVac, produzida por muitas mulheres“É a vacina envolvente que mexe com a mente de quem tá presente. É a vacina saliente, que vai curar “nois” do vírus e salvar muita gente”.

No avanço da pandemia do coronavírus, quase 220 mil brasileiros já perderam suas vidas, e pertooito milhões foram infectados; a Covid-19 se alastra país afora,o colapso do sistema público de saúde é uma triste realidade e as ações do Governo Federal, sob comando do Presidente Jair Bolsonaro ganham destaques de horror.

Sem respostas efetivas para o enfrentamento da crise, o Ministério da Saúde e o Governo Federal derrapam, mas ainda continuam de pé em ações caóticas e perdidas, derrapam também, mas sem conseguirem ficar de pé, os movimentos sociais, intelectuais, partidos políticos, setores progressistas e midiáticos, que inertesdiante do obscurantismo e negacionismo que assolam o país, não conseguem reunir forças para a necessária e urgentederrubada de Bolsonaro e de seu imaginário anticiência.

Se os campos tradicionais não conseguem apontar caminhos, foi justamente as mulheres e o MC Fioti, na disciplina da quebrada e no som do funk, VacinaButantã,os responsáveis pela resistência ao obscurantismo ecolocarem a ciência e as cientistas brasileiras no devido lugar de seu protagonismo; a música lançada no último dia 23, já ultrapassa 3 milhões de visualizações e é um sucesso na internet.

O funk de Mc Fioti é um hino em defesa da vacinação e da ciência brasileira, foi um menino da periferia que conseguiu traduzir para milhões a urgência de ultrapassar o obscurantismo que marca o Brasil e em defesa da vacinação: “Autenticamente falando: Se vacina pô”.Ninguém vai virar jacaré.

Que Brasil é esse que nega a ciência e a necessidade da vacina? É o país com o segundo maior número de mortes pela Covid-19 no mundo, que sepulta seu povo enquanto o presidente nega a força do vírus; é o país onde as cenas chocantes de pessoas mortas por falta de oxigênio em Manaus se repetiram no Pará,deixa Roraima na fila do caos e o Brasil em estado de alerta.

Mesmo com a lamentável crescente no número de infecções e óbitos, o começo do fim parece próximo, e MC Fioti celebrou o esforço científico e resistência das mulheres pesquisadoras de nosso país e silenciando os críticos que apontam o funk na objetificação feminina. A aplicação da primeira vacina no último dia 17 de janeiro deu um ar de esperança em meio a um momento tão difícil. A primeira pessoa vacinada no Brasil foi a enfermeira Mônica Calazans, 54, mulher negra e linha de frente no combate ao coronavírus no hospital Emílio Ribas em São Paulo, autenticamente vacinada e que até o momento não virou jacaré.

Calazans reúne o tripé da estrutural desigualdade brasileira, classe, raça e gênero em um só ser, a vacina tomada por ela é o resultado de um grande esforço da ciência em se colocar em defesa do povo, dos subalternos e não apenas de uma elite, é também uma forma de resistência a um governo anticiência, obscurantista e negacionista.

No dia 11 de junho de 2020, o Diretor do Instituto Butantã, Dimas Covas, anunciou a parceria com o laboratório farmacêutico SinovacBiotech para a produção da vacina CoronaVac. Após meses de pesquisa, o Intituto divulgou no último dia 7 a eficácia da vacina. Os resultados apontam 78% de proteção em casos leves; a imunização conseguiu impedir em 100%as internações e/ou óbitos nos casos graves, e uma eficácia geral de 50,38%, ou seja, ao tomarmos a vacina, temos 50,38% menos risco de pegar o novo coronavírus, e se pegarmos, há 100% de eficácia da doença não atingir estado grave, sem a necessidade de internação, e, principalmente, com a absoluta proteção da vida.

No meio da tempestade, um grande arco-íris se abre, suas cores trazem a esperança que foi suspensa pelo drama da pandemia, e, principalmente, pela negligência do Ministério da Saúde e do Governo Federal na condução do país durante todo esse processo. O que de fato significa a vacina do Instituto Butantã?

O funk de MC Fioti apresenta a resistência dos subalternos, de garotos, pobres e negros; por outro lado, o Instituto Butantã traduz a resistência de gênero, 71% dos cargos de pesquisador do instituto são ocupados por mulheres, portanto, a vacina CoronaVac é majoritariamente feminina, em um país estruturalmente machista e a celebração da vacina foi cantada pelo funk de garotos pobres e negros em um país marcadamente desigual e racista,e é aqui que as estruturas de classe, raça e gênero se invertem e apontam as bolsas de esperança de um país tão desigual.

Desde o início da pandemia, em março de 2020, o Presidente Jair Bolsonaro tem conduzido o país no obscurantismo e negacionismo,não foram poucas as demonstrações de seu imaginário medieval e anticiência, mesmo com seus absurdos, o campo progressista tradicional não tem encontrado forças de oposição e diálogo com a sociedade civil, mas, as mulheres, os pobres e os negros, traduzidos nas pesquisadoras do Instituto Butantã, na enfermeira Mônica Calazans e Mc Fioti demonstram que o caminho de resistência está nos gritos da subalternidade.

Os esforços da ciência não são suficientes para os subestimados, o retrogrado Presidente indica medicações e tratamento sem comprovação de eficácia científica e sobre o uso da cloroquina, anunciou “toma quem quiser, quem não quiser, não toma. Quem é de direita toma cloroquina. Quem é de esquerda toma Tubaína”.

Nada é tão ruim que não possa piorar, quando a barbárie de Bolsonaro parecia ter chegado ao fim eseu nível de irresponsabilidade e idiotice ultrapassado todos os limite, eledeclarou “Na Pfizer, está bem claro no contrato: ‘nós não nos responsabilizamos por qualquer efeito colateral’. Se você virar um jacaré, é problema de você. Não vou falar outro bicho aqui para não falar besteira. Se você virar o super-homem, se nascer barba em alguma mulher aí ou um homem começar a falar fino, eles não têm nada a ver com isso”.

Bolsonaro é a marca do retrocesso, entretanto os movimentos sociais, partidos políticos e intelectuais não reúnem forças suficientes para frear sua barbárie, mas foi justamente a força das mulheres pesquisadoras do Instituto Butantã, da Enfermeira Mônica Calazans e o funk da quebrada, “o som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado” que se colocaram à frente de seu obscurantismo em celebração à ciência e a pesquisa brasileira com a vacina CoronaVac.

Na oposição ao Governo Bolsonaro, novos personagens entraram em cena e é na quebrada, nas periferias, com sua produção cultural que encontramos esperança. Cabe ao campo progressista, conhecer a quebrada, aprender com o Funk, com as mulheres e com os subalternos. E para aqueles que estão desconfiados da vacina ou com medo de virarem jacaré, pega a visão de MC Fioti: “Autenticamente falando: Se vacina pô. […] É a vacina saliente, que vai curar “nois” do vírus e salvar muita gente”.