Infelizmente, hoje não é possível percorrer 05 quilômetros nas vias paulistanas, principalmente nas grandes avenidas que levam às periferias da cidade e não se chocar com o aumento exponencial de crianças nos semáforos. A imagem dessa infância roubada se mistura com os adultos que mendigam e outros que vendem pequenos produtos para tentar sobreviver de alguma forma. Não é possível ignorar esse retrato visto pela janela do carro, ao som do noticiário, com a temperatura bem amena do ar condicionado.

A taxa de desemprego no Brasil do primeiro trimestre de 2021, com pequena variação,  manteve o indicador  de 14,2% da população distante do trabalho formal e sem nenhuma previsão de melhora para o próximo semestre. A pandemia agrava o cenário caótico e expõe a ausência de um projeto de nação que inclui a classe trabalhadora e ignora tacitamente a população dos mais vulneráveis da equação que deviam garantir direitos e renda.

Na esteira das tentativas acertadas de controle da crise de saúde do COVID-19  a decisão do fechamento das escolas (e não estou aqui defendendo que as escolas devam abrir sem a garantida mínima de segurança dos educadores e profissionais) as crianças que se encontravam em situação de vulnerabilidade passaram a viver outro drama: a fome. 

Para quem não é do campo educacional e porventura possa desconhecer essa realidade, a escola brasileira historicamente garante alimentação de crianças, que não poucas vezes, fazem sua única refeição diária nos pátios das escolas.

Quando fui professor de educação básica na rede municipal de São Paulo, cotidianamente via meus alunos com idade entre 08 e 09 anos, moradores da Cidade Tiradentes extremo leste da capital paulista, chegar mais cedo na escola para conseguir almoçar. Caso perdessem o horário a única refeição que fariam seria a bolacha seca com café no final do turno da tarde. Não foram poucas as vezes que vi alunos guardando frutas no bolso para comerem no jantar, ou mesmo pedindo para levar o que sobrava para os irmãos mais novos.

A história da educação brasileira se funde e se confunde com a profunda desigualdade social que por décadas assola o país, nesse sentido o atendimento educacional às crianças nunca puderam ser descolados da leitura apurada sobre as condições sociais e econômicas das famílias. Estou afirmando que a escola tem papel mais importante que as lições sobre o currículo. A escola, em inúmeros municípios, garante muito mais que ensinar a ler e escrever. É lá na escola que muitas crianças têm o direito de comer e são protegidas de situações de violência.

 A criação de um programa nacional de alimentação data o ano de 1955 e acertadamente em 1994 foi redesenhado democratizando e descentralizando os recursos e fortalecendo os municípios.

 Qualquer decisão de política educacional que desconsidere a pluralidade dessa  realidade social da população certamente possui elevada chance de dar errado. É necessário ouvir a população, profissionais e técnicos e a ciência  para decidir sobre os rumos e as ações na gestão pública. A população vulnerável não pode ser refém de aventuras e aventureiros nos espaços de decisão da coisa pública. 

O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) política de responsabilidade do MEC até agora não apresentou nenhum projeto contundente de reforço aos municípios para chegar auxilio as mais de 4,4 milhões de crianças brasileiras que vivem em situação de extrema pobreza, o número representa aproximadamente 11.5% das crianças de 0 (zero) a 13 anos de idade. (dados do Observatório do 3º setor).

Os dados do IBGE revelam que são 13,5 milhões de brasileiros vivendo com renda per capita inferior a R$145,00 por mês e 52,5 milhões de brasileiros que vivem com menos de R$420 por mês. Os dados são assustadores!

Não sejamos ingênuos, pois a escola não é a salvadora do país. Não podemos cair no bonito conto que a escola também livrará da fome. No entanto, o maior programa de segurança alimentar da América Latina que é reconhecido internacionalmente por sua importância social não poderia deixar de agir no momento que vivemos. A falta de protagonismo custa vidas e deixará marcas indeléveis na nação inteira. É urgente que o MEC, junto com outros ministérios, atue para proteger os mais vulneráveis.

Afirmo: o número crescente de crianças pedindo esmola no farol é resultado da ausência de políticas públicas e da articulação entre os setores para combater o aumento da pobreza e a fome.

Um destaque importante: Construir política de seguridade social e proteção não tem absolutamente nenhuma relação com a defesa criminosa que o Planalto faz de manter comércios abertos. A pressão para a abertura dos comércios é a garantia e a defesa do capital e não das vidas que deixam de comer diariamente.

Enfim, embora veja iniciativas movidas pela solidariedade humana de arrecadação e distribuição de alimentos para as crianças mais pobres, e isso é louvável, não podemos esquecer de exigir das autoridades, a começas das que lideram o país, que exista um projeto que o Estado sirva às crianças.

Não é possível dormir em paz numa nação que permite que suas crianças passem fome e peçam esmolas no farol.

Não é possível apenas subir o vidro do carro e ignorar o pedido de alimento. Não é possível que vamos aceitar que a desigualdade continue tão grande e as crianças percam o direito de comer, de aprender e de viver.

Quem tem fome tem pressa! É urgente que a nação exija ação de proteção aos mais vulneráveis.

No atual cenário de caos social que vivemos a escola pode ainda ser um centro de distribuição para garantir a alimentação das crianças. Não podemos perder de vista que muitos dependem exclusivamente daquela refeição.

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O prof. Diego Moreira é doutorando e mestre em Educação pela PUCSP.

É graduado em História e Pedagogia.Atua há mais de 20 anos na Educação, passando por todos os segmentos do ensino. É professor universitário há 13 anos. Já coordenou cursos graduação e pós-graduação. Atua também como analista e consultor no mercado editorial, escolas, prefeituras e institutos de educação.

Dirige a Escola dos Saberes. Faz palestras e consultorias em todo o Brasil.É um dos autores no livro: BNCC na prática e do livro de literatura infantil: Chico, o corajoso.

É pai da Ana Clara e da Carolina, esposo da Prof. EvelizeZamone. É apaixonado pela Educação.

e-mail:  professordiegomoreira@hotmail.com  / Instagram: @profdiegomoreira

site: www.profdiegomoreira.com.br