Quando tinha entre sete e dez anos de idade, lembro como se fosse hoje dos meus pais e tios trocarem livrinhos de “bang-bang”  ao se encontrarem nos finais de semana na casa dos meus avôs.

Eram livrinhos de bolso, impressos em páginas semelhantes às de jornal, com poucas ilustrações e eram em preto e branco. Havia pilhas deles na estante de casa e ficavam ao lado dos gibis e pela série de revistas “Seleções Reader’s Digest”.

Também lembro que na casa do meu avô João Franco, um cearense metido a gostar dos livros e das letras, também tínhamos duas coleções enormes de enciclopédias. Uma de capa vermelha, que podíamos pegar para ler a qualquer momento e outra de capa amarela. Essas eram restritas aos mais velhos ou permitidas quando acompanhados pelos adultos. Eu já cursava o mestrado quando meu avô faleceu e herdei a coleção de capa amarela e também o gosto pelos livros e pelas letras.

Entre os onze e quinze anos aproximadamente, era comum ver meus pais lendo jornais e recebendo livros. Para quem lembra, nos anos de 70, 80 e meados dos anos 90, existiu uma editora chamada Circulo do Livro, meus pais eram assinantes e recebiam livros quinzenal ou mensalmente que escolhiam por meio de um catálogo. Em determinada época também chegavam ingressos para teatros e eventos culturais.

Rememoro de ler e ter em casa os clássicos brasileiros como Machado de Assis, Jorge Amado, José de Alencar, Graciliano Ramos e apenas com a assinatura desse clube que li Julio Verne, Alexandre Dumas e Dostoievski.

Na adolescência, durante meu curso de magistério no ensino médio do CEFAM, mantenho duas saudosas lembranças  sobre minhas experiências de leitura. A primeira era o xerox do Sr. Heráclito que existia numa salinha no fundo da escola, lá nós comprávamos os textos das aulas da semana. Podíamos  fazer uma conta mensal, eu vivia em débito com ele. E a segunda era ler os jornais de dias passados que meu pai trazia do trabalho. Lembro de começar a ler Gazeta Mercantil, Estadão e a Folha de São Paulo, nesse período também lia a Veja e conheci a Carta Capital, quando ainda era uma publicação mensal.

Apenas quando entrei na graduação de História, com dezoito anos,  pude perceber o quanto os livros eram caros. Inúmeras vezes era surpreendido com os valores dos livros e não podia comprar, esse fato me levou a freqüentar muito a biblioteca da Universidade. Constantemente chegava mais cedo para ler os textos da aula. Claro, que as cópias eram recurso fundamental na nossa formação. Quando terminei o curso tinha mais de duas caixas cheias de textos.

Mas por que esse relato faz sentido?

Qualquer leitor que tenha cursado uma graduação ou todo pai e mãe que tem filho em idade escolar sabe exatamente o preço dos livros no Brasil.

O livro no Brasil é caro! Comprar livro, infelizmente ainda é um privilégio de classe social. E isso está errado! Absolutamente errado.

E não podemos culpar as editoras e as livrarias, como se elas fossem grandes vilãs. Não são.

Semana passada o ministro da economia reacendeu a ideia de taxar em até 12% os livros. Constitucionalmente a tributação de livros é vedada no país, com o objetivo de ampliar o acesso e democratizar a leitura. Num país que por décadas sofreu com o analfabetismo e a falta de escolarização da população.

A leitura e a formação de leitores precisa ser levadas a sério num lugar que ainda lê muito pouco se comparado aos outros países da América Latina, de acordo com a última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, edição de 2019, o Brasil perdeu cerca de 4,5 milhões de leitores entre 2015 e 2019.

Com cerca de 193 milhões de brasileiros alfabetizados temos um número assustador de 93 milhões de pessoas que não leram nenhum livro no último ano.

Leia novamente esse número, 93 milhões de pessoas no Brasil não leram nenhum livro. E dentre o número de brasileiros leitores a média de livros lidos por ano chega ao ínfimo dado de 2,4 livros, ou seja, a população não lê, e àqueles que lêem, ainda o faz muito pouco. O cenário é trágico.

Não podemos individualizar a responsabilidade. É necessário perguntar quais são as políticas de todas as esferas de governo que estimulam a leitura e o acesso aos livros. O Programa Nacional do Livro Didático – PNLD – é um dos maiores programas de distribuição de livros do mundo, ainda precisa ser melhorado. Desde 2018 foi incluída no programa a compra e distribuição de livros literários, mas ainda não é suficiente, o programa pode e deve ser ampliado.

As bibliotecas escolares das redes estaduais ainda precisam receber investimentos para aquisição de volumes e melhorar a organização dos horários de atendimento. O mundo ideal seria ter uma bibliotecária em cada unidade escolar atuando junto com um professor de leitura.

Alguns municípios realizam projetos de estímulo à leitura que funcionam como motores de iniciação da criança ao universo leitor. Dentre inúmeros projetos municipais, destaco  especialmente um da cidade paulista de Atibaia, conduzido pela ex-secretária de Educação Prof. Márcia Bernardes e pela Prof. Lúcia Serrano que desde 2013 mantinham o Projeto Ler e Escrever: Fonte do Saber, que entre inúmeras ações de incentivo à aprendizagem culminava com uma Jornada Literária que envolvia todos os profissionais da rede municipal, das famílias e dos estudantes. A cidade promovia um grande evento com distribuição de livros e participação de autores e editoras. Esse é um exemplo positivo que pode ser uma inspiração para outros lugares do Brasil. É possível realizar bons projetos educacionais que chegam às crianças das escolas públicas.

O aumento da leitura no Brasil não acontecerá com taxação de livros, pois políticas dessa natureza contribuem para excluir os que mais precisam de acesso. É necessário que as iniciativas de estímulo à leitura e ao acesso de livros sejam ampliadas, apoiadas e defendidas por toda população e por todo profissional que sabe a importância da leitura na sua formação.

Retomando minhas memórias, reflito que não seria capaz de escrever uma linha nessa coluna de jornal se durante minha vida não tivesse tido acesso aos livros, aos professores e principalmente recebido estímulo para aprender e gostar de ler.

Um país se constrói com crianças que lêem e essa pauta nem deveria  passar pelo crivo da receita federal ou pelo ministro da economia. O investimento em livros e na formação de cidadãos leitores deveria ser clausula pétrea na nossa Constituição, para não permitir que “gatunos” de plantão ousem retirar das crianças o que pode ser mais revolucionário. O saber.

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O prof. Diego Moreira é Doutorando e Mestre em Educação pela PUCSP.

É graduado em História e Pedagogia. Atua há mais de 20 anos na Educação, passando por todos os segmentos do ensino. É professor universitário há 13 anos. Já coordenou cursos de graduação e pós-graduação. Atua também como analista e consultor no mercado editorial, escolas, prefeituras e Institutos de Educação.

Dirige a Escola dos Saberes. Faz palestras e consultorias em todo o Brasil. É um dos autores no livro: BNCC na prática e do livro de literatura infantil: Chicó, o corajoso.

É pai da Ana Clara e da Carolina, esposo da Prof. Evelize Zamone. É apaixonado pela Educação.

e-mail:  professordiegomoreira@hotmail.com  / Instagram: @profdiegomoreira

site: www.profdiegomoreira.com.br