No inicio de 2009 ao retornar de uma licença sem remuneração, que havia retirado para concluir o mestrado, reassumi meu cargo na rede municipal de São Paulo numa escola localizada na Cidade Tiradentes.

Forasteiro na região e novato na escola me atribuíram a 3º série D. A turma contava com 27 meninos e 08 meninas. A maioria deles já havia sido retida em algum momento da trajetória escolar. Tinham entre 10 e 11 anos de idade.

Pouco a pouco fui me apresentando para a turma e as famílias em determinado dia da semana conheci a Ana (nome fictício) e sobre ela recebi inúmeras recomendações dos colegas de trabalho e das mães.  

– Cuidado com a Ana ela é briguenta. Ela bate em todos os meninos. Ela só arruma confusão, fica esperto viu.

– Olha professor, eu sei que você é novo… então é melhor você já ficar sabendo que as mães das outras crianças querem que a Ana vá para outra escola.

– Cuidado com a Ana viu…o irmão dela você sabe né?

– Ah a Ana nem adianta viu… Boa sorte!

Durante as aulas comecei a conhecer a “Ana”, não sem conflito, fui descobrindo quem era e o que cercava a vida dela.

Descobri que a Ana era a 5º filha entre seis irmãos. Dos 4 irmãos mais velhos 2 estavam no Rio de Janeiro e os outros 2 moravam em casas separadas. Ela tinha ainda 1 irmão mais novo com cerca de 2 anos de idade. De todos os irmãos que tinha, apenas  01 era do mesmo pai que o dela.

Ela era a única filha (mulher). A família tinha condições precárias de sobrevivência.

Com frequência Ana era obrigada a passar uma ou duas semanas na casa da avó, e com a mesma frequência a avó devolvia ela para a mãe. Também era obrigada a ficar na casa dos irmãos do pai, e, do mesmo modo era devolvida e obrigada a voltar de lá. Ana não tinha cama, nem guarda roupa, todos os pertences delas estava na mochila que ela levava para escola.   

Ana gostava de dançar, fazer esportes e da aula de matemática. Às vezes dormia na aula.

Sempre pegava um lanche a mais para o irmão mais novo e guardava na mochila ou no nos bolsos.

Ana era uma menina linda. Baixinha, magrinha, negra, sempre de chinelos e short curto, no frio ia apenas com a blusa da escola. Tinha um cuidado especial com os cabelos que mantinha amarrados e com arquinhos para evitar os deboches maldosos dos meninos e os comentários racistas dos adultos.

 As brigas que Ana se envolvia invariavelmente era para se defender das ofensas que recebia no pátio da escola.

Ana começou a sentar na minha frente, era a primeira da fila, pegava na minha mão na hora da fila e conversava muito comigo. Me contava sobre sua rotina e sobre seus afazeres domésticos.

Às vezes, ainda com muito sono, pois cuidava do irmão mais novo, me pedia para ir mais ao banheiro para lavar o rosto e dar uma voltinha na escola. O tempo que ela foi minha aluna, acredito que tenha conseguido melhorar um pouco a vida da Ana na sala de aula, não o tanto que deveria.

Muitas vezes brigamos juntos com a sala toda, com outros docentes e até com os pais dos alunos contra os preconceitos, julgamentos e arbitrariedades cometidos contra ela.

 Hoje, conversando com uma amiga sobre as memórias da docência, lembrei da Ana.

Essas memórias ainda me emocionam.

Quem é professor certamente já teve uma “Ana” na sua sala. Talvez, essa “Ana” tenha sido você ou uma amiga de escola, do bairro.

Pensando bem a Ana nunca foi uma aluna indisciplinada.  

Ana era uma menina negra, pobre, moradora do extremo leste da capital, oriunda de uma família que pouco podia cuidar dela.

Ana é o retrato de milhares de crianças que vão para escola como único caminho de sobrevivência e esperança. Ana é a criança que precisa da merenda que a tia serve, do abraço que o professor recebe na porta e da mão consciente das gestões.

Ana é a menina que mais precisa da ação do Estado na defesa da sua sobrevivência e da sua dignidade. Ana é a mulher que luta contra o machismo, a misoginia, o racismo. Luta pelo alimento e pelo saber. 

A escola para Ana era o ÚNICO lugar que ela tinha nome, sobrenome e lugar para sentar. Era na escola que Ana encontrava descanso e podia dançar, correr e pular. Ana só podia ser criança dentro daquela sala do 3º D.

Hoje lembrando da Ana, percebo que ela não batia nos meninos.

Ela RESISTIA, Ela era FORTE, Ela era CORAJOSA, Ela era PERSEVERANTE.

A indisciplina da Ana, na verdade, era RESISTÊNCIA para sobreviver num mundo que nunca foi feito para ela.

Gostaria de um dia reencontrar a Ana. Ela deve ser uma mulher linda, cuidadosa, resistente e forte.

Desejo que Ana tenha se tornado um desses mulherões que não aceita ser subjugada, diminuída e que não senta na mesma mesa desses marmanjos boçais que ainda acreditam que são melhores do que todas as ANAS.

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O prof. Diego Moreira é Doutorando e Mestre em Educação pela PUCSP.

É graduado em História e Pedagogia. Atua há mais de 20 anos na Educação, passando por todos os segmentos do ensino. É professor universitário há 13 anos. Já coordenou cursos de graduação e pós-graduação. Atua também como analista e consultor no mercado editorial, escolas, prefeituras e Institutos de Educação.

Dirige a Escola dos Saberes. Faz palestras e consultorias em todo o Brasil. É um dos autores no livro: BNCC na prática e do livro de literatura infantil: Chicó, o corajoso.

É pai da Ana Clara e da Carolina, esposo da Prof. Evelize Zamone. É apaixonado pela Educação.

e-mail:  professordiegomoreira@hotmail.com  / Instagram: @profdiegomoreira

site: www.profdiegomoreira.com.br

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