Neste domingo a sociedade comemora o Dia das Mães e não quero aqui começar o texto dizendo que essas comemorações não são importantes. Elas são fundamentais!

No lugar de filho, esposo, pai e professor que convive num curso de magistério desde os 13 anos de idade com um público predominantemente feminino me arrisco a escrever essas breves linhas, sem ousar ocupar o lugar de fala das mulheres, mães e professoras. Escrevo sabendo as minhas limitações.

Cresci numa casa de mulheres. Com mãe, irmãs e tias fortes em seus posicionamentos e envolvidas com suas escolhas profissionais e políticas. Minha mãe, filha de um comunista cearense sempre recebeu estímulos para construir seus posicionamentos e trilhar seus processos de profissionalização, considerando todas as dificuldades enfrentadas nas décadas de 1960 e 1970 e o diminuto acesso para as classes trabalhadoras, teve trajetória escolar acidentada e concluiu seus estudos já adulta. Não lembro da minha infância e adolescência sem que presenciasse minha mãe matriculada em algum curso. O último que fiquei sabendo era um curso na faculdade da terceira idade na USP Leste.

Retomo esse breve relato, pois ele está relacionado diretamente com as minhas escolhas de vida e com a minha trajetória de formação e identidade. Convivi e continuo convivendo com mulheres fortes, sabidas e profundamente comprometidas com a construção de um mundo mais justo, coerente e melhor para viver.

Durante toda minha trajetória escolar tive professoras que acumulavam cargos e atribuições e para ser mais correto no termo, com identidades plurais. Mulheres, mães e professoras, não necessariamente nessa ordem.

Ao olharmos para o interior das escolas e universidades brasileiras podemos perceber dois pontos bem importantes.

  1. O magistério é predominantemente feminino. A última pesquisa (INEP 2018) sobre o perfil dos professores apontam que as mulheres ocupam 81% dos cargos do magistério. Esse é um dado que diz muito sobre a história e a valorização do magistério, das mulheres e das mães.
  2. Desses 81% de mulheres, 96,6% ocupam a Educação Infantil e 88,9 o Ensino Fundamental I (1º ao 5º ano), já no Ensino Fundamental II (6º ao 9ano) esse percentual reduz para 68,9 e no Ensino Médio 59,4. E no prestigiado ensino superior esse indicador reduz para menos de 45%.

Numa estrutura histórica e socialmente machista a relação direta do magistério com a maternidade ainda está arraigada de forma equivocada na mentalidade da sociedade. Embora as razões históricas dessa relação sejam conhecidas, é urgente que a escola revisite seus currículos e proponha uma perspectiva de formação que eduque meninos e meninas para a constante valorização das mulheres profissionais e das mulheres que decidem pela maternidade. A escola não pode reforçar práticas machistas ou romanticamente ingênuas sobre a relação que estabelece com as mães. Esse vínculo precisa compreender com precisão como é o cotidiano de mulheres/mães trabalhadoras.

Ampliando a relação para além da docência e maternidade, é fundamental que a sociedade perceba que o dia das mães precisa extrapolar o almoço de domingo e ser lembrado cotidianamente nas mesas de RH que deixam de contratar mulheres que são mães.

É fundamental que as universidades avancem em programas para atender de forma digna, coerente e eficiente as estudantes que engravidam durante o curso ou que têm crianças pequenas. Ao longe de mais de uma década lecionando no curso de Pedagogia já vivenciei tanta coisa nesse sentido que daria um livro. As escolas de Ensino Médio também precisam manter programas intersetoriais com as pastas da Saúde e do Serviço Social que acolham, acompanhem e cuidem da saúde de estudantes que se tornam mães precocemente.

Fiz um recorte bem específico que dialoga com a minha trajetória, mas tenho absoluta certeza que cada leitor convive com mulheres que são mães e trabalhadoras das mais variadas profissões. São mulheres e mães enfermeiras, costureiras, balconistas, motoristas, cozinheiras, comerciantes, bancárias, policiais, médicas ou dentistas. Mães que estruturalmente se desdobram para construir suas identidades, profissões e manter a maternidade.

Desejo que nesse Dia das Mães as escolas romantizem menos a data e consigam extrapolar os vínculos ingênuos e mágicos de uma relação quase “santificada” e lembrem que essas mulheres mães são trabalhadoras, estudantes, filhas, esposas, solteiras. Possuem múltiplos papéis todo dia da semana. E lembrar desse dia é também desmistificar a pressão histórica sobre elas.

Aos meus amigos homens, héteros, bem formados e remunerados, é fundamental que consigamos abrir mão dos privilégios históricos e tenhamos o caráter e a honradez de, ao menos, ter consciência e posicionamentos que construam uma sociedade menos machista e muito mais acolhedora para as mulheres mães.

Depois do almoço de domingo essas mesmas mães, as nossas ou as dos outros, entrarão no transporte público com medo do assédio. Poderão ir trabalhar com medo de anunciar a gravidez, ou dormir rezando para o filho não adoecer e ter que se atrasar no trabalho, porque um grupo de homens covardes e trogloditas insistem em utilizar seus privilégios históricos em nome de uma condição desigual.

Que o Dia das Mães seja também um dia de avanço do feminismo. Nem só de flor vive uma mulher, é preciso justiça e respeito.

Feliz Dia das Mães! Feliz dia de luta!

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O prof. Diego Moreira é Doutorando e Mestre em Educação pela PUCSP.

É graduado em História e Pedagogia.Atua há mais de 20 anos na Educação, passando por todos os segmentos do ensino. É professor universitário há 13 anos. Já coordenou cursos de Graduação e Pós-Graduação. Atua também como analista e consultor no mercado editorial, escolas, prefeituras e Institutos de Educação.

Dirige a Escola dos Saberes. Faz palestras e consultorias em todo o Brasil.É um dos autores no livroBNCC na prática e do livro de literatura infantilChicó, o corajoso.

É pai da Ana Clara e da Carolina, esposo da Prof. EvelizeZamone. É apaixonado pela Educação.

e-mail:  professordiegomoreira@hotmail.com  / Instagram: @profdiegomoreira

site: www.profdiegomoreira.com.br

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