No último Dia das Mães, enquanto o presidente Jair Bolsonaro se empapuçava de picanha de gado japonês ao custo de 1.800 reais o quilo, imagino o prato principal na mesa de domingo de boa parte dos brasileiros: macarrão com salsicha – se é que foi possível cozinhar essa iguaria. Dados recentes da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional revelam que mais de 116,8 milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar ou passando fome no Brasil. E desse total, cerca de 43 milhões (20,5% da população total de 211 milhões) não contavam com alimentos suficientes, além de 19 milhões (9%) sem alimentos, esfomeados. Os números superam as pesquisas anteriores de 2014 e 2008.

Sabe-se então que a realidade no Planalto não é a mesma da real situação dos brasileiros. Felizmente, o presidente ostentação da “Picanha Mito” já levou um baque na pesquisa de intenção de votos do Instituto DataFolha, divulgada no dia 12 de maio: se as eleições de 2022 fossem hoje, Luiz Inácio Lula da Silva venceria Bolsonaro (55% contra 32% dos votos).

O presidente e seu governo desastroso também estão apanhando na CPI da Covid que acontece no Senado Federal. Após a sabatina de dois ex-ministros da Saúde, do atual ministro, do presidente da Anvisa e do ex-secretário de Comunicação, as informações apuradas complicam bastante o “bem-estar” de Bolsonaro.

E pra contrapor o senador e relator da CPI Renan Calheiros, os bolsominions convocaram o senador descompensado Flávio Bolsonaro, primogênito da família do “chefe”, que já apelou esta semana no vocabulário contra Calheiros durante o depoimento de Fabio Wajngarten, ex-secretário. Wajngarten amarelou e negou que tenha dito “incompetência” em entrevista à Revista Veja para definir o trabalho do Ministério da Saúde, no período do general e ex-ministro Eduardo Pazuello. Ele se referiu à época em que o governo não atendeu o laboratório Pfizer que oferecia vacinas ao Brasil. O clima esquentou e depois de Wajngarten ser alertado que poderia sair preso da Comissão Parlamentar de Inquérito por suposta mentira, o senador Flávio partiu para o ataque a Calheiros: “Imagina, um cidadão honesto ser preso por um vagabundo como Renan Calheiros”, disse o filho do presidente. Em resposta, o senador de Alagoas disparou: “Vagabundo é você que roubou dinheiro do pessoal do seu gabinete”.

A cada rodada de entrevistados, o aperto a Jair Bolsonaro vai se consolidando na CPI. Dias atrás, quando houve a sabatina do presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, os senadores receberam uma notícia bombástica, de que houve pressão por parte do governo federal, em reunião de ministros, para a mudança do texto da bula da cloroquina no sentido de favorecer o uso no tratamento da Covid – até o momento, estudos científicos confiáveis apontam que tal medicação não funciona no tratamento do novo coronavírus. Lamentável saber essa forçada de barra do governo!

Em outra sessão não menos importante da CPI da Covid, o ex-ministro da Saúde, Nelson Teich, disse coisas reveladoras. Deixou o cargo depois da insistência do presidente em recomendar o uso da cloroquina para o tratamento da Covid. “A cloroquina foi o fator determinante, mas o problema maior foi a falta de autonomia”, resumiu. E no mesmo dia do depoimento de Teich, como cortina de fumaça (rotina comum de Bolsonaro), o presidente voltou a atacar a China e ameaçou impor decretos impedindo governadores e prefeitos de determinarem novos períodos de isolamento social.

Já o também ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, não menos polêmico, falou à CPI que enviou uma carta a Bolsonaro, onde alertava sobre os riscos da doença, antes de ser demitido do cargo em abril de 2020.

Atualmente, vivemos uma crise sanitária grave, com o número diário de mortes ainda no patamar alto, devido a uma porcentagem pequena de vacinados contra a Covid, na proporção aos mais de 211 milhões de habitantes. São apenas 37 milhões que tomaram a primeira dose da vacina, e outros 18 milhões imunizados com a segunda dose. Essa avaliação vai de encontro à declaração do atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, na sessão da CPI em que esteve presente. “O que faz diferença é uma campanha de vacinação em massa, o uso de máscara, a higiene das mãos e o afastamento social”.

E enquanto o presidente chamado de “Mito” enche a pança de picanha importada, nosso povo continua a luta diária para sobreviver, milhões à espera das vacinas e na batalha por um prato de macarrão com salsicha. Assim caminha o Brasil…

Deixo então o meu recado ao presidente: “Bolsonaro, nós também queremos picanha”.

Augusto do Jornal, diretor nacional de Finanças da CGTB e 2º suplente de vereador pelo PSB em Ferraz de Vasconcelos

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