“Voto impresso é cabresto. Pastor confere o dos fiéis; patrão confere o dos empregados; miliciano confere o da comunidade”. A frase acima, de autor anônimo, reflete muito bem o que representa a intenção do presidente Jair Bolsonaro em implantar o voto impresso no Brasil. Um retrocesso ao atual sistema de urna eletrônica já consolidada em nossa democracia, iniciado há cerca de 25 anos.

E como eram as eleições antes dos votos eletrônicos? Muitos eleitores talvez ainda não tinham nascido quando o sistema de escolha dos presidentes, governadores, senadores, deputados federais e estaduais, prefeitos e vereadores era através da cédula de papel. Inúmeras fraudes aconteceram nesse período. Há relatos de que urnas inteiras de votos em papel foram trocadas para favorecer candidato A ou B no resultado de eleições em milhares de cidades. Além disso, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não possuía um registro nacional, o que favorecia por exemplo um mesmo eleitor votar em mais de uma seção eleitoral. Outra forma irregular de voto era a de eleitores com títulos de pessoas já falecidas. Os chamados coronéis da política se espalhavam pelo interior do país e tinham muita influência sobre a escolha da população em anos de eleições.

A primeira eleição por meio de urnas eletrônicas aconteceu em 1996, em 57 municípios brasileiros com mais de 200 mil eleitores. Nascia ali um dos sistemas de votação considerado modelo em todo o mundo. Não demorou muito para anos depois, todo o sistema nacional de votação fosse unificado, acelerando o tempo de coleta e apuração dos votos, com resultados rápidos, no mesmo dia, horas depois do término das eleições. E a cada pleito eleitoral, outros países enviam comitivas no intuito de conhecer a nossa experiência. Sabe-se que existe também voto eletrônico na Austrália, Canadá, Coreia do Sul, Estados Unidos (em alguns estados), Índia, Japão, México, Peru e Suíça.

Lamentavelmente, o presidente Bolsonaro e seus asseclas, insensíveis, irresponsáveis, criaram agora mais uma narrativa conspiratória, entre tantas, com a tese burra de que é necessário implantar nas atuais urnas eletrônicas um comprovante impresso do voto, colocando em xeque toda a lisura das eleições brasileiras que se consolidou nos últimos anos. Projeto de Emenda Constitucional (PEC) de autoria da deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) está em análise numa Comissão Especial da Câmara dos Deputados. E pra valer essa ideia esdrúxula dos bolsonaristas nas eleições de 2022, o projeto precisa ser aprovado até outubro deste ano, em dois turnos, na Câmara e no Senado.

Dados do TSE projetam que a alteração nas urnas, se aprovada, vai custar 2,5 bilhões de reais. Um elevado custo, desnecessário, que ainda causará aumento nas filas e no número de equipamentos com defeito em dias de eleições, para uma nação que vive uma crise econômica grave, com desemprego recorde que atinge 14,4 milhões de brasileiros, com falta de vacinas para todos, enfim, com inúmeras demandas bem maiores e mais urgentes do que implantar impressora para os votos. Importante ainda esclarecer o seguinte: as urnas são auditáveis a cada pleito (antes e depois) e como não são conectadas à Internet, têm rede própria, não há possibilidade de invasão de hackers. Ao final de cada dia de eleição, já existe a impressão de um mapa em toda seção eleitoral que fica disponível aos fiscais dos partidos, aos eleitores que estiverem nos locais de votação.

E pra reforçar, compartilho aqui a minha opinião com a do presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, que avalia a mudança para o voto impresso como “inútil relativamente ao discurso da fraude”. E Barroso disse mais: “Esse é um discurso político. Nos Estados Unidos, havia voto impresso e boa parte dos que defendem o voto impresso no Brasil disseram que houve fraude nas eleições dos Estados Unidos. Então, ficaríamos no mesmo lugar”.

Resta aos brasileiros acreditarem que haverá bom senso entre os parlamentares para que barrem essa ideia sem sentido de implantar voto impresso nas próximas eleições. O demente Jair Bolsonaro já sabe que seu prestígio entre a população está em baixa, a rejeição a ele cresce, e a estratégia para sair dessa queda é criar a teoria conspiratória de que há fraude no processo de votação somente por urnas eletrônicas. Assim, fica mais fácil no próximo ano, com a possibilidade de sua derrota nas urnas, inventar que houve fraude se os votos não forem impressos.

Estamos de olho! Fora Bolsonaro!

Augusto do Jornal, diretor nacional de Finanças da CGTB e 2º suplente de vereador pelo PSB em Ferraz de Vasconcelos

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