Muitos brasileiros avaliam que as comissões parlamentares de inquérito – sejam elas instaladas no Senado, nas assembleias legislativas dos estados ou nas câmaras municipais – sempre “acabam em pizza”. Discordo! A atual CPI da Covid-19 tem nos revelado fatos importantes para saber quem de fato foi incapaz de conter o aumento significativo do número de mortes por coronavírus no país (já são mais de 500 mil pessoas): o presidente Jair Bolsonaro.

A CPI que investiga os efeitos da pandemia, assistida por milhões, ajudou também a estimular os organizadores das manifestações de rua exigirem a saída do presidente. Partidos de oposição, movimentos sociais e boa parte da população comparam Bolsonaro a um “genocida”, já que não dá para deixar de lamentar, de protestar ou de reafirmar a sua inoperância no combate ao vírus, por ele ter demorado na aquisição de vacinas, por negar as orientações científicas, por estimular o não uso de máscaras, por insistir em tratamento precoce com medicamentos comprovadamente ineficazes em outros países, por se aglomerar sem respeitar os protocolos sanitários. O presidente acabou virando um espelho que fez ressurgir na sociedade um número elevado de idiotas, que assim como ele, são capazes de negar a urgência em se vacinar para aumentar a imunização contra o coronavírus.

E a cada depoente sabatinado pelos senadores da CPI, as evidências que comprometem Jair e seu governo vão ficando cada vez mais fortes. Na última terça-feira, 22 de junho, foi a vez do deputado federal Osmar Terra ser ouvido. Médico, o parlamentar é apontado como um dos integrantes do suposto “gabinete paralelo” de orientação ao presidente da República no combate à Covid. Terra mentiu aos membros da comissão, negou existir um gabinete paralelo e não afirmou o que dissera anteriormente sobre a doença, cujas previsões eram de que seria um vírus com pouco efeito, menor que os casos registrados de mortes por H1N1.

Na opinião do senador e presidente da CPI, Omar Aziz, as ideias do deputado Osmar Terra são reproduzidas como um “ventríloquo’ por Bolsonaro. E isso procede, já que tanto Terra quanto o presidente são contrários aos lockdowns e ao isolamento social promovidos em alguns estados e municípios, insistem na tese de uma imunização coletiva (de rebanho) com todos nas ruas -, o que já se provou não diminuir a propagação do vírus. Portanto, todas as avaliações do médico Terra foram equivocadas e tiveram na boca de Bolsonaro uma espécie de caixa de ressonância. As bobagens de um, nas palavras do outro.

Para o senador e vice-presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito, Randolfe Rodrigues, “o depoimento do deputado Terra é uma síntese do despreparo administrativo, da ignorância orgulhosa e do negacionismo criminoso do governo Bolsonaro, uma mistura que tem causado um mal enorme ao Brasil”. Na verdade, o deputado quis na CPI proteger o presidente por não ter comprado vacinas no segundo semestre do ano passado – o motivo principal pelo nosso país ter iniciado a vacinação depois de boa parte das nações que hoje já estão com índices diários de morte e contaminação bem baixos. São os casos de Inglaterra, Itália, Espanha, Estados Unidos e outros. 

Por aqui, faltam vacinas e ainda estamos distantes de imunizar a maioria da população. A propaganda enganosa de Jair Bolsonaro reproduziu na cabeça dos brasileiros a meia verdade de que o nosso país é um dos que mais vacinou na comparação com outras nações. Isoladamente, pelo número total de vacinados, isso é real. O que não é fato (e é encoberto propositalmente)? Esse número elevado de vacinas já aplicadas não representa 11% de toda a população brasileira, somadas as duas doses. E a imunidade de rebanho virá somente quando 70% da população estiver vacinada, como avaliou o senador e membro da CPI, Otto Alencar.

Enquanto a CPI continua as investigações, o cenário político atual revela dois caminhos: a possibilidade de um processo de impeachment tendo o apoio dos parlamentares do Centrão; ou a derrota de Bolsonaro nas eleições de 2022. Há quem avalie inclusive que seu nome não disputará nem um eventual segundo turno.

Em paralelo a esse quadro, algumas lideranças políticas apostam que uma terceira via – fora da polarização Bolsonaro versus Lula – pode se construir até o próximo ano, com um nome que aglutine forças e atenda aos interesses por exemplo dos empresários, da classe dominante, cuja influência na mídia é capaz de ditar sua preferência ao eleitorado. Hoje, as principais pesquisas apontam uma vitória do petista sobre todos os demais possíveis adversários. 

E uma coisa é certa: o Brasil não aguenta mais Jair Bolsonaro!

Augusto do Jornal, diretor nacional de Finanças da CGTB e 2º suplente de vereador pelo PSB em Ferraz de Vasconcelos

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