Na última semana o Brasil assistiu a violência contra uma mulher que cuidava da própria filha. A repercussão do caso e a pressão social levaram a Justiça a decretar prisão do agressor.

Não fosse a ampla divulgação das redes sociais e o trabalho correto da imprensa, que passaram a dar mais espaço para o combate a esse tipo de crime, a mulher agredida seria mais um indicador na terrível estatística da sociedade brasileira.

É urgente que a sociedade se desfaça de dogmas e pare de tratar pautas civilizatórias como o combate a violência contra a mulher e o avanço dos direitos das mulheres (os feminismos) com dogmas religiosos perversos que aprofundam e alicerçam a desigualdade.  

Inúmeras pesquisas apontam que o avanço da construção de um paradigma feminista ainda não é suficiente para superar as desigualdades: o Brasil é o 5º país no ranking do feminicidio segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde). No Brasil, uma mulher sofre violência a cada dois minutos; em todo o mundo 07 em cada 10 mulheres já foram ou serão violentadas. Dados de 2019 apontam para um crescimento no número de estupros com relação ao ano anterior, uma média de 180 crimes por dia.

Três crianças e adolescentes são vítimas de violência sexual a cada minuto.

Leia novamente essa frase:

Três crianças e adolescentes são vítimas de violência sexual a cada minuto.

Não é possível que um homem e uma mulher que tenham filhos não se assustem com essa informação ou tenha coragem de negar a preocupação com os filhos acerca dessa temática. Meninos ou meninas estão expostos das mais diversas maneiras.

Ainda sobre a violência contra as mulheres, outros dados apontam para realidades ainda mais desiguais com relação ao trabalho e educação: apenas 0,4% de cargos executivos são ocupados por mulheres negras em empresas de grande porte; mulheres representam dois terços dos 750 milhões de adultos sem habilidades básicas de leitura e escrita no mundo.

A partir de uma perspectiva que entende o feminismo como movimentos organizados que buscam rompem com modelos hierarquizados, e pretende superar as formas de poder assimétricas e autoritárias é preciso que o conhecimento feminista seja compartilhado e ensinado nas escolas para meninas e meninos de modo que as contribuições dos movimentos feministas para a sociedade sejam conhecidas por todas as pessoas.

Não podemos aceitar argumentos mentirosos  que afastam a pauta das garantias de direito das mulheres e dos avanços urgentes que a sociedade  precisa. Mulheres diariamente são assediadas no transporte público, diariamente sofrem preconceitos, violências e tem suas vidas colocadas em risco a cada retorno do trabalho ou da faculdade que tem que passar por uma rua escura.

É fundamental que os críticos das lutas que combatem a viol~encia contra as mulheres, revisitem com honestidade a história, o direito, a filosofia. E para quem gosta até a teologia. E encontre argumentos cabais que sejam capazes de defender uma sociedade que continua matando mulheres, violentando crianças e silenciando as causas.

Considerando que a participação das mulheres na história  ganhou corpo nas décadas de 1960 e 1970 na Europa e nos Estados Unidos juntamente com o crescimento das ideias feministas, onde um esforço coletivo surgiu com a intenção de retirar as mulheres da invisibilidade e reconhecer a sua importante participação no processo histórico, muito ainda há para aprender.

Dar luz a história das mulheres é também legitimar a diversidade e complexidades das suas relações; conhecer a história do filho e das famílias; reconhecer formas de violência e de resistência que compõem essas narrativas, em suas mais variadas configurações.

Proporcionar condições de construção de conhecimento sobre as identidades, valorizando as diferenças e a diversidade tem sido aos poucos temas incorporados nas salas de aula, no entanto, ainda é necessário que essas iniciativas não estejam apenas maquiadas por um compromisso a favor da igualdade ou do multiculturalismo, mas realmente contra qualquer forma de misoginia, racismo, violência, homofobia ou transfobia.

A sociedade, as escolas e as famílias devem conversar ao redor da mesa, nos pátios e nas salas de aula sobre o combate intransigente de qualquer relação que diminua e violente ou mantenha vínculos abusivos com meninas e mulheres. É urgente combater a sociedade estruturalmente machista e culturalmente conivente.

Se opor a todo tipo de violência contra as mulheres e meninas é o mínimo que uma sociedade civilizada espera de qualquer cidadão ético. 

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O prof. Diego Moreira é Doutorando e Mestre em Educação pela PUCSP.

É graduado em História e Pedagogia.Atua há mais de 20 anos na Educação, passando por todos os segmentos do ensino. É professor universitário há 13 anos. Já coordenou cursos de graduação e pós-graduação. Atua também como analista e consultor no mercado editorial, escolas, prefeituras e Institutos de Educação.

Dirige a Escola dos Saberes. Faz palestras e consultorias em todo o Brasil.É um dos autores no livro: BNCC na prática e do livro de literatura infantil: Chicó, o corajoso.

É pai da Ana Clara e da Carolina, esposo da Prof. EvelizeZamone. É apaixonado pela Educação.

e-mail:  professordiegomoreira@hotmail.com  / Instagram: @profdiegomoreira

site: www.profdiegomoreira.com.br

A prof. Evelize Zamone Moreira formada no magistério do CEFAM, graduada em Pedagogia, especialista em Didática do Ensino Superior e em Artes Manuais para Educação. Pesquisadora do tema Feminismos e Educação na Sociedade Contemporânea. É Co- autora do livro Chicó, o Corajoso. É professora no Colégio La Salle em SP e sócia na Escola dos Saberes, faz consultorias e trabalhos técnicos para editoras e redes municipais sobre Educação, Educação Infantil e Currículos.

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