Mais uma derrota para o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A votação do Projeto de Emenda Constitucional (PEC 135/19) sobre o voto impresso na Câmara dos Deputados, nesta terça-feira, 10 de agosto, terminou desfavorável ao objetivo do governo: 229 deputados favoráveis, 218 contra e houve uma abstenção. Para ser aprovado, eram necessários 308 a favor e o projeto que propunha cédulas físicas conferíveis pelo eleitor acabou então arquivado.

O dia da votação foi marcado por muita tensão em Brasília. Coincidentemente ou não, logo pela manhã, houve um desfile militar de tanques e armamentos que passaram em frente à rampa do Planalto, contemplados por autoridades militares, ministros e o próprio presidente Bolsonaro. Para muitos analistas políticos, uma forma de intimidar os parlamentares na mesma data da votação da PEC do voto impresso. Coisa típica de governos de republiquetas autoritárias que utilizam suas forças armadas para criar pânico, medo, cooptação.

A pressão dos milicos não adiantou e o projeto da deputada Bia Kicis (PSL-DF) – da tropa de choque de Bolsonaro – caiu por terra. Foi a terceira derrota (duas na Comissão Especial da Câmara) dessa narrativa conspiratória do governo e de aliados que enxergam fraudes não comprovadas nas urnas eletrônicas, em eleições passadas. A mentira tem pena curta, caros leitores.

E ninguém aguentava mais assistir o chefe da Nação reclamar das eleições de 2022, querendo ganhar o debate do voto impresso na força, quando se sabe que o objetivo maior dele foi o de criar no país o controle dos votos, o voto de cabresto, com a impressão nas urnas eletrônicas para aumentar o poder por exemplo de milicianos na conferência dos votos dos eleitores de suas comunidades. Seria uma espécie de volta dos coronéis na política.

Bolsonaro entende que enfrentará um adversário forte, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que já aponta nas pesquisas eleitorais em primeiro lugar, com o favoritismo dos entrevistados. Em qualquer cenário, dentre os adversários possíveis, incluindo o presidente, Lula venceria o pleito se as eleições acontecessem hoje.

Aliado de Jair Bolsonaro, o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP-AL), ao mesmo tempo em que favoreceu o presidente da República ao agendar com urgência a votação da PEC do voto impresso em plenário, mesmo com as derrotas na Comissão Especial, já deu o assunto por encerrado. Nos bastidores, Lira é o grande vencedor dessa aliança com Bolsonaro, pois já emplacou dois nomes nas trocas de ministros: na Casa Civil e na Secretaria de Governo. O deputado alagoano é também o responsável por aliviar as pressões de inúmeros pedidos de impeachment do presidente que chegam a Brasília. E pelo andar da carruagem, Bolsonaro parece caminhar até as eleições de 2022, “sangrando” e muito dependente de Arthur Lira. 

Do lado dos partidos da oposição, a alegria é imensa com essa derrota da PEC e com a popularidade de Jair Bolsonaro despencando a cada dia. Já os deputados do Centrão – divididos entre favoráveis e contrários ao voto impresso – estão confortáveis porque sabem de sua força nesse momento de fragilidade do governo. Na fotografia atual em que se observam os poderes Executivo e Legislativo, fica clara a dependência de Bolsonaro ao Centrão e a Lira, pra continuar no cargo e tentar aprovar seus projetos.

Apesar de derrotado, como é teimoso, desarticulado e possui déficit cognitivo, o chefe da Nação não vai pelo jeito abandonar o discurso furado de fraude nas urnas eletrônicas. Isso ficou evidente na avaliação do deputado federal aliado ao presidente, Vitor Hugo (PSL-GO), ao dizer que os parlamentares irão agora pressionar o Senado Federal para votar outra proposta com tema semelhante e, ao mesmo tempo, criar uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) sobre a segurança do sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Haja teoria conspiratória!

E enquanto Brasília parece distante da realidade dos brasileiros, há problemas muito mais importantes para se resolver. A economia vai mal das pernas, apesar do discurso otimista do ministro Paulo Guedes. A inflação voltou aos dois dígitos, com os preços do arroz, feijão, carne, leite e gás disparados nos últimos meses. Sem contar que ainda somamos o lamentável recorde de 14,8 milhões de desempregados.

O Brasil não merece Jair Bolsonaro! E as urnas eletrônicas são a marca da democracia e do estado de direito. 

Augusto do Jornal, diretor nacional de Finanças da CGTB e 2º suplente de vereador pelo PSB em Ferraz de Vasconcelos

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