Tempo é Cronos eKairós

Tempo é passado, presente e futuro

Tempo é a sucessão de momentos

Tempo é memória, percepção e antecipação…(Adan, 2008)

É tempo de posicionar-se.

O tempo que vivemos são complexos e profundamente exigentes. São tempos que estão ceifando vidas, abreviando histórias e distanciando amores. São tempos exigentes para os que ousam refletir, aprender e pensar. São tempos que gritam por posicionamentos.

É fundamental nos posicionarmos em tempos que o obscurantismo e a negação da ciência ganham adeptos e avançam a largos passos. O Datafolha aponta que no Brasil atualmente quase 11 milhões de pessoas defendem que a terra é plana. Parece absurdo né? Pois bem, existem pessoas que defendem isso com veemência.

Também existem pessoas que defendem que padres não devem alimentar pobres, pessoas que defendem que universidade não deve ser para todos, que defendem que não pode ter religião e posicionamento político e até àquelas que defendem que mulher pode apanhar sim.

É urgente nos posicionarmos sobre a importância da vacina, por exemplo, didaticamente explicamos para as pessoas que a vacina salva vidas e que remédios sem comprovação científica não possuem efeito no combate às doenças. Sejam elas quais forem… de covid à dor na coluna. Pois é, milhares de pessoas estão morrendo por negarem a vacinação.

Por vezes me sinto conversando obviedades, mas como diz o filósofo: O óbvio precisa ser dito.

Em meio à maior crise econômica das últimas duas décadas, com indicadores de desemprego que batem os 14.8 milhões de brasileiros e quase 40 milhões em condições informais de trabalho, com a inflação batendo recordes de 9% e a população mais pobre sofrendo para comprar arroz (48% mais caro), carne (38% mais caro), gás (24% mais caro) e feijão (22% mais caro) e vivemos a desfaçatez de pautar o voto impresso. Olha que ironia do tempo que vivemos.

Sim. O país parou para votar um devaneio do “inominável” que ocupa a principal cadeira da República, a qual, não por coincidência foi noticiada no mundo como “Republiqueta de bananas” depois do fiasco do desfile protagonizado pelas Forças “quase” Armadas.

É indispensável que as posições sejam claras e combativas diante da negação da ciência, do conhecimento historicamente construído e das evidências dos dados. É uma relação bem simples de fazer, é só analisar os objetivos nefastos de um (des)Ministro da Educação que defende que a Universidade deve ser para poucos ao mesmo passo que um governante espalha mentiras para população. Ora, ora… essa é uma receita antiga. Negar a consciência, a autonomia e o conhecimento para a manutenção dos currais eleitorais e a permanência no poder.

Os posicionamentos que se opõem a gestão mais obscurantista e negacionista da história do país são evidentes e são muitos. Mas, ainda assim, quero dar um passo adiante e problematizar sobre os posicionamentos no chão da vida. Ainda acredito que é urgente avançar com clareza e lucidez nos posicionamentos diários que precisamos adotar.

Sabe aquela piada homofóbica do tiozão? Aquele meme que destila ódio no grupo da família? Sabe aquele racismo de cada dia que ignoramos tacitamente? E aquele comentário religioso que diminui, expõe e constrange o coleguinha de trabalho ou o familiar que declara outra fé?

É isso. O tempo que vivemos exige de nós posicionamentos efetivos sobre essas questões. Posicionamentos que constranjam as pessoas de qualquer comentário racista, homofóbico, machista ou intolerante na nossa presença.

É urgente que o tiozão saiba que ao nosso lado piada homofóbica não terá graça.

E sabe aquele primo, irmão ou cunhado que envia meme no grupo da família ridicularizando mulheres com comentários machistas? Essas pessoas também precisam ficar envergonhadas diante das notícias de assassinato de meninas e mulheres que viviam em condições que a violência contra elas era normalizada ou velada.

Lembra daquela irmã da igreja que destila preconceito contra as pessoas que são adeptas das religiões de matriz africana? Essa irmã querida, precisa saber que o preconceito dela custam vidas.

Lembra daquele discurso na mesa de domingo do amigão da família, aquele que cresceu junto no bairro, sabe quando criminaliza os movimentos sociais e fala que todo pobre ou pessoa em situação de rua é vagabundoe ainda afirma que o sujeito está naquela situação por falta de esforço, por não ter vontade de mudar ou porque recebe auxílio do governo… sabe? 

Esse amigão aí, que dá o jeitinho no Imposto de Renda e sabe um “esquema” para tirar a “carta de motorista”, esse amigão que consegue um celular mais barato com outro amigo…então esse sujeito deveria ser constrangido ao defender ideias desse teor sentado à mesa de qualquer família.

Os posicionamentos não ficam apenas para o andar de cima quando miramos nos chefes de estados, governadores e prefeitos. Os posicionamentos são cotidianos e estão diante de nós a cada instante que alguém defende uma ideia absurda e convenientemente ficamos calados ou sorrimos amarelo.

Podemos até pensar que assim o mundo fica muito chato e que não vamos rir de mais nada… que agora não se pode mais brincar… que antigamente não tinha racismo, homofobia ou feminicídio…que essa geração é cheia de “mi-mi-mi”… Não, não é verdade. É possível ser feliz num mundo que ninguém precisa ser diminuído para outros sorrirem.

Se posicionar é ter clareza que racismos, homofobia, machismos e intolerâncias não são brincadeiras inocentes e precisam ser combatidos na sala de casa e ao redor da mesa de jantar, no churrasco e com as amigas do colégio no grupo de WhatsApp, se posicionar é não aceitar que a coleguinha constranja ou diminua qualquer pessoa por sua religião, é se opor claramente a negação da ciência e do conhecimento. É não aceitar racismos e nem homofobia do parente querido. Se posicionar é deixar claro que pensamentos e atitudes que reforçam essa mentalidade devem ser extintos da sociedade.

Não podemos aceitar que o convívio com pessoas que defendem posições de ódio e intolerância sejam normalizados.

E como diz o velho ditado alemão: “Se tem dez pessoas numa mesa, senta um nazista e ninguém se levanta, é porque tem onze nazistas na mesa”.

No tempo em que vivemos é preciso ter coragem para os posicionamentos e enfrentamentos.

É tempo de posicionar-se!

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O prof. Diego Moreira é Doutorando e Mestre em Educação pela PUCSP.

É graduado em História e Pedagogia.Atua há mais de 20 anos na Educação, passando por todos os segmentos do ensino. É professor universitário há 13 anos. Já coordenou cursos de graduação e pós-graduação. Atua também como analista e consultor no mercado editorial, escolas, prefeituras e Institutos de Educação.

Dirige a Escola dos Saberes. Faz palestras e consultorias em todo o Brasil.É um dos autores no livro: BNCC na prática e do livro de literatura infantil: Chicó, o corajoso.

É pai da Ana Clara e da Carolina, esposo da Prof. EvelizeZamone. É apaixonado pela Educação.

e-mail:  professordiegomoreira@hotmail.com  / Instagram: @profdiegomoreira

site: www.profdiegomoreira.com.br

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