Movido por duas razões resolvo escrever a coluna de hoje sobre as memórias do curso de magistério. O primeiro motivo é situacional, pois minhas alunas do curso de Pedagogia, em suas redes sociais, constantemente me lembram que às quintas feiras são dias de memórias, o conhecido #tbt. E o segundo motivo, talvez menos efêmero, foi o esforço de memória que realizei nas últimas semanas para entregar um capítulo de um novo livro sobre experiencias do magistério.

Sensibilizado compartilho com vocês uma pequena nuance dessas memórias. É muito provável que uma geração de professores também lembre das vivências do curso de magistério.

Ingressei no curso de magistério de uma escola chamada CEFAM (Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento para o Magistério) que se localizava na região de São Miguel Paulista, zona leste da capital de SP. Após um vestibulinho concorrido entre os estudantes da 8ª série das escolas públicas da região. Sim, em meados de 1996 ainda se chamava série e terminava no 8º.

O CEFAM admitia 120 alunos novos por ano, divididos em turmas do 1º A, B e C. Esses futuros professores eram recepcionados por uma reunião bem sisuda conduzida pela coordenadora geral e obrigatoriamente com a presença dos responsáveis. O encontro era marcado pelas explicações administrativas sobre o recebimento da bolsa de estudos, da carga horária de aulas e de todas as responsabilidades da rotina da escola.

Era uma escola de tempo integral, as aulas iniciavam as 7h e terminavam as 17h30 – talvez tenha alguma variação de horário que a memória já não ajuda – no total eram 10 turmas do 1º ao 4º ano do curso de magistério com aproximadamente 400 estudantes e sua grande maioria meninas.

O dia a dia no curso do magistério era marcado por diversas particularidades e possuía uma pseudo-estrutura hierárquica entre as turmas, uma espécie de “status-quo”.

As turmas de 4º anos gozavam de alguns privilégios, já eram mais maduras pois estavam quase se formando, conheciam bem a estrutura, os professores e todos os ritos do dia a dia da escola. Os times dos 4 anos eram os mais preparados nos campeonatos escolares e elas já falavam de vestibulares e concursos públicos.

As turmas de 3º anos eram as que organizavam as festas e desejavam ser como as meninas dos 4º anos. Os terceiros eram mais acessíveis e também já estavam envolvidas com as rotinas de estágios fora da escola.

As turmas de 2º anos eram de sobreviventes do primeiro e só o fato de ter chegado ali já era razão suficiente de comemorar. Agora os 1º anos era a rabeira da “cadeia alimentar”… responsáveis pela limpeza das festas, pela execução das tarefas braçais e por aprender com as demais turmas.

Contando assim, parece que era um clima pesado, mas não. O clima do magistério era de muito afeto, brincadeira e parceria.

Posso afirmar que quem fez o magistério do CEFAM possui amigos que até hoje.

O dia a dia da escola era de muitos estudos, muita aula e claro muita brincadeira também. Em determinado período do curso, uma boa parte dos alunos gostava de jogar Handebole além do campeonato anual os intervalos de lanche e almoço eram cenários de grandes jogos.

A turma que gostava de jogar deixava de comer para iniciar rapidamente as partidas de handebol em times mistos entre as séries. Na hora do almoço, rapidamente descíamos para dar continuidade na partida iniciada no primeiro horário de lanche da manhã. A quadra poliesportiva era muito movimentada e os escadões da arquibancada ficavam lotados assistindo as estudantes do magistério.

Muitas vezes a inspetora de alunos precisava entrar apitando e retirar a bola para que todos subissem para a continuidade das aulas.

Um fato inesquecível de quem fez CEFAM era o almoço no marmiteiro. Algumas alunas almoçavam na cantina, mas a maioria levava marmita que eram aquecidas num instrumento chamado “marmiteiro”, eram grandes bandejas com água que funcionavam em banho-maria. Eram as turmas de 1º ano que tinham a obrigação de limpar e trocar a água para o perfeito funcionamento. Fato, que nem sempre ocorria.

Muitas vezes, muitas vezes mesmo, as marmitas eram trocadas de suas respectivas donas, e isso gerava conflitos sérios. Marmitas abertas com conteúdo boiando, frias ou queimadas. A situação se agravou a ponto de insurgir a “greve do marmiteiro”. Foi a primeira greve que participei na vida.

Os tempos de CEFAM eram intensos, um curso de estudantes no período da adolescência que aprendiam sobre a vida e sobre a profissão. O acolhimento dos docentes e o compromisso ético e político da formação para o magistério formou uma geração de professores de muita qualidade.

Quem teve a oportunidade de cursar o magistério no CEFAM certamente possui memórias de como a escola foi transformadora das trajetórias de vida. O curso de magistério do CEFAM, uma escola pública estadual, formou uma geração de professores que são socialmente reconhecidos nas suas atividades profissionais, que ingressaram nos concursos públicos mais concorridos e deram prosseguimento nos estudos universitários numa época que a universidade ainda era algo muito distante para jovens de escola pública.

As memórias do magistério me fazem refletir de como a vivência na escola é positiva, marcante e transformadora na vida de milhares de jovens. As memórias do magistério me fazem ainda acreditar que projetos de escola pública com apoio pedagógico, estrutural e financeiro podem sim alterar a rota de vida de adolescentes.

Quando lembro na minha geração de colegas formado no CEFAM, lembro com orgulho de ver o quanto aquela escola mudou a vida da nossa turma. Encontro amigos de CEFAM que são professores das redes públicas e privadas, que fizeram 1,2 ou 3 graduações, são mestres e doutores, coordenadores, diretores e supervisores de ensino. É uma geração que continua ecoando o compromisso ético de uma escola inclusiva, potente, acolhedora e radicalmente transformadora.

O CEFAM mudou a trajetória de seus estudantes e as memórias desse tempo precisam ser guardadas e compartilhadas com uma geração de jovens que precisa voltar a acreditar que o futuro é possível.

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O prof. Diego Moreira é Doutorando e Mestre em Educação pela PUCSP.

É graduado em História e Pedagogia.Atua há mais de 20 anos na Educação, passando por todos os segmentos do ensino. É professor universitário há 13 anos. Já coordenou cursos de graduação e pós-graduação. Atua também como analista e consultor no mercado editorial, escolas, prefeituras e Institutos de Educação.

Dirige a Escola dos Saberes. Faz palestras e consultorias em todo o Brasil.É um dos autores no livro: BNCC na prática: Ensino Médio e do livro de literatura infantil: Chicó, o corajoso.

É pai da Ana Clara e da Carolina, esposo da Prof. EvelizeZamone. É apaixonado pela Educação.

e-mail:  professordiegomoreira@hotmail.com  / Instagram: @profdiegomoreira

site: www.profdiegomoreira.com.br