Os dados assustam, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 40% dos estudantes já sofreram com o bullying, seja por meio de intimidação, como por provocação. Esses números ainda podem ser muito maiores, pois após a pandemia, uma nova prática ganhou força e tem causado sérios danos às crianças e adolescentes, o cyberbullying. Conversamos com Adriana Maria Piton, Coordenadora do Ensino Fundamental Anos Finais do Colégio Leonardo da Vinci de São Paulo, para ter uma visão bem clara do crescimento dessas modalidades.

“Antes mesmo do surgimento da pandemia, a escola já vivia muitos momentos desafiadores em relação ao bullying. No pós-pandemia, esse cenário somou-se ao cyberbullying, pelo aumento do tempo na internet, principalmente nas redes sociais. Observamos que enquanto os alunos estavam estudando em suas casas, a grande maioria não tinha rotina e assim ficavam muito tempo ociosos, o que permitiu as práticas de cyberbullying que se estendeu na volta as aulas. Além das questões voltadas a falta de socialização deste período”, explica a profissional que reforça a sensação de não pertencimento que muitos alunos sentiram quando voltaram para a escola:

“No retorno ao presencial, percebemos que a preocupação dos alunos é muito mais com a socialização do que com os conteúdos que são passados em sala de aula, e nesse ímpeto, as relações entre eles perderam um pouco do respeito e limites que toda relação precisa, o que dá margem a brincadeiras que levam a prática do bullying na maioria das situações”, diz Adriana Maria Piton que reforça a importância da escola nesse combate e como, em sala de aula, ela trabalha o tema. “A escola sempre procura discutir com os alunos esse tema, mesmo porque, muitas vezes eles nos trazem situações que acontecem com eles ou com os colegas. Aqui em nossa escola, trabalhamos com rodas de conversa para escuta sobre o tema e trabalhamos também, por exemplo, com o filme Divertidamente para falar das emoções e o que elas nos provocam”.

Nos últimos dias têm se falado de perfis em redes sociais que têm como objetivo difamar e fazer fofoca sobre crianças e adolescentes. Usando a #explana, esses perfis ganham força com prints de conversas, fotos de momentos íntimos e áudios vazados. Casos de depressão têm aumentado em consultórios por conta dos ataques e o medo assombra os responsáveis. Com o intuito de auxiliar e informar os alunos, o Colégio Leonardo da Vinci, ministra palestras sobre o tema para os estudantes. Levando profissionais da área de segurança digital, além de investir em psicólogos. Adriana Maria Piton, coordenadora da escola, fala sobre as iniciativas que podem ser replicadas em escolas de todo o Brasil:

“É sempre importante que os alunos sejam orientados a falar sobre o assunto. Além disso, é preciso existir um trabalho de orientação constante por parte da escola. Trazer situações reais e vividas (por exemplo, com estudo de casos) para que assim, cada vez mais se tornem capazes de identificar as diferentes situações, ou seja, se estão sendo alvo de bullying, ou se assumem a posição de quem está observando ou mesmo praticando. Trabalhar a empatia e o respeito ao outro, também é fundamental e essencial dentro deste contexto”.

“Acompanhe a vida escolar dos seus filhos!”

Essa é a máxima da Adriana Maria Piton, ela acredita que a abordagem precisa ser leve, casual e intencional:

“As crianças nos dão pistas que muitas vezes não conseguimos enxergar. É sempre muito importante perguntar ao filho, ao invés de “como foi o seu dia”, perguntar “o que você aprendeu de novo hoje?”. Dar possibilidades da criança se manifestar sem julgamentos, para que possamos sempre ser uma referência de confiança para os filhos”, relata a coordenadora educacional que sugere um acompanhamento também do acesso às redes sociais. “Monitorar o acesso às redes sociais, bem como a utilização do uso de celular, jogos e aparelhos eletrônicos, também é fundamental. Boa parte destas situações acontecem nestes ambientes”.

Meu filho foi vítima de bullying e agora?

“No caso do ambiente escolar, família e escola precisam estar sempre em parceria. É preciso informar a escola sobre situações que o filho esteja passando, pois pode acontecer do bullying ser velado e a escola não saber que tais situações estejam acontecendo no dia a dia. É preciso muito cuidado e cautela, quando se trata de alunos com diferentes idades. É fundamental também que a famílias dos envolvidos participem deste processo e assumam a responsabilidade na formação e educação dos filhos. Juntas, família e escola saberão como resolver o problema”, detalha Adriana Maria Piton que fala um pouco sobre a iniciativa de introduzir uma palestra para seus alunos sobre o tema:

“A maioria dos episódios de bullying são identificados na escola, principalmente considerando as relações entre os pares, à convivência diária e a rapidez tecnológica que assombra o mundo, tornando nossas crianças e adolescentes com seus valores cada vez mais deturpados. Por isso, realizaremos alguns encontros com a Dra. Ivanice Cardoso para a realização da primeira parte do nosso trabalho. Ela é advogada, especialista em Direito de Imagem, atuante em Privacidade e Proteção de Dados. Consultora de Escolas, Empresas e famílias para a Segurança no Comportamento”, informa a profissional que diz que o trabalho é permanente:

“Conhecer, saber prevenir e combater para melhor conviver, sem dúvida será a melhor forma de trabalho, na busca da tomada de consciência, conhecimento e mudança de comportamento da comunidade escolar”, finaliza Adriana Maria Piton.