País registra média de 40,1 horas por semana e trabalha mais que Estados Unidos, Japão e nações da Europa Ocidental, apesar de baixa produtividade
O trabalhador brasileiro dedica mais tempo ao trabalho semanal do que profissionais de países frequentemente apontados como modelos de eficiência, organização e cultura laboral. É o que revela um ranking global de horas trabalhadas, que coloca o Brasil à frente de economias como Estados Unidos, Japão, França e Itália quando o critério analisado é o tempo médio dedicado ao trabalho por semana.
Com 40,1 horas semanais, o Brasil aparece acima da média de diversas nações desenvolvidas, contrariando a percepção comum de que países mais ricos trabalham mais. Os dados reforçam um debate recorrente no país: o problema do mercado de trabalho brasileiro não está na falta de esforço, mas na dificuldade de transformar horas trabalhadas em produtividade e renda.
Ranking global compara 160 países e cobre 97% da população mundial
O levantamento foi organizado pelo economista Daniel Duque, do FGV Ibre, com base em um banco de dados global estruturado por Amory Gethin, do Banco Mundial, e Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley. A base reúne informações de 160 países, cobrindo cerca de 97% da população mundial, com dados extraídos de organismos internacionais como a Organização Internacional do Trabalho.
Na comparação direta entre 87 países, o Brasil ocupa a 38ª posição, com jornada média superior à de grande parte da Europa Ocidental. Na outra ponta do ranking aparecem países como a França, com cerca de 31 horas semanais, a Itália, com 34,1 horas, e a Dinamarca, que registra pouco menos de 30 horas por semana.
Mesmo na América Latina, o Brasil se destaca pelo maior volume de horas trabalhadas. A Argentina, por exemplo, apresenta média de 37,3 horas semanais, número inferior ao brasileiro.
Brasil trabalha mais que Estados Unidos e Japão
O contraste fica ainda mais evidente quando o Brasil é comparado a duas das economias mais admiradas do mundo. Nos Estados Unidos, a média semanal é de 38,6 horas, colocando o país atrás do Brasil no ranking. Já no Japão, historicamente associado a jornadas longas e intensa dedicação profissional, a média atual é de 35,5 horas semanais, quase cinco horas a menos do que a registrada no mercado de trabalho brasileiro.
Esse dado chama atenção porque desmonta estereótipos consolidados sobre a relação entre disciplina, cultura de trabalho e quantidade de horas dedicadas ao emprego. Na prática, o brasileiro trabalha mais, mas colhe menos resultados econômicos.
Média global ainda é superior, mas Brasil supera economias avançadas
Em nível mundial, a média de horas trabalhadas nos anos de 2022 e 2023 foi de 42,7 horas semanais, puxada por países em desenvolvimento e economias com menor nível de renda. Na liderança do ranking aparecem nações como Butão e Sudão, com jornadas que ultrapassam 50 horas semanais.
Ainda assim, o Brasil se mantém acima de várias economias avançadas que figuram entre as mais organizadas do planeta em termos de eficiência produtiva, qualidade de vida e renda per capita. Isso evidencia um paradoxo: trabalha-se muito, mas produz-se pouco.
Baixa produtividade expõe desafio estrutural do país
Quando o critério analisado deixa de ser tempo e passa a ser produtividade, o cenário brasileiro muda radicalmente. Segundo ranking da Organização Internacional do Trabalho, o Brasil ocupa apenas a 94ª posição entre 184 países.
O trabalhador brasileiro produz, em média, US$ 21,2 por hora, número muito inferior ao observado nos Estados Unidos, onde a produtividade chega a US$ 81,8 por hora, e no Japão, com US$ 52,7. O país também fica atrás de vizinhos latino-americanos como Uruguai, Chile e Argentina.
Esse indicador considera o Produto Interno Bruto dividido pelo total de horas trabalhadas, incluindo empregos formais e informais. O levantamento foi destacado pela Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina, com base em dados do IBGE.
Mais horas não significam mais desenvolvimento
Especialistas apontam que o entrave central do Brasil não está na dedicação do trabalhador, mas em fatores estruturais que limitam o aproveitamento das horas trabalhadas. Entre os principais problemas estão a baixa qualificação média da mão de obra, o acesso restrito à tecnologia, a informalidade elevada e o baixo investimento em inovação.
Sem avanços nessas áreas, o país tende a manter um modelo em que longas jornadas resultam em salários menores, menor competitividade internacional e perda de qualidade de vida, mesmo com esforço elevado da população economicamente ativa.
Debate sobre produtividade ganha força
Os dados reacendem o debate sobre a necessidade de políticas públicas e privadas voltadas à capacitação profissional, modernização tecnológica e aumento da eficiência econômica. A experiência internacional mostra que países que trabalham menos horas, mas investem mais em educação, tecnologia e gestão, conseguem melhores resultados econômicos e sociais.
No caso brasileiro, o ranking global deixa claro que o problema não é falta de trabalho, e sim a dificuldade histórica de transformar esforço em prosperidade.



