Moscou lamenta expiração do último tratado de controle nuclear com Washington, enquanto ONU alerta para maior risco atômico em décadas
A Rússia declarou nesta quinta-feira (5) que lamenta o fim do New START, o último tratado de controle de armas nucleares em vigor entre Moscou e Washington. O acordo, considerado um dos pilares da estabilidade estratégica global, expirou sem substituição, abrindo caminho para um cenário de incerteza, desconfiança e possível corrida armamentista entre as maiores potências nucleares do planeta.
Apesar do encerramento formal do tratado, o Kremlin afirmou que continuará adotando uma postura “responsável” em relação ao uso e à implantação de armas nucleares, mesmo com o fim das limitações impostas pelo acordo.
O que era o New START e por que ele era estratégico
O New START (Novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas) entrou em vigor em 2011 e estabelecia limites rigorosos para os arsenais nucleares de Rússia e Estados Unidos. O acordo restringia:
- O número de ogivas nucleares estratégicas
- A quantidade de mísseis balísticos intercontinentais
- O total de lançadores e bombardeiros estratégicos
O tratado permitia ainda mecanismos de verificação e inspeção, fundamentais para garantir transparência e previsibilidade entre as duas potências, reduzindo o risco de erros de cálculo ou escaladas acidentais.
Com sua expiração, encerra-se uma sequência de acordos que remontam à Guerra Fria, período marcado por esforços diplomáticos para conter a proliferação nuclear.
Kremlin lamenta, mas fala em agir conforme interesses nacionais
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que a Rússia encara o fim do tratado com pesar, mas deixou claro que o país passa a atuar sem as amarras formais do acordo.
“Em qualquer cenário, a Federação Russa manterá sua abordagem responsável e atenta em relação à estabilidade estratégica no campo das armas nucleares, guiando-se прежде de tudo por seus interesses nacionais.”
O Ministério das Relações Exteriores da Rússia declarou que considera o tratado definitivamente encerrado, deixando ambas as partes livres para decidir seus próximos passos no campo militar e diplomático.
Proposta russa e posição dos Estados Unidos
O presidente russo Vladimir Putin havia sugerido que Moscou e Washington mantivessem voluntariamente os principais limites do New START por mais um ano, como forma de ganhar tempo para negociações.
Os Estados Unidos não formalizaram uma resposta direta à proposta. O presidente Donald Trump, no entanto, afirmou que deseja um acordo “melhor”, que inclua também a China.
A Casa Branca informou que Trump decidirá os próximos passos no controle de armas nucleares “em seu próprio tempo”, mantendo indefinição sobre o futuro das negociações.
China rejeita negociações trilaterais
A inclusão da China nas tratativas é um dos principais entraves para um novo acordo. Pequim tem reiterado que não pretende negociar com Rússia e Estados Unidos neste momento.
O argumento chinês é numérico: enquanto russos e americanos possuem cerca de 4 mil ogivas nucleares cada, a China tem um arsenal estimado em aproximadamente 600 ogivas.
Mesmo assim, especialistas alertam que o crescimento acelerado do arsenal chinês é um fator adicional de preocupação para o equilíbrio estratégico global.
Especialistas alertam para risco de nova corrida armamentista
Analistas em segurança internacional afirmam que a ausência de um tratado ativo dificulta a avaliação das intenções do adversário, aumentando o risco de decisões baseadas em cenários pessimistas.
Sem o New START, Rússia e Estados Unidos poderiam, em poucos anos, implantar centenas de ogivas adicionais, superando o limite anterior de 1.550 ogivas estratégicas por país.
Segundo Karim Haggag, diretor do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri):
“Transparência e previsibilidade são benefícios intangíveis do controle de armas e sustentam a dissuasão e a estabilidade estratégica. Sem isso, as relações entre Estados com armas nucleares tendem a se tornar mais propensas a crises.”
O especialista destaca ainda que o avanço da inteligência artificial e de novas tecnologias militares torna o cenário ainda mais imprevisível.
ONU faz alerta: risco nuclear é o maior em décadas
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, afirmou que o fim do tratado ocorre no pior momento possível.
“A dissolução de décadas de avanços no controle de armas não poderia acontecer em um momento pior. O risco de uso de uma arma nuclear é o mais alto em décadas.”
Guterres pediu que Rússia e Estados Unidos retomem as negociações sem demora, com o objetivo de criar um novo marco que restabeleça limites verificáveis e mecanismos de confiança mútua.
Reações internacionais ampliam tensão
A China também classificou a expiração do tratado como lamentável e defendeu a retomada do diálogo sobre estabilidade estratégica.
Já a Ucrânia, em guerra com a Rússia desde a invasão de 2022, afirmou que o fim do New START é consequência direta das ações russas para fragmentar a arquitetura de segurança global.
Em nota, o Ministério das Relações Exteriores ucraniano acusou Moscou de usar o tema nuclear como instrumento de pressão política e chantagem, com o objetivo de minar o apoio internacional a Kiev.
O que muda com o fim do tratado
Com a expiração do New START:
- Não há mais limites legais para ogivas estratégicas
- Inspeções e verificações são interrompidas
- A confiança mútua entre as potências nucleares diminui
- A probabilidade de escaladas por erro de cálculo aumenta
Especialistas alertam que, sem canais diplomáticos ativos e regras claras, o mundo entra em um período de maior vulnerabilidade nuclear desde o fim da Guerra Fria.




