Críticas do presidente americano ao show do cantor porto-riquenho no intervalo da final da NFL expõem tensões políticas, imigração e identidade latina em um dos maiores eventos de mídia do mundo
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usou suas redes sociais na noite deste domingo (8) para criticar duramente a apresentação do cantor Bad Bunny no intervalo do Super Bowl. Sem citar diretamente o nome do artista, Trump classificou o espetáculo como uma “bagunça” e afirmou que o show foi uma “afronta à grandeza da América”.
As declarações rapidamente repercutiram nas redes e ampliaram um debate que já vinha ganhando força: o uso do palco mais assistido da televisão americana como espaço simbólico de afirmação cultural e política.
Trump critica show e questiona valores culturais
Em publicação feita no Truth Social, Trump não poupou palavras ao comentar a atração do intervalo da final da NFL.
Segundo o presidente, a apresentação foi “absolutamente terrível, uma das piores de todos os tempos”, além de não representar, em sua visão, os padrões de “sucesso, criatividade ou excelência” dos Estados Unidos.
Trump também ironizou o fato de Bad Bunny cantar majoritariamente em espanhol, afirmando que “ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo”, e atacou as coreografias do show, classificando-as como “repugnantes”. Para ele, o espetáculo foi um “tapa na cara do país”.

Um Super Bowl marcado por forte repercussão política
O Super Bowl é tradicionalmente tratado como um evento de entretenimento neutro, pensado para manter audiências massivas e garantir recordes de faturamento publicitário. No entanto, a edição de 2026 ocorreu em um ambiente político especialmente tenso nos Estados Unidos.
O país vive uma onda de manifestações contra ações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), após mortes relacionadas a operações da agência no estado de Minnesota. Esse cenário elevou o nível de atenção sobre qualquer símbolo ligado à comunidade latina.
Antes mesmo da apresentação, apoiadores de Trump já demonstravam insatisfação com a escolha de Bad Bunny e chegaram a organizar “programações paralelas” como forma de protesto simbólico contra o show.
Bad Bunny e o protagonismo latino no maior palco da TV
Bad Bunny se apresentou no Levi’s Stadium, na Califórnia, durante a final entre New England Patriots e Seattle Seahawks, evento que atraiu mais de 100 milhões de telespectadores apenas nos Estados Unidos.
O cantor porto-riquenho levou ao palco uma apresentação marcada por reggaeton, trap latino e referências culturais de Porto Rico, incluindo o uso da bandeira do território caribenho. O show contou ainda com participações especiais de Lady Gaga e Ricky Martin, ampliando a diversidade artística da atração.
Para críticos e analistas culturais, a apresentação já é considerada uma das mais politizadas da história do Super Bowl, mesmo sem discursos explícitos.

Histórico político do artista incomoda conservadores
A reação de Trump não surpreendeu especialistas. Bad Bunny é conhecido por seu posicionamento político claro, especialmente em defesa da identidade porto-riquenha e de pautas sociais.
Em 2019, o cantor interrompeu uma turnê internacional para participar ativamente dos protestos que levaram à renúncia do então governador Ricardo Rosselló, em Porto Rico. Desde então, se consolidou como uma das vozes latinas mais influentes da música global.
Diferentemente de outros artistas latinos que adaptaram seu repertório ao mercado americano, Bad Bunny nunca abriu mão de cantar em espanhol, mantendo referências musicais e culturais da América Latina em suas produções.
Super Bowl já teve controvérsias, mas momento é diferente
Ao longo da história, o show do intervalo do Super Bowl já enfrentou episódios polêmicos, como o gesto obsceno de M.I.A. em 2012 ou a apresentação de Beyoncé em 2016, com referências aos Panteras Negras.
Mais recentemente, em 2025, um dançarino do show de Kendrick Lamar exibiu bandeiras da Palestina e do Sudão, sendo posteriormente detido. Ainda assim, segundo analistas, o contexto atual torna a edição de 2026 particularmente sensível.
A presença de um artista latino em um momento de endurecimento do discurso anti-imigração ampliou a leitura política do espetáculo, mesmo sem manifestações diretas no palco.
Clima de tensão e preocupação com segurança
Durante o período que antecedeu o evento, a secretária de Segurança Interna dos Estados Unidos, Kristi Noem, chegou a afirmar que o ICE estaria “em todo lugar” durante o Super Bowl, o que gerou apreensão entre comunidades imigrantes.
Dias depois, a chefe de segurança da NFL, Cathy Lanier, negou a participação de agentes da imigração no evento. Ainda assim, o clima permaneceu tenso, reforçando a simbologia da apresentação de Bad Bunny.
Super Bowl 2026 termina com vitória dos Seahawks
Enquanto a polêmica dominava o intervalo, o campo foi palco de uma atuação dominante do Seattle Seahawks, que venceram o New England Patriots por 29 a 13 e conquistaram o Super Bowl LX.
Com uma defesa sufocante, Seattle forçou três turnovers, anotou um touchdown defensivo e contou com atuação histórica do kicker Jason Myers, que converteu cinco field goals. O running back Kenneth Walker foi eleito o MVP da partida.

Cultura, política e entretenimento cada vez mais conectados
A reação de Trump ao show de Bad Bunny evidencia como cultura pop, identidade e política estão cada vez mais entrelaçadas nos Estados Unidos. O Super Bowl, antes visto apenas como entretenimento, tornou-se também um espelho das disputas simbólicas que marcam o país.
Em um cenário de polarização crescente, a apresentação de um artista latino no maior evento esportivo da TV americana ultrapassou o espetáculo musical e se consolidou como um marco cultural e político de 2026.




