Crise institucional atinge diretoria do clube
O São Paulo Futebol Clube vive uma de suas semanas mais turbulentas dos últimos anos após o vazamento de áudios que indicam a existência de um suposto esquema ilegal de comercialização de ingressos de camarotes do Estádio do Morumbis. As gravações citam dirigentes do clube e revelam negociações envolvendo shows realizados no estádio, especialmente a apresentação da cantora Shakira, ocorrida em fevereiro.
O caso ganhou repercussão nacional e resultou no pedido de licença de dois nomes importantes da atual gestão: Douglas Schwartzmann, diretor-adjunto das categorias de base, e Mara Casares, diretora cultural, feminina e de eventos, além de ex-esposa do presidente Julio Casares.
Áudios indicam exploração clandestina de camarotes
Nos áudios que vieram a público, Douglas Schwartzmann e Mara Casares aparecem discutindo a utilização e a venda de ingressos de um camarote identificado internamente como “sala da presidência”, localizado em área nobre do Morumbis, próximo aos setores administrativos do clube.
As conversas sugerem que o espaço teria sido repassado para exploração comercial durante eventos musicais, com menção direta a ganhos financeiros compartilhados entre os envolvidos. Em um dos trechos mais contundentes, há a afirmação de que “todo mundo ganhou”, frase que passou a ser interpretada como indício de benefícios indevidos.
Também é citado nos diálogos o nome do superintendente geral do clube, Márcio Carlomagno, apontado como responsável por autorizar o uso do camarote. Carlomagno é considerado um dos principais nomes da atual gestão e figura de confiança do presidente Julio Casares.
Processo judicial revela bastidores do esquema
O episódio veio à tona após o andamento de um processo judicial que envolve empresas do setor de entretenimento. A ação trata da cobrança de valores relacionados à criação, organização e exploração de um camarote durante o show de Shakira no Morumbis.
De acordo com os autos, o valor negociado para a operação do camarote foi de R$ 132 mil. Parte do montante teria sido paga, mas uma parcela permaneceu em aberto, o que desencadeou conflitos entre as partes envolvidas no dia do evento. O processo descreve discussões, acusações públicas, retirada de ingressos sem autorização e uso dos bilhetes para atender compromissos comerciais.
A disputa culminou no registro de um boletim de ocorrência e no ajuizamento de uma ação de cobrança que segue em tramitação na Justiça de São Paulo.
Pressões e tentativas de encerrar o processo
As gravações também apontam para tentativas de pressão sobre uma das intermediárias do negócio para que a ação judicial fosse retirada. Nos diálogos, há preocupação explícita com os impactos que a exposição do caso poderia gerar dentro do clube e na imagem de dirigentes envolvidos.
Em uma das conversas, Douglas Schwartzmann alerta para possíveis consequências internas, como demissões e desgaste político, caso o caso viesse a público. Em outro momento, Mara Casares pede de forma direta que o processo seja retirado, alegando que seria a principal prejudicada e que buscava preservar seu futuro profissional dentro do São Paulo.
Reunião de emergência e pedidos de licença
Antes mesmo da publicação das reportagens, a diretoria do São Paulo realizou uma reunião de emergência no CT da Barra Funda, convocada pelo presidente Julio Casares. O encontro reuniu os principais nomes da gestão para definir estratégias de enfrentamento da crise institucional.
Após a repercussão do caso, Douglas Schwartzmann e Mara Casares solicitaram licença de seus cargos, decisão considerada internamente como uma forma de reduzir a pressão externa e preservar o clube enquanto as apurações avançam.
O afastamento de Schwartzmann tem peso significativo, já que ele é visto como uma das figuras mais influentes do futebol de base, com forte atuação na contratação de jovens atletas e no planejamento estratégico voltado para os próximos anos.
Defesa de Mara Casares
Em mensagens enviadas a pessoas próximas, Mara Casares afirmou ter sido surpreendida pela divulgação do conteúdo, classificando os áudios como conversas distorcidas e fora de contexto. Segundo ela, o material teria sido utilizado de forma mal-intencionada, com viés político.
Mara sustenta que sua atuação teve como objetivo defender o São Paulo de um processo que, segundo sua versão, envolvia apenas relações comerciais entre terceiros, sem participação direta do clube. Ela afirma agir com a consciência tranquila e reforça que pediu licença para garantir serenidade e transparência na apuração dos fatos.
Posicionamento do São Paulo
Em nota oficial, o São Paulo Futebol Clube informou que tomou conhecimento do conteúdo dos áudios por meio da imprensa e que irá realizar a apuração interna dos fatos. O clube destacou que, com base nos resultados dessa análise, adotará todas as medidas que se mostrarem necessárias.
A diretoria avalia o episódio como uma das crises mais delicadas da atual gestão, com potencial impacto político relevante. Grupos internos e conselheiros já se mobilizam para discutir o caso, que pode gerar novos desdobramentos administrativos e institucionais nos próximos dias.
Nota do Conselho Deliberativo
Além do posicionamento oficial da diretoria, conselheiros deliberativos ligados ao Movimento Salve o Tricolor Paulista, grupo de oposição a presidência de Julio Casares, divulgou uma nota pública manifestando profunda preocupação com os fatos revelados pelos áudios vazados. No documento, os conselheiros afirmam que as gravações indicam um suposto esquema de desvio de receitas oriundas da comercialização de ingressos de camarotes do Estádio do Morumbis durante o show da cantora Shakira.
A nota cita nominalmente Mara Casares, conselheira deliberativa e diretora cultural, feminina e de eventos, e Douglas Schwartzmann, conselheiro deliberativo e diretor-adjunto do futebol de base, além de mencionar o superintendente geral Márcio Carlomagno. Segundo o texto, os envolvidos ocupam cargos de elevada relevância dentro da estrutura administrativa do clube e mantêm relação de proximidade pessoal e profissional com o presidente Julio Casares.
Os conselheiros destacam ainda que o camarote mencionado nas conversas estaria localizado em frente à sala da Presidência, área de trabalho diária do presidente e do superintendente, o que, segundo a avaliação do movimento, dificulta afastar a hipótese de ciência prévia dos fatos por parte da cúpula do clube.
Diante desse contexto, o Conselho Deliberativo defende o afastamento cautelar imediato de todos os citados — incluindo o presidente e o superintendente — de seus respectivos cargos, como forma de garantir uma apuração plena, independente e imparcial. O documento ressalta que a medida visa preservar a instituição, assegurar transparência e permitir a responsabilização adequada, respeitando o contraditório e a ampla defesa.
Na nota, os conselheiros afirmam que atuarão junto aos órgãos internos do São Paulo para que todas as providências cabíveis sejam adotadas, enfatizando que a gravidade do conteúdo divulgado exige rigor, seriedade e respostas firmes à altura da história do clube e das expectativas de sua torcida.
Lembrando que são necessárias 52 assinaturas para o pedido ser encaminhado a Olten Ayres, presidente do Conselho. A carta acima já possui 41 assinaturas.
Impacto e próximos passos
O caso do suposto esquema ilegal de camarotes no Morumbis segue em apuração e promete novos capítulos. Enquanto isso, o São Paulo trabalha para conter os danos à sua imagem, preservar sua governança e garantir que eventuais responsabilidades sejam devidamente esclarecidas.
A expectativa é de que investigações internas e judiciais avancem, trazendo mais detalhes sobre a atuação dos envolvidos e as consequências para a estrutura política e administrativa do clube.




