Colisão sobre Mato Grosso matou os 154 ocupantes do Boeing em 29 de setembro de 2006; jato executivo envolvido no acidente voltou a voar e atualmente tem matrícula mexicana
O acidente com o voo 1907 da Gol completa 20 anos nesta terça-feira (29). Em 29 de setembro de 2006, um Boeing 737-800 da companhia colidiu com um jato executivo Embraer Legacy 600 sobre o norte de Mato Grosso. Todas as 154 pessoas que estavam no avião comercial morreram, enquanto os sete ocupantes do Legacy sobreviveram.
Duas décadas depois, o jato envolvido na colisão permanece em operação. A aeronave, identificada na época pela matrícula americana N600XL, passou por reparos e mudanças de registro e atualmente voa com o prefixo mexicano XA-FLY, ligada à operadora FlyMex. Há registros de voos realizados em setembro de 2026.
A tragédia permanece como uma das mais graves da aviação brasileira e marcou o início de um período de crise no transporte aéreo do país.
Como aconteceu a colisão entre o Boeing e o Legacy
O Boeing de matrícula PR-GTD havia decolado de Manaus e seguia para Brasília, escala prevista antes do destino final, o Rio de Janeiro. O Legacy realizava um voo de entrega, com saída de São José dos Campos e parada programada em Manaus antes de seguir para os Estados Unidos.
As aeronaves se encontraram em sentidos opostos, na mesma aerovia e no mesmo nível de voo, a aproximadamente 37 mil pés, cerca de 11,3 quilômetros de altitude.
O choque provocou danos que tornaram o Boeing incontrolável. O avião caiu em uma área de mata fechada. Apesar das avarias, os pilotos do Legacy conseguiram manter o controle e realizar um pouso de emergência no aeródromo militar de Cachimbo, no Pará.
Investigação identificou falhas na operação e no controle aéreo
A investigação do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) identificou uma combinação de fatores relacionados à operação do Legacy e ao controle do espaço aéreo.
Entre os pontos analisados estavam a interrupção das transmissões do transponder do jato, a indisponibilidade da proteção anticolisão e problemas de comunicação e acompanhamento do voo. A investigação não identificou falhas da tripulação da Gol que tivessem contribuído para o acidente.
O relatório também reúne recomendações de segurança. A apuração técnica tem finalidade preventiva e é distinta dos processos judiciais destinados a avaliar responsabilidades criminais.
Legacy passou por reparos e voltou a voar
Depois do acidente, o Legacy permaneceu retido em Cachimbo até 2010. Posteriormente, foi vendido e passou por reparos nos Estados Unidos antes de retornar à operação.
O jato recebeu diferentes matrículas ao longo dos anos até chegar ao registro XA-FLY. Atualmente, há registros de sua utilização em trajetos entre aeroportos mexicanos e americanos.
Pilotos foram condenados, mas penas prescreveram em 2024
Os pilotos americanos Joseph Lepore e Jan Paul Paladino responderam criminalmente pelo acidente. Em 2012, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região estabeleceu pena de três anos e um mês de detenção, em regime aberto, modificando a decisão de primeira instância.
O caso continuou a tramitar depois daquele julgamento. Em 2015, o Supremo Tribunal Federal rejeitou um recurso relacionado à substituição da pena privativa de liberdade por penas restritivas de direitos.
Em 2024, a Justiça Federal reconheceu a prescrição da pretensão executória e extinguiu a punibilidade dos dois pilotos, que não haviam cumprido as penas. A decisão também revogou as ordens de prisão existentes no Brasil. Portanto, o desfecho da execução penal ocorreu posteriormente a 2012.
Famílias mantêm a memória das 154 vítimas
O aniversário de 20 anos é marcado pela lembrança dos passageiros e tripulantes que morreram no voo 1907. Familiares continuam realizando homenagens e cobrando respostas sobre as consequências da tragédia.
Além da discussão criminal, questões relacionadas às indenizações tiveram uma longa trajetória judicial. Uma ação sobre a atualização do seguro obrigatório das vítimas ainda era objeto de discussão na Justiça às vésperas dos 20 anos do acidente.
A colisão de 2006 também antecedeu a crise aérea marcada por atrasos, cancelamentos e questionamentos sobre o funcionamento do setor. No ano seguinte, o acidente com o voo 3054 da TAM, em Congonhas, aprofundou aquele período de dificuldades da aviação brasileira.
