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Pisa 2025 expõe crise de aprendizagem nos países ricos e acende alerta sobre uso de IA

Desempenho de adolescentes recuou em leitura, matemática e ciências, enquanto distrações digitais, desinteresse e uso frequente de chatbots desafiam os sistemas de ensino


Os estudantes de 15 anos dos países mais desenvolvidos registraram o pior desempenho escolar da série histórica do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Os resultados da edição de 2025, divulgados nesta terça-feira (8), mostram uma queda acentuada principalmente em leitura e matemática.

Mais de 760 mil estudantes de 91 países e economias participaram da avaliação. A amostra representa aproximadamente 33 milhões de adolescentes de 15 anos matriculados em instituições de ensino ao redor do mundo. O exame mediu conhecimentos em ciências, leitura e matemática, além de competências relacionadas à aprendizagem no ambiente digital.

Nos países integrantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a queda acumulada em leitura chegou a 28 pontos na última década. Em matemática, o recuo foi de 22 pontos, enquanto ciências apresentou redução de sete pontos entre 2015 e 2025.

Como uma diferença de aproximadamente 20 pontos pode representar o aprendizado normalmente obtido em um ano escolar, as perdas registradas em algumas nações indicam que estudantes de 15 anos demonstraram conhecimentos semelhantes aos esperados de adolescentes um ano mais novos. A própria OCDE, entretanto, alerta que essa equivalência deve ser interpretada com cautela e não aplicada mecanicamente a todas as comparações.


Leitura registra a maior queda entre estudantes

A leitura foi a competência mais afetada pela deterioração do desempenho escolar. Na média dos países da OCDE, a pontuação caiu 28 pontos entre 2015 e 2025.

Considerando apenas o intervalo entre 2018 e 2025, a perda chegou a 25 pontos. Sistemas educacionais tradicionalmente reconhecidos, como os da Islândia e da Eslovênia, registraram quedas superiores a 50 pontos durante a última década.

Entre 2022 e 2025, a média de leitura nos 35 países da OCDE com dados comparáveis caiu aproximadamente 14 pontos. No mesmo período, o desempenho em matemática recuou nove pontos, enquanto ciências permaneceu estatisticamente estável.

O cenário revela que a crise não está limitada a países com menos recursos ou sistemas educacionais em desenvolvimento. Nações com elevado nível de renda, ampla infraestrutura escolar e investimentos significativos também demonstram dificuldades para preservar a capacidade de leitura e interpretação de seus estudantes.

A perda é especialmente preocupante porque a leitura sustenta a aprendizagem nas demais disciplinas. Dificuldades para compreender textos, identificar argumentos e avaliar informações podem comprometer o desempenho em matemática, ciências e na resolução de problemas cotidianos.


Quase um terço dos jovens tem baixo desempenho nas três áreas

O relatório aponta que 29% dos adolescentes dos países da OCDE apresentam baixo desempenho simultaneamente em leitura, matemática e ciências. Na edição de 2022, essa proporção era de 25%.

Isso significa que quase três em cada dez estudantes não alcançaram o nível básico de proficiência nas três áreas avaliadas. Quando são considerados os jovens que apresentam desempenho insuficiente em pelo menos uma disciplina, o percentual médio nos países da organização chega a 49%.

Em 18 países e economias, mais de 60% dos adolescentes estão abaixo do nível básico nas três áreas. Os dados mostram que a permanência na escola não garante, isoladamente, que os alunos estejam desenvolvendo as habilidades necessárias para a vida adulta.

O Pisa não avalia apenas a capacidade de memorizar informações. O exame mede se os estudantes conseguem utilizar os conhecimentos para interpretar evidências, solucionar problemas e tomar decisões em situações reais.


Estudantes mais ricos lideram as perdas

Um dos resultados mais inesperados do Pisa 2025 aparece na divisão por nível socioeconômico. Os estudantes das famílias mais favorecidas registraram quedas maiores em leitura do que os jovens em situação de vulnerabilidade.

Entre 2018 e 2025, o desempenho médio dos alunos mais ricos caiu 20 pontos nos países da OCDE. Entre os estudantes menos favorecidos, o recuo foi de quatro pontos.

Como consequência, a desigualdade de desempenho entre os dois grupos diminuiu. A distância média, que era de 88 pontos, passou para 77 pontos.

A redução, porém, não ocorreu principalmente porque os estudantes mais pobres avançaram. Ela foi provocada pelo recuo mais intenso entre os alunos que ocupavam o topo socioeconômico.

O relatório oficial confirma que, em leitura, a diminuição da desigualdade em diversos países foi impulsionada pela piora dos estudantes mais favorecidos, e não por uma recuperação expressiva daqueles em maior vulnerabilidade.


Leitura apressada cresce entre adolescentes

O Pisa identificou um aumento da chamada “leitura apressada”, comportamento no qual o estudante percorre rapidamente o conteúdo apresentado na tela e responde sem dedicar atenção suficiente à interpretação.

Entre 2018 e 2025, a proporção de alunos que demonstrou esse padrão quase dobrou, chegando a 9%.

A digitalização modificou a maneira como os jovens consomem informações. Redes sociais, vídeos curtos, notificações e conteúdos apresentados em fragmentos estimulam mudanças constantes de foco e podem dificultar a leitura prolongada.

O hábito de ler por prazer também perdeu espaço. A combinação entre menor contato com livros, leitura superficial e dificuldade de concentração ajuda a explicar parte da queda observada.

A presença da tecnologia, no entanto, não deve ser interpretada como a única causa do problema. O desempenho dos estudantes também é influenciado pela formação dos professores, pelo ambiente familiar, pela qualidade das aulas e pelo nível de engajamento com a escola.


Celulares provocam distrações durante as aulas

As distrações digitais aparecem com frequência nos relatos dos próprios alunos. Na média da OCDE, 28% dos estudantes afirmaram que seus colegas se distraem com celulares e outros dispositivos digitais na maioria ou em todas as aulas de ciências.

A interrupção constante da atenção pode dificultar a compreensão de explicações, a realização de exercícios e a consolidação do conteúdo na memória.

O desafio vai além da presença física do celular. Mesmo quando utilizado para fins pedagógicos, o aparelho oferece acesso simultâneo a redes sociais, jogos, mensagens e outras formas de entretenimento.

As escolas enfrentam, portanto, a necessidade de definir regras para o uso dos dispositivos sem ignorar que a tecnologia também pode contribuir para pesquisas, atividades interativas e acesso a materiais educacionais.


Tédio e falta de interesse aumentam nas escolas

O desengajamento também aparece como um dos fatores relacionados à crise. Desde 2022, aumentou em quase todo o mundo a proporção de estudantes que considera entediante aprender conteúdos novos.

Na média dos países da OCDE, 16% dos adolescentes disseram não gostar de aprender novos assuntos. Também houve redução nos índices de curiosidade e perseverança para completar atividades consideradas difíceis.

O número de estudantes que relatou faltar durante dias inteiros de aula aumentou três pontos percentuais.

A OCDE ressalta que desempenho e engajamento não são necessariamente equivalentes. Um sistema pode alcançar boas pontuações e, ao mesmo tempo, ter alunos pouco interessados. Da mesma forma, estudantes engajados podem estar inseridos em escolas que ainda enfrentam dificuldades de aprendizagem.


Uso frequente de IA preocupa especialistas

O Pisa 2025 analisou pela primeira vez como os estudantes utilizam ferramentas de inteligência artificial em atividades escolares.

Na média da OCDE, os usos mais comuns dos chatbots são ajudar na aprendizagem, realizar pesquisas preliminares, redigir trabalhos e resumir textos que deveriam ser lidos pelos alunos.

A análise identificou que estudantes que utilizam frequentemente a inteligência artificial para tarefas específicas podem apresentar pontuações mais baixas em ciências. A diferença chega, em alguns recortes, a cerca de 20 pontos.

Isso não significa, entretanto, que a inteligência artificial tenha necessariamente provocado o baixo desempenho. A OCDE afirma que a relação é complexa e pode refletir outros fatores, como o fato de alunos com mais dificuldades recorrerem com maior frequência aos chatbots.

O relatório mostra que o uso moderado, entre uma vez por mês e duas vezes por semana, aparece associado a resultados melhores do que o uso quase diário em atividades como pesquisa e resumo de textos. A organização ressalta que os dados indicam associação, e não comprovam uma relação direta de causa e efeito.


Excesso de IA pode reduzir esforço intelectual

Especialistas alertam que a inteligência artificial se torna prejudicial quando substitui completamente o esforço necessário para aprender.

Se um aluno utiliza um chatbot para compreender todos os textos, construir argumentos e resolver problemas, deixa de exercitar habilidades fundamentais durante seu período de formação.

Esse processo é descrito como uma espécie de “preguiça cognitiva” ou “desengajamento metacognitivo”, no qual o estudante delega à ferramenta não apenas a execução da tarefa, mas também o raciocínio necessário para realizá-la.

A questão central, portanto, não é proibir a inteligência artificial. O desafio é ensinar os jovens a utilizá-la como apoio, mantendo a autonomia para interpretar informações, conferir respostas e formular conclusões próprias.

A IA pode ajudar a esclarecer dúvidas, sugerir métodos de estudo e apresentar novas perspectivas. O risco aparece quando o estudante aceita as respostas automaticamente ou deixa de ler, escrever e resolver atividades por conta própria.


Quase metade dos estudantes brasileiros usa IA para aprender

No Brasil, 48% dos estudantes de 15 anos afirmaram utilizar chatbots de inteligência artificial pelo menos uma vez por semana para aprender. A proporção supera levemente a média de 46% registrada entre os países da OCDE.

A maior diferença aparece nas pesquisas rápidas sobre novos assuntos. Entre os brasileiros, 40% usam IA para essa finalidade, diante de uma média de 31% nos países da organização.

O uso para resumir textos também é comum: 31% dos estudantes brasileiros recorrem à ferramenta, praticamente o mesmo percentual da OCDE, de 30%.

Na produção de redações completas, os brasileiros utilizam a tecnologia com frequência um pouco menor. O índice nacional é de 27%, ante 29% na média dos países desenvolvidos.

Apenas 11% dos estudantes no Brasil disseram nunca ou quase nunca utilizar IA para atividades escolares. Na OCDE, a proporção chega a 14%.


Alunos de famílias mais ricas usam mais chatbots

O acesso à inteligência artificial também apresenta diferenças socioeconômicas. Estudantes de famílias mais ricas tendem a utilizar chatbots com maior frequência.

O resultado pode ser explicado pela disponibilidade de computadores e celulares mais modernos, internet de melhor qualidade e acesso a versões pagas de ferramentas digitais.

Apesar dessa vantagem tecnológica, foram justamente os estudantes mais favorecidos que registraram as maiores perdas em leitura nos últimos anos.

O dado reforça que ter acesso à tecnologia não garante melhoria automática da aprendizagem. Os resultados dependem da maneira como os recursos são utilizados e de sua integração com práticas de leitura, escrita e resolução de problemas.


Países registram perdas equivalentes a mais de um ano escolar

Entre 2022 e 2025, diversas nações sofreram quedas superiores a 20 pontos em leitura. Dinamarca perdeu 29 pontos; Sérvia, 26; Noruega e Eslovênia, 24; Espanha, 23; Croácia, 22; Suécia e Hungria, 21; Hong Kong e República Tcheca, 20.

As quedas mais acentuadas foram registradas na Letônia, com perda de 45 pontos, seguida por Israel, com 38; Guatemala, com 37; e Malta, com 31.

Em muitos desses casos, adolescentes de 15 anos avaliados em 2025 apresentaram desempenho igual ou inferior ao nível observado entre estudantes de 14 anos em 2022.

Os resultados reforçam que a perda de aprendizagem iniciada antes da pandemia continuou após a reabertura das escolas.


Pandemia agravou uma queda que já estava em curso

O fechamento das escolas durante a pandemia contribuiu para ampliar as dificuldades educacionais, mas não explica sozinho o cenário.

Os dados históricos do Pisa indicam que o desempenho em leitura já vinha caindo em muitos países antes da Covid-19. Problemas de atenção, desinteresse e mudanças nos hábitos de leitura também antecedem a crise sanitária.

A pandemia aprofundou desigualdades, interrompeu rotinas escolares e aumentou a dependência de ferramentas digitais. No entanto, a continuidade da queda até 2025 demonstra que os sistemas de ensino ainda não conseguiram recuperar totalmente as perdas.


Investir mais não garante desempenho melhor

O Pisa 2025 identifica uma relação positiva entre investimento e desempenho até o gasto acumulado de aproximadamente US$ 85 mil por estudante, considerando o período entre os 6 e os 15 anos.

Acima desse valor, a correlação deixa de ser clara. Isso não significa que novos investimentos sejam inúteis, mas demonstra que a quantidade de recursos precisa ser acompanhada por uma aplicação eficiente.

Em países que já possuem infraestrutura adequada, os resultados dependem cada vez mais da formação dos professores, da qualidade do currículo, da gestão escolar e das estratégias utilizadas para desenvolver o interesse dos alunos.

A OCDE ressalta que gastar mais não leva automaticamente a pontuações mais altas. A forma como os recursos são distribuídos e empregados é determinante para que o investimento resulte em aprendizagem.


Educação precisa se adaptar à era da inteligência artificial

Os resultados do Pisa 2025 colocam os países diante de um desafio que ultrapassa a recuperação das perdas provocadas pela pandemia.

As escolas precisarão reconstruir o hábito da leitura profunda, reduzir as distrações digitais, recuperar o interesse dos estudantes e definir formas responsáveis de incorporar a inteligência artificial ao ensino.

Em um mercado de trabalho no qual máquinas conseguem resumir textos, produzir conteúdos e organizar dados, capacidades humanas como pensamento crítico, interpretação, criatividade e julgamento independente tornam-se ainda mais importantes.

A tecnologia pode ampliar o acesso ao conhecimento, mas não substitui o processo intelectual necessário para compreender esse conhecimento.

O principal desafio dos sistemas educacionais será formar estudantes capazes de trabalhar com a inteligência artificial sem perder a autonomia. Mais do que saber operar uma ferramenta, os jovens precisarão continuar preparados para pensar, questionar e tomar decisões por conta própria.