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Meses após caso Gisele, PM é preso após esposa morrer com tiro na cabeça em Embu das Artes

Vinicius Costa Silva afirma que Larissa Cruz Morata tirou a própria vida depois de uma conversa sobre separação, mas familiares contestam a versão e Polícia Civil apura possível feminicídio


Meses após a morte da soldado Gisele Alves Santana provocar comoção em São Paulo, um novo caso envolvendo um casal ligado à Polícia Militar voltou a levantar dúvidas sobre uma versão inicial de suicídio.

A técnica em radiologia Larissa Cruz Morata, de 29 anos, foi encontrada morta com um tiro na cabeça no banheiro da casa onde vivia com o marido, o policial militar Vinicius Costa Silva, de 26 anos, e o filho do casal. O caso aconteceu na manhã de domingo (6), no bairro Chácaras Bartira, em Embu das Artes, na Grande São Paulo.

Vinicius afirmou à Polícia Civil que não presenciou o disparo e que encontrou a esposa caída depois de acordar com um forte estrondo. Segundo o relato do PM, Larissa teria ficado emocionalmente abalada após uma conversa na qual ele manifestou o desejo de terminar o casamento.

A família da técnica em radiologia, entretanto, contesta a hipótese de suicídio e suspeita que ela tenha sido vítima de feminicídio. Diante das inconsistências identificadas durante as primeiras diligências, a Polícia Civil solicitou a prisão temporária do soldado.

O pedido foi aceito pela Justiça. Vinicius foi preso durante o velório de Larissa e encaminhado ao Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte da capital paulista. A prisão temporária tem prazo inicial de 30 dias e pode ser prorrogada.


PM afirma que pediu a separação antes da morte

Em depoimento, Vinicius declarou que não amava mais Larissa como esposa e pretendia encerrar o relacionamento. O policial afirmou que conversou com ela sobre a separação e tentou tranquilizá-la depois que a mulher começou a chorar.

De acordo com o relato, o casal administrava uma farmácia em Taboão da Serra, também na Grande São Paulo. O soldado teria dito que Larissa poderia continuar trabalhando no estabelecimento mesmo depois do fim do casamento.

Vinicius contou que abraçou a esposa para acalmá-la e, após o encerramento da conversa, decidiu se deitar. Ele alegou que não viu o momento em que a arma foi disparada.

Segundo o PM, algum tempo depois ele acordou com um barulho muito forte, inicialmente interpretado como o som de um vidro quebrando. Ao procurar a origem do ruído, teria encontrado Larissa caída no banheiro.

O policial afirmou que ficou abalado ao ver a esposa, telefonou para o número 190 e comunicou que ela havia atirado contra a própria cabeça usando a arma dele. Posteriormente, procurou familiares da vítima para informar o que havia acontecido.


Arma do policial foi encontrada sob o corpo

A arma usada no disparo pertencia a Vinicius e foi localizada sob o corpo de Larissa. O armamento foi apreendido e encaminhado para exames periciais.

Além da arma, os investigadores recolheram outros objetos considerados importantes para a reconstituição da ocorrência, incluindo munições, coldre e estojo de munição.

A Polícia Técnico-Científica deverá analisar a trajetória do projétil, a posição em que Larissa foi encontrada, a localização da arma e a possível presença de resíduos de disparo nas mãos da vítima e do marido.

Também serão considerados os resultados do exame necroscópico, da perícia realizada no imóvel e dos testes balísticos. O objetivo é determinar se a dinâmica encontrada é compatível com um disparo autoinfligido ou se houve a participação de outra pessoa.

Segundo a delegada responsável pela investigação, a trajetória do projétil foi um dos elementos considerados para solicitar a prisão temporária do PM. Outros dados reunidos nas primeiras horas da apuração também contribuíram para a decisão.


Polícia identifica inconsistências na versão de suicídio

O caso foi registrado oficialmente como morte suspeita a esclarecer. Apesar da versão apresentada por Vinicius, a Polícia Civil informou que as diligências iniciais revelaram inconsistências e elementos objetivos que enfraquecem a hipótese de morte autoinfligida.

A principal linha de investigação passou a considerar a possibilidade de assassinato. A prisão temporária permite que os investigadores avancem na obtenção de provas e na realização dos exames sem eventual interferência do policial.

A medida cautelar não representa uma condenação. O PM permanece sob investigação e deverá ter assegurados o direito de defesa e a presunção de inocência durante o andamento do inquérito.

A Polícia Civil também começou a ouvir pessoas próximas ao casal e procura imagens de câmeras de segurança que possam esclarecer a movimentação na residência antes e depois do disparo.

A irmã de Vinicius estava no imóvel no domingo, mas teria deixado a casa momentos antes da morte. Em depoimento, ela confirmou que o casal havia conversado sobre a possibilidade de separação.


Família de Larissa não acredita em suicídio

Os familiares de Larissa afirmam que ela vivia um momento de felicidade, possuía planos para o futuro e pretendia realizar procedimentos estéticos. A família também destacou que o casal havia se mudado para a residência em Embu das Artes menos de um mês antes da morte.

Segundo parentes, Larissa teria telefonado para a avó poucas horas antes de morrer e informado que o relacionamento havia terminado. Ela também teria dito que estava organizando seus pertences para deixar a casa com o filho.

A família sustenta ainda que Vinicius apresentava comportamento agressivo e controlador. Essas declarações fazem parte dos elementos que deverão ser confrontados com depoimentos, mensagens, imagens e resultados periciais.

Antes da prisão, a defesa do soldado negou a existência de histórico de violência no relacionamento e afirmou que apresentaria conversas nas quais Larissa teria manifestado pensamentos relacionados à possibilidade de tirar a própria vida diante do fim do casamento.

As duas versões serão analisadas pela Polícia Civil. Os laudos periciais deverão ter papel central para determinar a dinâmica da morte.


Caso ocorre meses depois da morte da soldado Gisele

A morte de Larissa apresenta semelhanças iniciais com o caso da soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos, encontrada com um tiro na cabeça em 18 de fevereiro, no apartamento onde vivia com o marido, no Brás, região central de São Paulo.

Na ocasião, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto afirmou que a esposa havia tirado a própria vida após uma discussão. A ocorrência chegou a ser registrada inicialmente como suicídio, mas a versão passou a ser questionada pelos familiares e a investigação foi alterada para morte suspeita.

No decorrer da apuração, laudos identificaram elementos incompatíveis com a hipótese inicial. Um documento complementar do Instituto de Criminalística apontou que os padrões de manchas de sangue e outros vestígios encontrados no apartamento contrariavam a possibilidade de suicídio.

Marcas de agressão no rosto de Gisele, contradições no depoimento do marido e suspeitas de alterações na cena também foram consideradas na investigação. Geraldo Leite Rosa Neto foi preso preventivamente e tornou-se réu sob acusação de feminicídio, crime que ele nega. O caso será analisado por uma vara do júri.

Apesar das semelhanças iniciais, os casos de Gisele e Larissa são investigações independentes. As conclusões obtidas no primeiro episódio não podem ser automaticamente aplicadas ao segundo, que ainda depende dos resultados periciais e da reunião de provas.


Laudos deverão esclarecer dinâmica da morte de Larissa

Os investigadores aguardam uma série de exames para verificar se a posição do corpo, a trajetória do projétil e os resíduos encontrados são compatíveis com a versão apresentada por Vinicius.

A análise residuográfica poderá identificar vestígios relacionados ao disparo nas mãos da vítima e do policial. Já o exame balístico deverá avaliar a arma, a munição e outros elementos encontrados no imóvel.

O exame necroscópico é essencial para determinar a distância aproximada do disparo, o trajeto do projétil e eventuais lesões adicionais. A perícia do local também poderá esclarecer se houve movimentação do corpo ou de objetos antes da chegada das equipes de emergência e dos policiais responsáveis pela preservação da cena.

A investigação deverá confrontar os resultados técnicos com os depoimentos de Vinicius, da irmã dele, dos familiares de Larissa e de outras testemunhas.

Até que os laudos sejam concluídos, o caso continua formalmente registrado como morte suspeita. A hipótese de feminicídio é investigada, mas ainda não existe uma conclusão definitiva sobre a responsabilidade pela morte.


Larissa deixa um filho de dois anos

Larissa e Vinicius eram casados e tinham um filho de dois anos. Após a morte da mãe e a prisão temporária do pai, a criança ficou sob os cuidados da família materna.

A técnica em radiologia foi velada e enterrada na segunda-feira (7), no Cemitério Valle dos Reis, em Taboão da Serra. O policial foi abordado durante o velório e conduzido à Delegacia de Embu das Artes antes de ser levado ao presídio militar.

A Polícia Civil seguirá ouvindo testemunhas, analisando aparelhos eletrônicos e buscando registros de câmeras que possam contribuir para o esclarecimento do caso.


Canais de denúncia e acolhimento

Mulheres em situação de violência podem procurar a Central de Atendimento à Mulher pelo telefone 180, disponível gratuitamente durante 24 horas. Em situações de emergência, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo número 190.

Denúncias de violações de direitos humanos também podem ser realizadas pelo Disque 100. Pessoas com pensamentos suicidas ou em sofrimento emocional podem procurar o Centro de Valorização da Vida pelo telefone 188, com atendimento gratuito e sigiloso durante 24 horas.