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Novo remédio oral contra enxaqueca recebe aval da Anvisa; entenda como funciona

Aquipta contém atogepanto, substância que atua em uma das vias envolvidas nas crises; preço e data de chegada às farmácias ainda não foram definidos


A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro do Aquipta, novo medicamento oral destinado à prevenção da enxaqueca em adultos. O remédio, produzido pela farmacêutica AbbVie, tem como princípio ativo o atogepanto hidratado.

A autorização contempla comprimidos de 10 mg e 60 mg, comercializados em caixas com 28 unidades. O registro sanitário possui validade até setembro de 2036, enquanto o prazo de 36 meses informado para as apresentações corresponde à validade do produto.

Segundo a Anvisa, o Aquipta é indicado para adultos que apresentam pelo menos quatro episódios de enxaqueca por mês. O medicamento poderá ser usado na prevenção das formas episódica e crônica da doença.

A aprovação representa a abertura do caminho regulatório para a comercialização no Brasil, mas não significa que o produto chegará imediatamente às farmácias. O preço máximo ainda deverá ser analisado pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED).

Também não há previsão de oferta pelo Sistema Único de Saúde. Uma eventual incorporação ao SUS depende de um processo separado, conduzido pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec).


Aquipta é indicado para prevenir crises de enxaqueca

O Aquipta pertence a uma classe de medicamentos conhecida como gepants, desenvolvida especificamente para atuar em mecanismos relacionados à enxaqueca.

Durante décadas, parte dos tratamentos preventivos utilizou medicamentos originalmente criados para outras condições, como determinados antidepressivos, anticonvulsivantes e remédios para pressão arterial.

Essas opções continuam sendo importantes e podem apresentar bons resultados. A diferença é que o atogepanto foi desenvolvido para bloquear uma via diretamente envolvida na transmissão da dor associada à enxaqueca.

O objetivo do tratamento preventivo não é necessariamente eliminar todas as crises, mas reduzir sua frequência, intensidade e impacto na rotina do paciente.

A escolha do medicamento depende da quantidade de dias de enxaqueca, da gravidade dos sintomas, de outras condições de saúde, da resposta a tratamentos anteriores e da possibilidade de efeitos adversos.


Como o atogepanto age no organismo

O atogepanto bloqueia o receptor do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina, conhecido pela sigla CGRP.

Durante uma crise de enxaqueca, o sistema nervoso trigeminal é ativado e libera substâncias envolvidas na transmissão e amplificação da dor. Uma dessas moléculas é o CGRP.

Quando se conecta ao seu receptor, o CGRP participa de uma sequência de sinais relacionada à sensibilização das vias nervosas. O atogepanto ocupa esse receptor e reduz a ação da molécula.

A substância é uma molécula pequena administrada por via oral. Essa característica diferencia o medicamento dos anticorpos monoclonais que também atuam contra o CGRP ou seu receptor, mas normalmente são aplicados por injeção.

O bloqueio não significa que o remédio funcione da mesma forma para todas as pessoas. A resposta varia, e o acompanhamento médico é necessário para avaliar a redução das crises e a tolerabilidade ao tratamento.


Medicamento não é um analgésico comum

O Aquipta foi aprovado no Brasil para a prevenção da enxaqueca, e não como um analgésico convencional destinado ao alívio de qualquer tipo de dor de cabeça.

O tratamento preventivo costuma ser realizado de maneira contínua, conforme a prescrição médica, com o objetivo de diminuir a quantidade de dias de enxaqueca ao longo do mês.

A indicação aprovada pela Anvisa também não deve ser confundida com a autorização concedida em outros mercados.

Na União Europeia, o Aquipta é autorizado para prevenir enxaqueca em adultos com pelo menos quatro dias de crise por mês. Em 2026, a indicação europeia foi ampliada para incluir também o tratamento agudo das crises em adultos.

A ampliação europeia não se aplica automaticamente ao Brasil. As condições de uso no país devem seguir exclusivamente a bula aprovada pela Anvisa.


Estudo avaliou pacientes com enxaqueca episódica

A eficácia do atogepanto na prevenção da enxaqueca episódica foi avaliada no estudo de fase 3 ADVANCE.

A pesquisa incluiu adultos que apresentavam entre quatro e 14 dias de enxaqueca por mês. Os participantes foram divididos entre grupos que receberam doses diárias de 10 mg, 30 mg ou 60 mg de atogepanto e um grupo tratado com placebo durante 12 semanas.

Entre os pacientes que receberam 60 mg uma vez ao dia, a redução média foi de 4,2 dias de enxaqueca por mês. No grupo placebo, a diminuição foi de 2,5 dias.

A diferença média atribuída ao tratamento na comparação entre os dois grupos foi, portanto, de 1,7 dia de enxaqueca por mês.

Os resultados foram estatisticamente significativos nas três doses avaliadas. O estudo concluiu que o uso diário do atogepanto reduziu os dias de enxaqueca e os dias de dor de cabeça durante as 12 semanas de acompanhamento.


Seis em cada dez pacientes reduziram crises pela metade

Outro resultado analisado no estudo ADVANCE foi a proporção de pacientes que apresentou redução de pelo menos 50% no número mensal de dias de enxaqueca.

Entre os participantes que receberam 60 mg de atogepanto, 60,8% alcançaram uma diminuição de pelo menos metade na frequência das crises. No grupo placebo, essa proporção foi de 29%.

O resultado não significa que seis em cada dez pacientes deixarão de ter enxaqueca. A medida considera uma redução de pelo menos 50% em relação à frequência observada antes do início do tratamento.

Também não é possível afirmar, com base nesse estudo, que o atogepanto seja superior a todos os outros preventivos disponíveis. O ensaio comparou o medicamento com placebo, e não diretamente com diferentes opções terapêuticas.


Aquipta também foi estudado na enxaqueca crônica

A forma crônica da doença foi analisada no estudo PROGRESS, que acompanhou 778 adultos durante 12 semanas.

No início da pesquisa, os participantes apresentavam aproximadamente 19 dias de enxaqueca por mês. Eles foram divididos entre grupos que receberam 30 mg de atogepanto duas vezes ao dia, 60 mg uma vez ao dia ou placebo.

No grupo tratado com 60 mg diariamente, a redução média foi de 6,9 dias de enxaqueca por mês. Entre os participantes que receberam placebo, a diminuição foi de 5,1 dias.

A diferença média entre os dois grupos foi de 1,8 dia mensal. Cerca de 41% dos pacientes tratados com 60 mg tiveram redução de pelo menos 50% na frequência das crises, diante de 26% no grupo placebo.

O estudo concluiu que as duas doses avaliadas apresentaram reduções clinicamente relevantes na quantidade mensal de dias de enxaqueca crônica.


Constipação e náusea apareceram entre as reações mais comuns

Nos ensaios clínicos, os efeitos adversos mais frequentes relacionados ao atogepanto foram constipação e náusea.

No estudo PROGRESS, aproximadamente 10% dos participantes que receberam 60 mg uma vez ao dia relataram constipação. A náusea apareceu em proporção semelhante.

A presença desses eventos não significa que todas as pessoas tratadas apresentarão os mesmos sintomas. A intensidade e a frequência das reações podem variar de acordo com cada paciente.

O médico também deverá avaliar possíveis interações com outros medicamentos, condições preexistentes e a necessidade de ajustes na dose.

O Aquipta não deve ser utilizado por iniciativa própria. A decisão sobre o tratamento precisa considerar os benefícios esperados, os riscos e o histórico clínico individual.


Estudos foram financiados pela fabricante

Os estudos ADVANCE e PROGRESS tiveram financiamento da Allergan, empresa que atualmente faz parte da AbbVie.

O financiamento pela fabricante deve ser informado para garantir transparência na interpretação dos resultados, mas não invalida automaticamente os achados.

Os dois trabalhos foram ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo. Nesse modelo, os participantes são distribuídos entre diferentes grupos, e nem eles nem os pesquisadores responsáveis pela avaliação sabem inicialmente quem recebeu o medicamento ou o placebo.

Esse desenho ajuda a reduzir interferências e vieses, embora nenhum estudo isolado responda a todas as questões sobre eficácia e segurança no uso prolongado.

A experiência após a comercialização também será importante para acompanhar o comportamento do medicamento em um número maior e mais diverso de pacientes.


Aprovação amplia opções contra a enxaqueca

O Aquipta não é o primeiro medicamento oral da classe dos gepants autorizado no Brasil.

Em maio de 2026, a Anvisa aprovou o Nurtec ODT, que contém rimegepanto. O medicamento recebeu autorização para o tratamento agudo da enxaqueca com ou sem aura em adultos e para a prevenção da forma episódica em pacientes com pelo menos quatro crises por mês.

A chegada dos gepants amplia o conjunto de opções disponíveis para pessoas que não respondem adequadamente a outros preventivos ou que enfrentam efeitos adversos com os tratamentos já existentes.

Além dos gepants, o tratamento preventivo pode envolver betabloqueadores, anticonvulsivantes, antidepressivos, toxina botulínica em casos selecionados e anticorpos monoclonais que atuam sobre o CGRP.

A existência de uma nova opção não significa que ela substituirá automaticamente os medicamentos anteriores. Cada classe apresenta indicações, vantagens, limitações e custos diferentes.


Preço do Aquipta ainda será definido

A AbbVie informou que o atogepanto ainda passará pela avaliação da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos.

A CMED é responsável por estabelecer os preços máximos permitidos para a comercialização de medicamentos no país. Até a conclusão desse processo, não é possível informar quanto o Aquipta custará ao consumidor brasileiro.

O medicamento já possui aprovação em mercados como Estados Unidos e União Europeia, mas os valores praticados fora do país não determinam automaticamente o preço brasileiro.

A fabricante também não anunciou uma data para o início das vendas. Dessa forma, pacientes ainda não devem considerar que o produto já esteja disponível nas farmácias apenas porque recebeu o registro sanitário.


Registro da Anvisa não garante oferta pelo SUS

A aprovação sanitária e a incorporação ao Sistema Único de Saúde são processos diferentes.

A Anvisa avalia a qualidade, a segurança e a eficácia de um medicamento para permitir sua comercialização no Brasil.

A Conitec, por sua vez, analisa se uma tecnologia deve ser oferecida pelo SUS. Essa avaliação considera as evidências clínicas, os tratamentos já disponíveis, o impacto orçamentário e a relação entre custos e benefícios.

Até o momento, a aprovação do Aquipta não representa sua incorporação à rede pública.

Para que isso aconteça, será necessária uma solicitação específica, seguida de análise técnica, consulta pública e decisão do Ministério da Saúde.


Enxaqueca é uma doença neurológica incapacitante

A enxaqueca não é apenas uma dor de cabeça comum. Trata-se de uma doença neurológica caracterizada por crises recorrentes de intensidade moderada a grave.

A dor pode ser pulsátil, afetar um dos lados da cabeça e piorar com atividades rotineiras. Náuseas, vômitos e sensibilidade à luz e ao som também estão entre os sintomas frequentes.

Alguns pacientes apresentam aura, condição que pode provocar alterações visuais ou sensitivas antes ou durante a crise.

Segundo a Anvisa, a doença afeta cerca de 15% da população mundial e pode comprometer o trabalho, os estudos, a vida social e o uso dos serviços de saúde.

Pessoas com dores frequentes ou incapacitantes devem procurar avaliação profissional. O diagnóstico adequado é essencial para diferenciar a enxaqueca de outras condições e definir o tratamento mais apropriado.

A aprovação do Aquipta oferece uma nova alternativa oral para a prevenção das crises, mas seu alcance no Brasil dependerá agora da definição do preço, do lançamento comercial e de uma eventual avaliação para incorporação ao SUS.