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PF aponta aviso prévio a Vorcaro, tentativa de deixar o país e atuação de servidores do BC no caso Master

Relatórios que tiveram o sigilo retirado detalham movimentações do ex-banqueiro antes da Operação Compliance Zero e indicam suposta atuação de funcionários do Banco Central como consultores informais do Banco Master.


A Polícia Federal (PF) reuniu em documentos tornados públicos nesta semana uma série de mensagens, reuniões, registros pessoais e movimentações que, segundo os investigadores, indicam que Daniel Vorcaro tinha conhecimento antecipado sobre uma operação policial que poderia atingi-lo e adotou medidas nos dias anteriores à deflagração da Operação Compliance Zero.

Os relatórios também apresentam elementos sobre a relação do ex-controlador do Banco Master com servidores do Banco Central (BC). Segundo a PF, funcionários do órgão teriam fornecido orientações, revisado documentos e auxiliado em assuntos relacionados à supervisão bancária enquanto mantinham uma relação financeira com pessoas ligadas ao grupo de Vorcaro.

O material ganhou publicidade após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirar o sigilo das principais investigações relacionadas ao caso Master. A decisão foi tomada após solicitação do presidente do Supremo, Edson Fachin, e liberou informações de inquéritos, petições e outras apurações que tramitam na Corte.

As conclusões apresentadas nos documentos são da Polícia Federal e fazem parte de investigações ainda em andamento.


PF vê sinais de que Vorcaro sabia de operação antes da prisão

Um dos pontos centrais do relatório é a avaliação da PF de que Daniel Vorcaro teve acesso antecipado a informações sobre a investigação e sobre a possibilidade de medidas policiais contra ele.

Segundo os investigadores, uma sequência de acontecimentos registrada entre outubro e novembro de 2025 demonstra que o ex-banqueiro acompanhava de perto movimentações relacionadas ao inquérito e procurava informações sobre autoridades responsáveis pelo caso.

Em 21 de outubro de 2025, de acordo com a investigação, Vorcaro registrou no aplicativo de notas de seu celular nomes de representantes da Polícia Federal que haviam participado de uma reunião reservada com integrantes do Banco Central.

Para os investigadores, o registro levanta a suspeita de que informações sobre encontros de caráter restrito chegaram ao empresário.

Pouco menos de um mês depois, em 16 de novembro de 2025, dois dias antes da deflagração da Operação Compliance Zero, Vorcaro teria feito outra anotação, desta vez questionando a eventual proximidade de uma terceira pessoa com o juiz federal Ricardo Soares Leite, responsável por autorizar medidas da investigação.

Como o procedimento ainda estava sob sigilo, a Polícia Federal considera a anotação mais um elemento que pode indicar conhecimento prévio sobre o avanço das apurações.


Mensagens de advogado antecederam mudança nos planos de viagem

A investigação também reconstruiu os acontecimentos da manhã de 17 de novembro de 2025, um dia antes da operação.

Segundo o documento, Vorcaro recebeu, às 7h28, mensagens consideradas urgentes de seu advogado, Walfrido Warde.

Pouco depois, o então controlador do Banco Master teria alterado seus planos. Às 8h48, informou que providenciaria um voo partindo do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

Para a PF, a proximidade temporal entre os contatos, a mudança no planejamento e a operação que seria realizada no dia seguinte representa um dos elementos relevantes para a tese de que havia planejamento para deixar o Brasil.

Os investigadores sustentam que seria improvável que a tentativa de viagem internacional na noite imediatamente anterior ao cumprimento das ordens judiciais fosse apenas uma coincidência.


Reportagem sobre investigação também entrou nas conversas

Ainda naquele dia, Vorcaro mantinha contato com o jornalista Diego Escosteguy sobre uma reportagem que seria publicada.

Depois das 11h, segundo a Polícia Federal, ele recebeu o link do conteúdo e encaminhou o material imediatamente ao advogado.

A reportagem fazia referência à existência de um inquérito na 10ª Vara Federal de Brasília.

Posteriormente, Warde apresentou uma petição à própria vara solicitando acesso à investigação e mencionou a reportagem como fonte para justificar o pedido.

As conversas analisadas pela PF mostram que o assunto continuou sendo discutido ao longo do dia, inclusive com referências à possibilidade de contato com o magistrado responsável pelo procedimento.

Para a investigação, o conjunto desses episódios precisa ser analisado juntamente com outros elementos obtidos durante a apuração para determinar até que ponto Vorcaro já conhecia informações que ainda não eram públicas.


Reunião com integrantes do Banco Central ocorreu na véspera da operação

Outro ponto destacado pela Polícia Federal envolve contatos entre Vorcaro e servidores do Banco Central.

Desde as 6h34 de 17 de novembro, segundo os relatórios, o banqueiro mantinha conversas com Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, ambos ligados ao BC.

Em determinado momento, os interlocutores avaliaram que seria importante que Vorcaro conversasse com Ailton Aquino, diretor do Banco Central.

A reunião foi organizada para o próprio dia.

Vorcaro sugeriu o horário das 13h. Paulo Sérgio confirmou o encontro para 13h15, enquanto Belline encaminhou o link para a reunião às 13h35, conforme a reconstrução apresentada pelos investigadores.

Depois do encontro, começaram a circular informações sobre uma possível aquisição do Banco Master pelo Grupo Fictor.

A PF considera que algumas das mensagens analisadas podem indicar que determinados envolvidos já estavam cientes da estratégia de divulgação da negociação.


Vorcaro foi interceptado em Guarulhos antes de embarcar

Na noite daquele mesmo 17 de novembro de 2025, Vorcaro foi abordado pelas autoridades no Aeroporto Internacional de Guarulhos, na Grande São Paulo.

Segundo a Polícia Federal, ele estava prestes a embarcar em um jato particular com destino final aos Emirados Árabes Unidos.

A primeira fase da Operação Compliance Zero seria oficialmente deflagrada no dia seguinte, 18 de novembro, após autorização judicial para as medidas solicitadas pela PF.

Os investigadores interpretaram a tentativa de embarque como parte de um possível planejamento para deixar o Brasil antes da operação.

A defesa de Vorcaro contestou a interpretação de fuga ao longo do processo.


PF fala em conhecimento antecipado e articulação institucional

No relatório, a Polícia Federal sustenta que os acontecimentos precisam ser analisados em conjunto.

Para os investigadores, há “fortes elementos indicativos” de que Vorcaro e pessoas próximas teriam adotado medidas destinadas a proteger integrantes do núcleo dirigente investigado, inclusive por meio da obtenção antecipada de informações e do contato com interlocutores em órgãos públicos.

A PF também menciona o planejamento logístico para a saída do país e as comunicações mantidas com autoridades e servidores como parte do cenário investigado.

Essas informações foram utilizadas pela corporação para fundamentar um novo pedido de prisão preventiva contra Vorcaro, formalizado em 27 de fevereiro de 2026.

O ex-banqueiro voltou a ser preso em março deste ano.


Vorcaro chegou a ser solto após primeira prisão

Após a prisão ocorrida em novembro de 2025, Vorcaro permaneceu detido por aproximadamente dez dias.

Posteriormente, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) determinou a soltura do empresário e de outros quatro executivos ligados ao Banco Master.

De acordo com a Polícia Federal, entre os elementos considerados naquela decisão estava justamente o conteúdo de uma reunião realizada com integrantes do Banco Central.

Meses depois, com a obtenção de novas informações e o avanço das investigações, a PF voltou a defender a necessidade da prisão preventiva.


Mensagens com Alexandre de Moraes também são analisadas pela PF

Outro núcleo do material tornado público envolve mensagens trocadas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

Segundo relatório da Polícia Federal, os diálogos indicam que o empresário discutia a possibilidade de uma operação policial ser realizada contra ele.

Uma das mensagens consideradas relevantes pelos investigadores foi enviada em 15 de novembro de 2025, dois dias antes da prisão em Guarulhos.

Na conversa, Vorcaro pergunta ao ministro se deveria estar fora do país na segunda-feira seguinte.

Quarenta e oito horas depois, na noite de 17 de novembro, ele foi detido pela Polícia Federal antes de embarcar.

Os diálogos fazem parte dos elementos analisados pelos investigadores para reconstruir quem tinha conhecimento da possível operação e em que momento essas informações começaram a circular.


PF investiga atuação de servidores do Banco Central

Além da tentativa de reconstruir os dias anteriores à prisão de Vorcaro, os relatórios da Polícia Federal apresentam detalhes sobre a relação do empresário com os servidores Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, posteriormente afastados do Banco Central.

Segundo a investigação, os dois teriam atuado reiteradamente como uma espécie de consultoria informal para Vorcaro e seus negócios.

A PF afirma que foram identificadas orientações estratégicas, análises de documentos e intervenções relacionadas a temas de supervisão bancária.

O ponto considerado especialmente relevante pelos investigadores é que Paulo Sérgio ocupava uma função no Departamento de Supervisão Bancária (Desup), unidade diretamente relacionada ao acompanhamento da situação financeira das instituições.

O setor é responsável por monitorar fatores como capital, liquidez, gestão de riscos e controles internos das instituições financeiras.


PF afirma que atuação passou a ter contornos de “assessoria paralela”

Em mensagens analisadas pela investigação, Paulo Sérgio aparece enviando a Vorcaro informações relacionadas à própria posição que ocupava dentro do Banco Central.

De acordo com a PF, a partir de determinado momento a relação teria ultrapassado um contato institucional comum e assumido características de “verdadeira assessoria paralela”.

Uma mensagem de 21 de dezembro de 2023, por exemplo, mostra Paulo Sérgio sugerindo assuntos que poderiam ser tratados em reuniões de Vorcaro com uma pessoa identificada como “Presi”.

Os investigadores afirmam que o termo provavelmente fazia referência ao então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

A orientação envolvia destacar as vantagens comerciais de uma eventual operação relacionada ao Will Bank, especialmente sua capacidade de oferecer serviços de pagamento e contas bancárias a milhões de clientes.

O Banco Master e a Reag Investimentos adquiriram o Will Bank em fevereiro de 2024.

Anos depois, em 21 de janeiro de 2026, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial da instituição digital.


Servidor teria revisado documento enviado pelo Master ao próprio setor do BC

Outro episódio citado pela Polícia Federal ocorreu em 25 de abril de 2025.

Segundo os investigadores, Vorcaro preparou um ofício do Banco Master que seria encaminhado justamente ao Departamento de Supervisão Bancária, área na qual Paulo Sérgio trabalhava.

O documento estava relacionado a uma cobrança para que o banco assegurasse níveis considerados adequados de determinados indicadores de liquidez até o início de maio daquele ano.

Antes do envio, a minuta teria sido encaminhada ao próprio servidor para revisão.

Paulo Sérgio posteriormente devolveu o documento com alterações sugeridas.

Para os investigadores, o episódio reforça a suspeita de que havia uma relação informal entre integrantes do órgão fiscalizador e representantes da instituição que deveria ser fiscalizada.


Grupo de mensagens reunia Vorcaro e servidores

Em outubro de 2025, Belline Santana criou um grupo de mensagens que reunia ele próprio, Daniel Vorcaro e Paulo Sérgio.

Na primeira mensagem, Belline afirmou que o espaço serviria para facilitar a interlocução entre os participantes.

Logo em seguida, o servidor comentou um documento e sugeriu modificações em sua redação.

A Polícia Federal interpreta o diálogo como continuidade de uma dinâmica que já teria sido observada anteriormente: orientações por mensagens, chamadas telefônicas e revisão de documentos em assuntos relacionados aos interesses de Vorcaro.

Os contatos entre Belline e o empresário, segundo a investigação, são anteriores à criação do grupo.

Em novembro de 2023, o servidor teria enviado mensagem a Vorcaro para tratar de assuntos relacionados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Em abril de 2024, também teria procurado o empresário para marcar uma reunião com participação de Paulo Sérgio.

Quando questionado sobre o tema do encontro, Belline respondeu que pretendia tratar de uma “visão prospectiva e estratégica”.

Para a PF, o conteúdo indicaria que a conversa não estava necessariamente vinculada às atribuições institucionais do servidor no Banco Central.


Mensagens citam pagamentos relacionados a Belline

A investigação também identificou conversas entre Vorcaro e Fabiano Zettel contendo referências a pagamentos destinados a Belline.

Em dezembro de 2023, Zettel teria avisado Vorcaro que havia chegado o momento de realizar um pagamento.

O empresário perguntou se os recursos estavam saindo diretamente do banco. Zettel respondeu que não e descreveu uma operação envolvendo terceiros.

Nos meses seguintes, outras conversas voltaram a mencionar valores supostamente destinados ao servidor.

Em janeiro de 2024, por exemplo, mensagens registraram pagamentos pendentes e posteriores providências para a realização das transferências.

Já em outubro daquele ano, segundo a PF, uma conversa indicava que parte de um valor encaminhado a Leonardo Palhares seria destinada, na realidade, a Belline.

O montante mencionado pelos investigadores é de R$ 760 mil.

As mensagens analisadas pela Polícia Federal continuaram durante 2025.

Em uma delas, Zettel diz que Belline estava cobrando um pagamento. Vorcaro responde que o valor deveria ser pago.

Os investigadores também encontraram referências a possíveis repasses realizados enquanto Belline estava em uma viagem à França.


Investigação apura eventual uso de empresas intermediárias

Um dos aspectos avaliados pela Polícia Federal é a possível utilização de empresas e terceiros para intermediar pagamentos.

Em mensagens de dezembro de 2023, Vorcaro e Zettel discutem a possibilidade de que determinada empresa não fosse mais utilizada e mencionam a criação de outra companhia.

Em outras conversas, os interlocutores fazem referência ao envio de recursos para uma empresa ligada a uma terceira pessoa antes que o dinheiro chegasse ao destinatário final.

Para a PF, a forma como essas operações aparecem nas mensagens é relevante para compreender a origem, o destino e a justificativa dos pagamentos.

A investigação busca determinar se os valores tinham relação com serviços legítimos ou se estavam vinculados à suposta atuação dos servidores em benefício do Banco Master.


Caso Master envolve diferentes frentes de investigação

Com a retirada do sigilo, o público passou a ter acesso a uma parcela maior da investigação relacionada ao Banco Master.

Os documentos mostram que o caso envolve diferentes núcleos de apuração, que vão desde operações financeiras e suspeitas envolvendo executivos até possíveis contatos com autoridades, servidores públicos e integrantes de órgãos de fiscalização.

Também são investigadas as circunstâncias em que informações sobre medidas sigilosas poderiam ter chegado previamente a pessoas que posteriormente seriam alvo da operação.

A Polícia Federal procura estabelecer se houve vazamento de informações protegidas, interferência em procedimentos de fiscalização, pagamentos indevidos ou atuação coordenada para proteger investigados.

Essas hipóteses ainda dependem da conclusão das investigações e da análise do Judiciário.


Retirada do sigilo amplia exposição das provas reunidas pela PF

A decisão de André Mendonça de levantar o sigilo sobre parte dos procedimentos colocou no centro do debate documentos que anteriormente estavam restritos às autoridades e às partes envolvidas.

O material permite reconstruir a cronologia de contatos realizados por Vorcaro antes da Operação Compliance Zero e compreender parte das razões utilizadas pela Polícia Federal para solicitar novas medidas judiciais.

Ao mesmo tempo, os relatórios trazem acusações e interpretações produzidas durante uma investigação e não representam, por si só, uma condenação judicial dos envolvidos.

A apuração sobre o Banco Master permanece sob análise das autoridades, e as defesas dos investigados podem contestar as conclusões e apresentar suas próprias versões sobre os fatos.

Com a divulgação dos documentos, porém, a Polícia Federal passa a sustentar publicamente uma linha investigativa mais ampla: a de que o núcleo ligado a Daniel Vorcaro não apenas teria recebido informações antecipadas sobre a ofensiva policial, como também teria mantido interlocutores estratégicos dentro de estruturas públicas responsáveis por acompanhar e fiscalizar o sistema financeiro.