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Brasil investe quase quatro vezes menos por estudante que média internacional, aponta OCDE

Relatório divulgado nesta terça-feira (29) revela que o investimento brasileiro por aluno está entre os menores dos países analisados; levantamento também aponta insatisfação salarial dos professores e desafios na formação educacional da população.


O Brasil investe, em média, US$ 3.762 por estudante, o equivalente a aproximadamente R$ 19.609, considerando os diferentes níveis de ensino, da educação básica ao ensino superior. O valor representa menos de um terço do investimento médio registrado entre os países participantes do estudo Panorama da Educação 2026, divulgado nesta terça-feira (29) pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

De acordo com o levantamento, a média internacional dos países analisados chega a US$ 13.859 por aluno, aproximadamente R$ 72.241. Isso significa que o investimento brasileiro por estudante é cerca de 3,7 vezes menor do que o registrado nas demais nações avaliadas.

O relatório reúne indicadores educacionais de 38 países e apresenta um panorama sobre financiamento da educação, valorização dos professores, formação profissional, escolaridade da população adulta e permanência dos estudantes nas instituições de ensino.

Além da diferença nos recursos destinados aos alunos, os resultados evidenciam desafios enfrentados pelo sistema educacional brasileiro, especialmente em relação à remuneração dos docentes, à permanência dos profissionais na rede pública e ao acesso da população ao ensino superior.


Investimento por aluno no Brasil fica distante da média internacional

Os dados divulgados pela OCDE mostram uma diferença expressiva entre os recursos aplicados na educação brasileira e aqueles destinados por países com maior capacidade de investimento.

Enquanto o Brasil registra uma despesa média de US$ 3.762 por estudante, o valor observado nos demais países participantes chega a US$ 13.859. Em termos proporcionais, o investimento brasileiro corresponde a aproximadamente 27% dessa média internacional.

O contraste também aparece quando o país é comparado com outras nações da América Latina, indicando diferenças importantes na distribuição de recursos para o financiamento educacional.

Entre os países avaliados, Luxemburgo ocupa a primeira posição em investimento por estudante, com despesas superiores a US$ 27 mil, equivalentes a mais de R$ 140 mil por aluno.

A distância entre os valores evidencia as diferentes realidades econômicas e orçamentárias dos sistemas de ensino. Embora o investimento financeiro não seja o único fator responsável pela qualidade da aprendizagem, ele está diretamente relacionado à capacidade de manutenção das instituições, à infraestrutura disponível e aos recursos destinados à formação e à valorização dos profissionais.


Brasil destina 4,3% do PIB à educação pública

Apesar do baixo investimento individual por estudante, o levantamento apresenta um cenário diferente quando considera a proporção da economia nacional destinada ao financiamento público da educação.

Segundo a OCDE, o Brasil aplica 4,3% do Produto Interno Bruto (PIB) no financiamento público da educação básica ao ensino superior, percentual superior à média de 3,6% registrada entre os países da organização.

Os números mostram que, embora o país destine uma parcela proporcionalmente maior de sua economia à educação, o montante disponível por estudante permanece significativamente inferior ao observado internacionalmente.

Essa diferença está relacionada, entre outros fatores, ao tamanho da economia, à quantidade de estudantes atendidos e à capacidade de financiamento dos sistemas educacionais.

O estudo também identifica uma característica particular na distribuição dos recursos brasileiros. Diferentemente do que ocorre na maior parte dos países participantes, o gasto público por aluno no Brasil é praticamente equivalente entre o ensino superior, incluindo atividades de pesquisa e desenvolvimento, e os demais níveis de ensino considerados no levantamento.

Os indicadores demonstram a importância de analisar tanto a participação da educação no orçamento nacional quanto o volume efetivo de recursos disponível para cada estudante.


Apenas 22,3% dos professores brasileiros estão satisfeitos com seus salários

A valorização dos profissionais da educação é outro ponto de atenção apresentado pelo levantamento. Os indicadores mostram que o Brasil enfrenta dificuldades relacionadas à satisfação dos docentes com a remuneração e com as condições oferecidas para o exercício da profissão.

Segundo os dados, apenas 22,3% dos professores brasileiros afirmam estar satisfeitos com os salários recebidos, percentual significativamente inferior à média de 38,7% dos países analisados.

O resultado coloca o Brasil entre as nações com os menores índices de satisfação salarial dos docentes.

Quando a avaliação considera as condições gerais de trabalho, excluindo a remuneração, o cenário também apresenta diferenças importantes. No Brasil, 44,3% dos professores demonstram satisfação, enquanto a média internacional chega a 68,4%.

Os indicadores reforçam a discussão sobre a atratividade da carreira docente e as dificuldades enfrentadas pelas instituições de ensino para manter profissionais qualificados.


Saída de professores das escolas públicas supera média da OCDE

O relatório também aborda a escassez de professores, considerada um desafio para diferentes sistemas educacionais ao redor do mundo.

No Brasil, 9% dos docentes do ensino fundamental e médio das instituições públicas não possuíam qualificação plena em 2024/2025, percentual próximo à média de 9,1% registrada pela OCDE.

Entretanto, os dados sobre a saída de profissionais plenamente qualificados das escolas públicas brasileiras apresentam uma diferença mais expressiva.

Em 2022, aproximadamente 10,3% desses professores deixaram seus postos na rede pública, seja por aposentadoria ou por desligamento. Na média da OCDE, o percentual registrado para 2024/2025 foi de 6,4%.

A comparação exige atenção aos diferentes períodos considerados, mas demonstra a dimensão do desafio de retenção de profissionais no ensino público brasileiro.

O levantamento também identifica que o número de professores no ensino fundamental cresceu 4% no Brasil, enquanto a média dos países participantes apresentou expansão de 13%.

É importante destacar que a saída de profissionais das escolas públicas não representa necessariamente o abandono definitivo da carreira docente.

Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, observa que parte desses profissionais pode ter migrado para instituições privadas, por exemplo. Ainda assim, os números demonstram dificuldades para a manutenção de professores qualificados na rede pública.


Apenas 22% dos adultos brasileiros possuem ensino superior

Além dos investimentos e das condições de trabalho dos professores, o Panorama da Educação apresenta indicadores relacionados à escolaridade da população adulta.

No Brasil, 22% das pessoas com idade entre 25 e 64 anos possuem formação superior, percentual bastante inferior à média de 43% observada entre os países da OCDE.

A diferença representa um dos desafios educacionais do país, especialmente em relação à ampliação do acesso às universidades, à permanência dos estudantes e à conclusão dos cursos de graduação.

Quando considerados os adultos da mesma faixa etária que concluíram o ensino médio ou possuem formação técnica, o Brasil apresenta resultado mais próximo da média internacional.

Nesse grupo, o percentual brasileiro chega a 39%, enquanto a média dos países avaliados é de 40%.

Os dados demonstram que, embora o país apresente indicadores semelhantes aos internacionais em determinadas etapas da escolarização, a proporção de adultos com diploma universitário permanece consideravelmente menor.


Percentual de jovens sem ensino médio completo apresenta redução

O relatório também identifica mudanças positivas na escolaridade dos brasileiros mais jovens.

Entre a população de 25 a 34 anos, a proporção de pessoas que não haviam concluído o ensino médio passou de 35% em 2016 para 26% em 2024.

A redução de nove pontos percentuais indica um avanço na conclusão dessa etapa educacional ao longo dos oito anos analisados.

Outro indicador considerado pelo estudo é a quantidade de jovens que não estão matriculados em instituições de ensino e também não possuem ocupação profissional.

Nesse grupo, houve uma redução de 27% para 22% entre 2016 e 2024, conforme os dados apresentados no levantamento.

Apesar da diminuição, o percentual demonstra que uma parcela importante da população jovem ainda enfrenta dificuldades de inserção educacional e profissional.

A conclusão da educação básica, o acesso à formação técnica e a continuidade dos estudos são fatores relevantes para compreender a transição desses jovens para o mercado de trabalho.


Transição para o ensino médio ainda registra estudantes fora das escolas

A continuidade dos estudos após a conclusão do ensino fundamental também integra os indicadores analisados pela OCDE.

No Brasil, um ano após a conclusão da etapa final do ensino fundamental, 87% dos estudantes estão matriculados no ensino médio ou em algum outro programa educacional.

Outros 4% permanecem no último ano do ensino fundamental, enquanto aproximadamente 8% não aparecem matriculados em nenhuma modalidade de educação formal.

Os resultados evidenciam que, embora a maior parte dos estudantes dê continuidade à trajetória escolar, ainda existem dificuldades relacionadas à permanência e à progressão educacional.

A interrupção dos estudos nessa etapa pode comprometer o acesso posterior à educação técnica e superior, além de restringir oportunidades de qualificação profissional.

O cenário reforça a importância de medidas voltadas ao acompanhamento dos estudantes, especialmente durante a passagem do ensino fundamental para o médio, período importante para a continuidade da formação educacional.


Financiamento e valorização dos professores estão entre os desafios da educação brasileira

Os resultados apresentados pela OCDE mostram que a educação brasileira reúne avanços em determinados indicadores, mas ainda enfrenta diferenças expressivas em relação aos demais países participantes do levantamento.

O investimento médio de US$ 3.762 por estudante contrasta com os US$ 13.859 registrados internacionalmente, mesmo com o Brasil destinando uma proporção superior de seu PIB ao financiamento público da educação.

Ao mesmo tempo, os baixos índices de satisfação salarial dos professores e as dificuldades de retenção de profissionais nas escolas públicas evidenciam desafios relacionados à valorização da carreira docente.

Na formação da população, o crescimento da escolaridade entre os jovens representa um avanço, embora a proporção de adultos com ensino superior completo continue distante da média dos países da organização.

O conjunto dos indicadores aponta para a necessidade de ampliar as oportunidades educacionais, fortalecer a permanência dos estudantes e garantir condições para a formação e a continuidade dos profissionais nas redes de ensino.

Nota editorial: os valores de investimento por aluno e de participação da educação no PIB também constam da edição de 2025 do Panorama da Educação. A comparação de US$ 13.859 refere-se ao conjunto de países analisados, não a uma média de todos os países do mundo. Foram evitadas as referências contraditórias ao México e ao período de 2026/2024 presentes no texto-base.