Investigação concluiu que a soldado Yasmin Cursino Ferreira agiu com intenção de matar Thawanna Salmázio durante uma abordagem em Cidade Tiradentes e descartou a tese de legítima defesa; relatório foi encaminhado à Justiça Militar.
A Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo concluiu que a soldado Yasmin Cursino Ferreira agiu com intenção de matar Thawanna da Silva Salmázio, de 31 anos, durante uma abordagem realizada em Cidade Tiradentes, na Zona Leste da capital paulista, em abril de 2026.
Segundo a investigação, existem indícios de homicídio doloso qualificado, quando há intenção de matar, e não foram encontrados elementos suficientes para sustentar a versão de legítima defesa apresentada pelos policiais envolvidos na ocorrência.
Thawanna estava desarmada quando foi atingida por um tiro na região do abdômen. Ela permaneceu no chão por aproximadamente 30 minutos até a chegada do socorro e morreu horas depois. A vítima trabalhava como ajudante-geral e deixou cinco filhos, com idades entre 5 e 13 anos.
O relatório final foi encaminhado à Justiça Militar. A conclusão da Corregedoria representa o resultado da investigação administrativa e militar, mas não equivale a uma condenação judicial definitiva. Caberá às autoridades competentes analisar as provas e decidir sobre eventuais denúncias e responsabilizações.
Os dois policiais envolvidos foram afastados das atividades operacionais depois do episódio. Yasmin permanece afastada de suas funções desde a morte de Thawanna.
Investigação aponta uso desnecessário e desproporcional da força
O Inquérito Policial Militar, concluído em 1º de junho, já havia apontado indícios de autoria e materialidade de homicídio. O documento afirma que Yasmin efetuou o disparo que atingiu Thawanna no abdômen e provocou a hemorragia responsável por sua morte.
A encarregada da investigação concluiu que não havia risco iminente à vida da policial que justificasse o emprego de força letal. O relatório também afirma que não ficou demonstrada uma progressão no uso da força antes do disparo.
De acordo com a apuração, a conduta apresentou problemas de necessidade, adequação e proporcionalidade. A conclusão foi construída a partir da análise de imagens de câmera corporal, depoimentos, documentos da ocorrência e laudos periciais.
Entre os materiais considerados estão os laudos necroscópico, de levantamento do local, de disparo de arma de fogo e de lesão corporal da policial.
A análise desse conjunto de provas levou a Corregedoria a afastar a tese de que o tiro teria sido uma reação necessária para proteger a vida da agente.
Versão de legítima defesa foi contestada pelas provas
Os policiais afirmaram inicialmente que Thawanna teria dado um tapa no rosto de Yasmin e avançado em sua direção durante um confronto físico. Segundo essa versão, a soldado tentou se afastar antes de efetuar o disparo.
A apuração, no entanto, encontrou versões divergentes sobre o início da discussão e o momento em que a arma foi utilizada.
Uma testemunha afirmou que o desentendimento teria sido iniciado pela policial. O relato aponta que Yasmin teria agredido Thawanna antes de receber o suposto tapa. Depois disso, a soldado teria dado dois passos para trás e disparado sem apresentar uma ordem verbal.
As imagens das câmeras corporais também foram consideradas fundamentais para a investigação. O material registrou parte da abordagem e apresentou diferenças em relação às declarações fornecidas pelos agentes.
A soldado Yasmin não utilizava câmera corporal naquela noite. A ocorrência foi gravada apenas pelo equipamento usado pelo soldado Weden Silva Soares, que estava com ela na viatura.
Caso começou após braço do companheiro tocar na viatura
Thawanna e o companheiro, Luciano Gonçalvez dos Santos, caminhavam de mãos dadas pela Rua Edimundo Audran, em Cidade Tiradentes, durante a madrugada de 3 de abril.
Uma viatura da Polícia Militar passou próxima ao casal e o braço de Luciano tocou no retrovisor do veículo. O policial que dirigia o carro deu ré e passou a questioná-los.
No boletim de ocorrência, os policiais afirmaram que retornaram para verificar se Luciano estava bem. As imagens, contudo, registraram Weden questionando, com palavrões, por que o casal estava caminhando pela rua.
O vídeo também indica que Thawanna não tocou no retrovisor e não iniciou a discussão, diferentemente do que apareceu em versões iniciais sobre a ocorrência.
Depois de o policial retornar com a viatura, a situação se transformou em uma discussão. Yasmin, que ocupava o banco do passageiro, desceu do carro e também passou a discutir com Thawanna.
O conflito escalou até o disparo. A vítima foi atingida no abdômen, caiu no chão e permaneceu ferida enquanto os policiais aguardavam a chegada do atendimento médico.
Câmera corporal revelou contradições nos depoimentos
A comparação entre as imagens e os depoimentos apresentou divergências desde o começo da ocorrência.
Os policiais disseram que Luciano teria se desequilibrado e atingido o retrovisor. O vídeo mostra apenas o braço dele encostando no veículo, sem indicar que tenha perdido o equilíbrio.
Também houve diferenças sobre a razão para o retorno da viatura. Enquanto o registro policial mencionava uma tentativa de verificar as condições do homem, a gravação mostra uma abordagem iniciada em tom agressivo.
Os agentes afirmaram ainda que Luciano começou a gritar e deu início ao desentendimento. As imagens indicam que Thawanna tentou argumentar antes de a discussão ganhar intensidade.
Outro ponto analisado foi a suposta agressão contra Yasmin. Os policiais disseram que Thawanna avançou e deu um tapa no rosto da soldado. Na gravação disponível, é possível observar a aproximação e a discussão entre as duas, mas não há confirmação visual clara do tapa relatado pelos agentes.
A versão policial também sustentou que o disparo teria sido efetuado para impedir que Thawanna alcançasse a arma da soldado. O momento exato não aparece no campo de visão da câmera de Weden, sendo possível apenas ouvir o tiro.
Mesmo sem registrar visualmente o instante do disparo, o conjunto das imagens ajudou a reconstituir o comportamento dos envolvidos e as circunstâncias que antecederam a morte.
Thawanna esperou cerca de meia hora pelo resgate
Depois de ser baleada, Thawanna permaneceu no chão por aproximadamente 30 minutos até ser socorrida. O tempo de espera tornou-se outro ponto importante da investigação.
Havia unidades do Corpo de Bombeiros a poucos minutos do local da ocorrência. Ainda assim, o atendimento demorou a chegar.
Thawanna foi encaminhada ao Hospital Municipal Cidade Tiradentes, mas não resistiu ao ferimento. O atestado de óbito emitido pelo Instituto Médico Legal apontou hemorragia interna aguda como causa da morte.
Socorristas ouvidos durante a apuração afirmaram que a demora contribuiu para o agravamento do quadro, já que a hemorragia não foi controlada nos primeiros minutos depois do tiro.
As imagens mostram ainda que Luciano foi impedido pelos policiais de se aproximar da companheira enquanto ela permanecia ferida no chão.
Família cobra responsabilização pela morte
A morte provocou revolta entre familiares de Thawanna. A irmã da vítima, Daiana Martins, questionou por que a policial não utilizou outros meios para conter a situação antes de recorrer à arma de fogo.
Segundo Daiana, Thawanna poderia ter sido imobilizada, algemada ou conduzida à delegacia caso os policiais entendessem que ela havia cometido alguma infração. Para a família, a vítima não representava uma ameaça que justificasse o disparo.
A irmã também destacou as consequências da morte para os cinco filhos de Thawanna. As crianças tinham entre 5 e 13 anos quando perderam a mãe.
“A polícia matou uma pessoa incrível, tirou a chance de vida da minha irmã”, afirmou Daiana na época. Ela também declarou que nenhuma indenização seria capaz de compensar a ausência materna na vida dos filhos.
Especialistas apontaram sucessão de falhas na ocorrência
Especialistas em segurança pública que analisaram as imagens identificaram uma sequência de falhas desde o início da ocorrência até o momento posterior ao disparo.
Para o tenente-coronel da reserva da Polícia Militar e pesquisador Adilson Paes de Souza, o episódio não seguiu os protocolos da corporação. Ele avaliou que o caso deveria ser investigado como homicídio qualificado por motivo fútil.
O pesquisador afirmou que os abusos começaram na maneira como o policial dirigiu-se ao casal e continuaram durante a discussão. Na avaliação dele, a postura dos agentes transformou uma situação cotidiana em um confronto que terminou com a morte de uma mulher desarmada.
Adilson também criticou a maneira como moradores de bairros periféricos são abordados pelas forças de segurança. Segundo ele, pessoas negras, pobres e residentes em áreas consideradas conflagradas frequentemente recebem tratamento diferente daquele observado em regiões nobres.
O pesquisador, que acumulou 30 anos de experiência no serviço ativo, classificou o episódio como uma demonstração grave de violência institucional.
Ex-ouvidor afirma que episódio não foi uma abordagem regular
O ex-ouvidor das polícias de São Paulo Cláudio Aparecido da Silva avaliou que o episódio não poderia ser classificado como uma abordagem policial regular.
Para ele, ocorreu uma desinteligência entre os agentes e o casal, acompanhada por uma série de falhas na atuação dos policiais.
Uma das irregularidades apontadas foi a circulação da viatura com os sinalizadores desligados. Como a Polícia Militar realiza patrulhamento ostensivo, os equipamentos servem para indicar a presença do veículo e alertar pedestres.
O ex-ouvidor também questionou a condução da viatura. Segundo ele, o patrulhamento deve ser feito em velocidade que permita aos agentes observar o entorno e evitar situações de risco.
Na avaliação de Cláudio Silva, o uso de força letal não se justificava porque não havia demonstração de ameaça iminente à vida da soldado.
Ausência de câmera na policial também foi questionada
Outro ponto contestado foi o fato de Yasmin não estar utilizando câmera corporal durante o patrulhamento. A abordagem foi registrada somente pelo equipamento de Weden.
A Secretaria da Segurança Pública não explicou por que a soldado estava sem o dispositivo. Especialistas apontaram que a ausência do equipamento também deveria ser analisada pela cadeia de comando.
Cláudio Silva afirmou que, se o batalhão estava incluído no programa de câmeras, o comando deveria ter percebido que uma integrante da equipe saiu para o patrulhamento sem o aparelho.
A câmera utilizada pelo outro policial tornou-se uma das provas mais importantes do caso. Apesar de não mostrar diretamente o disparo, o equipamento registrou o início da discussão, o comportamento dos agentes e parte dos acontecimentos posteriores.
Outro soldado é investigado por transgressão disciplinar
A Corregedoria também analisou a atuação de Weden Silva Soares. O relatório apontou indícios de transgressão disciplinar por descumprimento do procedimento de abordagem de pessoa a pé.
A investigação, contudo, afirmou não haver indícios de crime militar ou comum praticado por ele.
Essa conclusão não elimina a possibilidade de responsabilização administrativa. Eventuais sanções disciplinares dependerão da análise interna da Polícia Militar e dos procedimentos previstos pela corporação.
Os investigadores consideraram que a maneira como a ocorrência começou não seguiu os protocolos esperados para uma abordagem.
Uso de arma de fogo exige risco iminente à vida
As normas para a atuação policial determinam que uma abordagem deve ser baseada em fundada suspeita de envolvimento em crime, sustentada por elementos objetivos.
O procedimento também deve seguir etapas como identificação do agente, verbalização das ordens e utilização proporcional da força. A arma de fogo deve ser empregada somente quando houver ameaça concreta e iminente à vida do policial ou de terceiros.
No caso de Thawanna, a investigação concluiu que não existiam elementos suficientes para justificar o disparo. O relatório também não identificou uma tentativa progressiva de controlar a situação antes da utilização da força letal.
A vítima estava desarmada e foi atingida por um único tiro no abdômen.
Relatório foi encaminhado à Justiça Militar
Com a conclusão da Corregedoria, o relatório foi enviado à Justiça Militar, que deverá analisar as provas reunidas durante o Inquérito Policial Militar.
A investigação aponta indícios de homicídio doloso qualificado contra Yasmin e descarta a legítima defesa. A definição sobre eventual denúncia caberá ao Ministério Público, enquanto a responsabilidade criminal dependerá de julgamento.
Paralelamente, o caso também foi investigado pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa. As imagens, os laudos periciais e os depoimentos integram o conjunto probatório.
A conclusão do inquérito representa uma nova etapa do caso, mas não encerra o processo. Até que exista uma decisão definitiva, permanecem válidos os princípios da presunção de inocência e do direito de defesa.
Para a família, entretanto, a apuração precisa responder não somente pelo momento do disparo, mas por toda a sequência da ocorrência, incluindo o início da discussão, o uso da força, a ausência de câmera corporal em uma das policiais e o tempo de espera pelo socorro.
Thawanna tinha 31 anos, trabalhava como ajudante-geral e caminhava de mãos dadas com o companheiro quando a situação começou. Sua morte deixou cinco crianças sem a mãe e transformou uma abordagem de rua em um dos casos mais graves de violência policial registrados em São Paulo em 2026.