Repressão é reconhecida oficialmente pela primeira vez, enquanto grupos de direitos humanos apontam milhares de presos e imagens mostram necrotérios improvisados
Cerca de duas mil pessoas morreram durante os protestos no Irã, incluindo manifestantes e membros das forças de segurança, segundo declarou uma autoridade iraniana nesta terça-feira (13). É a primeira vez que o governo do país reconhece oficialmente um número tão elevado de mortos desde o início da repressão, há cerca de duas semanas.
A informação foi confirmada em declaração à Reuters, sem detalhamento sobre o perfil das vítimas. Segundo a autoridade, as mortes teriam sido provocadas por pessoas classificadas pelo regime como “terroristas”, acusadas de agir durante os confrontos.
Crise econômica impulsiona protestos em todo o país
As manifestações tiveram início em 28 de dezembro, motivadas pelo colapso econômico, alta dos preços e deterioração das condições de vida. Com o avanço dos protestos, os atos passaram a ter um tom abertamente antigovernamental, sendo considerados o maior desafio interno ao regime iraniano em ao menos três anos.
No poder desde a Revolução Islâmica de 1979, as lideranças religiosas adotaram uma estratégia dupla: reconhecer que parte das reivindicações econômicas é legítima, ao mesmo tempo em que promovem uma forte repressão de segurança.
Direitos humanos contestam números oficiais
Grupos independentes de defesa dos direitos humanos vinham divulgando números bem menores que os apresentados pelo governo. Uma organização sediada nos Estados Unidos afirma ter confirmado 1.850 mortes, além de mais de 16 mil pessoas presas.
Outra entidade diz ter identificado mais de 10 mil detenções, enquanto estimativas anteriores apontavam cerca de 600 mortos. As divergências nos números são atribuídas, em parte, às restrições de comunicação, incluindo apagões da internet, que dificultam a verificação independente das informações.
Imagens revelam necrotérios improvisados
Vídeos que circulam nas redes sociais e que foram verificados por jornalistas mostram corpos espalhados em ruas próximas a centros forenses, especialmente na capital, Teerã. Em algumas imagens, é possível ver sacos pretos com cadáveres alinhados do lado de fora de prédios, enquanto famílias tentam identificar parentes desaparecidos.
Segundo relatos de ativistas, o número de vítimas seria tão elevado que pátios e galpões passaram a ser usados como necrotérios improvisados. A mídia estatal reconheceu as cenas, mas atribuiu a maioria das mortes a confrontos causados por “manifestantes violentos”.
Pressão internacional aumenta
O cenário de violência elevou a pressão internacional sobre o Irã, especialmente após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que pediu publicamente que os iranianos continuem protestando e afirmou que “ajuda está a caminho”, sem detalhar medidas.
Apesar das ameaças externas e da intensidade dos protestos, analistas avaliam que não há sinais de ruptura imediata no núcleo de segurança do regime, composto por forças como a Guarda Revolucionária e milícias paramilitares, que somam cerca de um milhão de integrantes.
Regime resiste, mas enfrenta uma das maiores crises desde 1979
Especialistas apontam que, embora o governo iraniano demonstre capacidade de sobrevivência, o país atravessa uma de suas fases mais delicadas desde 1979, marcada por sanções econômicas severas, isolamento internacional e perda gradual de legitimidade interna.
A repressão violenta, segundo analistas, pode conter os protestos no curto prazo, mas tende a aprofundar a crise política e social, mantendo o Irã sob forte instabilidade.
Com informações da Reuters



