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Brasil reduz mortes violentas, mas feminicídios atingem recorde com quatro vítimas por dia

Anuário Brasileiro de Segurança Pública contabilizou 1.571 feminicídios em 2025, maior número desde a tipificação do crime. Enquanto a violência letal caiu no país, tentativas de feminicídio, perseguições e violações de medidas protetivas aumentaram


O Brasil registrou em 2025 o menor número de mortes violentas intencionais desde 2012, mas não conseguiu proteger as mulheres da forma mais extrema da violência de gênero. No mesmo período em que os assassinatos recuaram no país, os feminicídios alcançaram o maior patamar da série histórica.

Foram 1.571 mulheres assassinadas em crimes classificados como feminicídio, uma alta de 4% em relação às 1.504 vítimas contabilizadas em 2024. A média foi superior a quatro mulheres mortas por dia.

Os números constam no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O resultado expõe um contraste preocupante: enquanto o país avança na redução dos homicídios e de outras mortes intencionais, a violência praticada contra mulheres dentro de relações familiares e afetivas continua crescendo.


Feminicídios atingem maior número da série histórica

Os 1.571 feminicídios registrados em 2025 representam o maior número desde que o crime passou a ser monitorado nacionalmente.

O feminicídio foi incluído na legislação brasileira em 2015. Inicialmente tratado como uma qualificadora do homicídio, o crime passou a ter maior autonomia jurídica a partir das mudanças promovidas na legislação nos anos seguintes.

A classificação é aplicada quando uma mulher é assassinada em contexto de violência doméstica e familiar ou por menosprezo e discriminação relacionados à condição feminina.

Desde o início da série apresentada pelo Anuário, o número de feminicídios avançou de 929 vítimas, em 2016, para 1.571 em 2025. O crescimento contínuo não pode mais ser explicado somente por melhorias na identificação e no registro das ocorrências.

Para Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os números apresentam sinais consistentes de aumento real da violência letal contra as mulheres.

Segundo a especialista, se a elevação estivesse ligada apenas à melhoria dos registros, seria esperada uma estabilização depois dos primeiros anos. O que os dados mostram, porém, é uma trajetória persistente de crescimento.


Quatro mulheres foram mortas por dia

A média de 2025 indica que mais de quatro mulheres foram vítimas de feminicídio por dia no Brasil.

O perfil apresentado pelo Anuário mostra que 65,1% das vítimas eram negras e 34% eram brancas. Mulheres entre 25 e 44 anos representaram 56,5% das mortes.

A residência, espaço que deveria representar segurança, foi o principal local dos crimes. Mais de seis em cada dez vítimas, ou 62,5%, foram assassinadas dentro de casa.

Nos casos com autoria identificada, 96,4% dos responsáveis eram homens. Em 60,9% dos feminicídios, o autor era o parceiro íntimo da vítima. Ex-companheiros representaram 18,9%, enquanto familiares foram apontados em 12,1% das ocorrências.

Os números mostram que o perigo, na maioria das vezes, não parte de uma pessoa desconhecida. Ele está dentro de relações próximas, frequentemente acompanhado por controle, ameaças, perseguição e episódios anteriores de agressão.


Tentativas de feminicídio também aumentaram

O número de feminicídios consumados representa apenas o estágio mais extremo da violência. Outros indicadores mostram que milhares de mulheres sobreviveram a tentativas de assassinato ao longo do ano.

Em 2025, o Brasil registrou 4.189 tentativas de feminicídio, crescimento de 5,9% na comparação com 2024.

Isso significa que, para cada feminicídio consumado, o país contabilizou aproximadamente três tentativas.

Além dos casos classificados especificamente como tentativa de feminicídio, foram registradas 8.864 tentativas de homicídio contra mulheres, incluindo ocorrências com e sem motivação de gênero.

O total equivale a 24 mulheres vítimas de tentativas de assassinato por dia, aproximadamente uma a cada hora.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as mulheres que sobreviveram permanecem, em muitos casos, expostas ao risco. A tentativa não significa necessariamente o fim da violência, especialmente quando o agressor continua próximo ou descumpre medidas judiciais.


Stalking cresce mais de 30% no país

Os crimes que frequentemente aparecem antes do feminicídio também cresceram em 2025.

Os registros de perseguição, conhecida como stalking, passaram de 94.836 para 123.871 vítimas. O crescimento foi de 30,1%, o maior entre os principais indicadores de violência contra a mulher analisados pelo Anuário.

Foram aproximadamente 14 ocorrências de perseguição por hora.

Os casos de violência psicológica aumentaram 16,9%, passando de 51.830 para 60.830 registros.

As agressões físicas em contexto de violência doméstica chegaram a 286.270 vítimas, crescimento de 2,6%. Já os registros de ameaças contra mulheres subiram 0,5% e alcançaram 788.531 casos.

Esses crimes não devem ser analisados isoladamente. A ameaça, a perseguição, a violência psicológica e a agressão física podem integrar uma trajetória de escalada que termina em tentativa de feminicídio ou morte.


Violações de medidas protetivas crescem em todos os estados

O Brasil registrou 132.025 casos de descumprimento de medidas protetivas de urgência em 2025. O número é 16,7% maior do que o registrado no ano anterior.

Foram, em média, 362 violações por dia ou 15 a cada hora.

O descumprimento de medida protetiva foi o único indicador analisado pelo Anuário que cresceu em todas as 27 unidades da Federação.

O dado evidencia uma falha grave na proteção oferecida às mulheres que já identificaram o risco, procuraram as autoridades e conseguiram uma decisão judicial para manter o agressor afastado.

Entre os 18 estados que forneceram informações detalhadas, 70 mulheres foram assassinadas mesmo possuindo uma medida protetiva ativa. O número equivale a uma em cada nove vítimas de feminicídio nesses locais.

São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia estão entre os nove estados que não informaram quantas mulheres mortas tinham medidas protetivas em vigor. Juntos, esses quatro estados concentraram mais de 40% dos feminicídios registrados no país.

A ausência dessas informações impede que o poder público avalie com precisão quantas ordens judiciais falharam em impedir uma morte anunciada.


Mortes violentas caem ao menor nível desde 2012

Enquanto os feminicídios aumentaram, o Brasil registrou uma queda expressiva nas mortes violentas intencionais.

Foram 40.775 vítimas em 2025, contra 44.220 em 2024. A redução foi de 8,2%, segundo os dados oficiais do Anuário.

O indicador inclui homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais.

A taxa nacional caiu de 20,8 para 19,1 mortes violentas a cada 100 mil habitantes. Foi a primeira vez que o país ficou abaixo de 20 mortes por 100 mil habitantes desde o início da série histórica.

A redução foi registrada em 20 das 27 unidades federativas. Entre as quedas mais expressivas estão Amazonas, com recuo de 32,5%, Rio Grande do Sul, com 25,7%, e Mato Grosso, com 23,2%.

Desde 2012, a taxa nacional de mortes violentas intencionais acumula redução de 31%.


Brasil antecipa meta de redução de homicídios

Considerando somente os homicídios dolosos, o país contabilizou 32.914 vítimas em 2025, com taxa de 15,4 mortes por 100 mil habitantes.

O número representa uma queda de 10% em relação a 2024 e permite que o Brasil alcance, com dois anos de antecedência, a meta fixada no Plano Nacional de Segurança Pública.

O objetivo estabelecido pelo governo federal era reduzir a taxa para 16 homicídios dolosos por 100 mil habitantes até 2027.

A redução demonstra que políticas públicas e estratégias de segurança podem produzir resultados. Entretanto, o avanço geral não alcançou todas as vítimas da mesma maneira.

Enquanto a taxa de homicídios caiu, os feminicídios cresceram. Isso revela que a diminuição da violência urbana não produz automaticamente uma redução da violência doméstica e de gênero.


Letalidade policial também cresceu

Outro indicador que avançou na contramão da queda geral foi o número de mortes provocadas por policiais.

Em 2025, 6.602 pessoas morreram em intervenções policiais, aumento de 5,4% em relação ao ano anterior. O total é o maior desde o início da série histórica, em 2016.

As mortes decorrentes de intervenção policial representaram 16,2% de todas as mortes violentas intencionais registradas no país.

No sentido contrário, o número de policiais civis e militares mortos caiu de 144 para 139, uma redução de 3,5%.

O suicídio continuou sendo a principal causa de morte entre profissionais da segurança, apesar da redução de 12,7%, de 126 para 110 registros.


Queda geral não alcança mulheres ameaçadas dentro de casa

A redução das mortes violentas é um avanço importante para a segurança pública brasileira. No entanto, o recorde de feminicídios mostra que esse progresso não chegou às mulheres submetidas à violência doméstica.

O país conseguiu reduzir homicídios nas ruas, antecipar metas nacionais e alcançar o menor índice de mortes violentas em 13 anos. Ao mesmo tempo, não conseguiu interromper trajetórias de violência que muitas vezes já eram conhecidas por familiares, vizinhos, policiais, assistentes sociais e pelo sistema de Justiça.

Antes da morte, muitas vítimas foram ameaçadas, perseguidas, agredidas ou submetidas a controle psicológico. Algumas procuraram ajuda e conseguiram medidas protetivas. Ainda assim, foram assassinadas.

O crescimento dos feminicídios não acontece de maneira isolada. Ele é acompanhado pela alta das tentativas de feminicídio, do stalking, da violência psicológica e das violações de ordens judiciais.

A contradição apresentada pelo Anuário é direta: o Brasil se tornou menos letal em termos gerais, mas continuou mais perigoso para mulheres ameaçadas dentro das próprias casas.

Reduzir os feminicídios exige mais do que registrar o crime depois da morte. É necessário identificar os sinais anteriores, garantir atendimento às vítimas, fiscalizar o cumprimento das medidas protetivas e impedir que ameaças e agressões avancem até o desfecho fatal.