Oficializado candidato do Novo à Presidência, ex-governador de Minas promete classificar facções como organizações terroristas, rever regras do Supremo e combater privilégios no setor público
O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema foi oficializado nesta segunda-feira (27) como candidato do Partido Novo à Presidência da República nas eleições de 2026. A confirmação ocorreu durante uma convenção nacional realizada virtualmente e foi seguida por uma entrevista coletiva em Brasília.
Em seu primeiro pronunciamento oficial como candidato, Zema concentrou as críticas no presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Partido dos Trabalhadores e em ministros do Supremo Tribunal Federal. O ex-governador também apresentou a segurança pública como uma das prioridades de sua campanha.
Entre as propostas anunciadas estão a classificação das facções criminosas como organizações terroristas e a construção de um “superpresídio” em uma região remota do país, preferencialmente no meio da Amazônia, para receber lideranças do crime organizado.
A candidatura foi confirmada sem a apresentação de um nome para vice-presidente. Segundo Zema, a escolha será feita até 5 de agosto e deverá atender ao requisito de possuir “ficha limpa”.
Zema diz ser o único candidato que conhece o “Brasil real”
Durante o pronunciamento, Romeu Zema destacou sua trajetória como empresário e afirmou ser o único candidato à Presidência que conhece o chamado “Brasil real”.
O candidato procura apresentar sua experiência no setor privado como um diferencial em relação aos adversários que construíram a maior parte da carreira dentro da política e da administração pública.
Zema defendeu um governo voltado para a redução da burocracia, a criação de um ambiente mais favorável ao empreendedorismo e o corte de privilégios no serviço público. Também citou medidas adotadas durante sua administração em Minas Gerais como exemplos do modelo que pretende levar ao Governo Federal.
Segundo ele, o setor público brasileiro carece de bons exemplos e precisa adotar práticas de gestão mais eficientes. A campanha deverá explorar sua imagem como empresário e ex-governador para defender uma administração baseada em metas, redução de despesas e liberdade econômica.
“Ninguém aguenta mais quatro anos de Lula e de PT”, declarou Zema ao criticar a continuidade do atual grupo político no poder.
Candidato concentra críticas em Lula e no PT
A oficialização da candidatura confirmou a estratégia do Novo de apresentar Zema como uma alternativa ao Governo Lula e à polarização nacional.
O ex-governador criticou a administração petista e associou o partido a casos de corrupção, à manutenção de privilégios e ao aumento da participação do Estado na economia.
Zema afirmou que pretende combater a corrupção sem favorecer parentes, aliados ou grupos políticos. Também prometeu acabar com aquilo que classificou como “farra dos intocáveis”, expressão utilizada em referência a autoridades que, segundo ele, não seriam responsabilizadas por suas decisões.
Apesar do tom duro contra Lula e o PT, o candidato evitou fazer ataques diretos ao senador Flávio Bolsonaro, oficializado pelo PL como candidato presidencial no sábado (25).
A postura foi diferente daquela adotada nos últimos meses, quando Zema aumentou as críticas ao senador após as revelações sobre sua proximidade com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Flávio Bolsonaro é poupado no primeiro discurso
Ao evitar um confronto direto com Flávio, Zema preserva possibilidades políticas dentro do campo da direita, mas também enfrenta o desafio de se diferenciar do candidato apoiado por Jair Bolsonaro.
Flávio aparece na segunda colocação nas principais pesquisas eleitorais, atrás de Lula, enquanto candidatos como Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos disputam espaço entre os eleitores que rejeitam os dois principais grupos políticos.
Nos últimos meses, Zema buscou se posicionar como uma alternativa de direita independente do bolsonarismo. Entretanto, seu primeiro discurso depois da convenção concentrou-se no PT, no STF e no crime organizado.
O movimento poderá facilitar futuras negociações eleitorais, especialmente em um eventual segundo turno. Ao mesmo tempo, o candidato precisará explicar aos eleitores por que sua proposta seria diferente daquela apresentada por Flávio Bolsonaro.
A definição do vice e a formação de alianças também poderão indicar se o Novo pretende manter uma candidatura própria até o fim ou negociar uma aproximação com outros partidos de direita.
Novo ainda não escolheu candidato a vice
Romeu Zema foi oficializado sem um candidato a vice-presidente. Segundo ele, o nome será divulgado dentro do prazo legal, até 5 de agosto.
O ex-governador afirmou que a principal exigência será a existência de uma trajetória sem condenações ou envolvimento em irregularidades.
“Uma coisa nós teremos como pré-requisito: uma pessoa com a ficha limpa, para que nós possamos levar adiante essa nossa proposta de nunca nos calarmos ou cedermos a qualquer pressão”, declarou.
A escolha poderá ser utilizada para ampliar o alcance eleitoral da chapa. Um nome de outro estado, com experiência política ou capacidade de aproximação com setores ainda distantes do Novo, poderia complementar o perfil de Zema.
O partido também terá de considerar a representação regional e a possibilidade de atrair diferentes segmentos do eleitorado. Zema construiu sua principal base política em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, mas precisará ampliar sua presença nas demais regiões.
Zema aumenta o tom contra ministros do STF
As críticas ao Supremo Tribunal Federal ocuparam uma parte relevante do pronunciamento. Zema afirmou que o setor público brasileiro oferece exemplos negativos e classificou como “aberrações” determinados acontecimentos envolvendo a Corte.
O candidato tem elevado o tom contra ministros do STF desde que passou a relacionar integrantes do tribunal ao caso envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master.
Zema também mencionou ser alvo de um processo movido pelo ministro Gilmar Mendes. Nas redes sociais, o ex-governador publicou conteúdos questionando a atuação do tribunal e apresentou o ex-ministro Joaquim Barbosa como o “oposto” dos atuais integrantes da Corte.
A campanha do Novo deverá manter a reforma do STF entre suas principais bandeiras. O partido tenta aproveitar a insatisfação de parte da população com decisões judiciais para defender mudanças nos critérios de escolha e na atuação dos ministros.
Candidato propõe idade mínima para ministros do Supremo
Entre as mudanças defendidas por Zema está a criação de uma idade mínima de 60 anos para a nomeação de ministros do STF.
Atualmente, os integrantes da Corte são indicados pelo presidente da República e precisam ter entre 35 e 70 anos. O nome escolhido passa por uma sabatina e necessita da aprovação do Senado Federal.
Zema propôs que as indicações sejam realizadas a partir de uma lista tríplice. O objetivo, segundo ele, seria reduzir a influência direta do presidente da República sobre a composição do tribunal.
O candidato também defendeu o fim das decisões monocráticas, tomadas individualmente por ministros. A proposta pretende limitar situações nas quais um único integrante da Corte suspende leis, decisões governamentais ou atos aprovados por outros Poderes.
Para Zema, a chegada ao Supremo deveria representar o encerramento de uma carreira jurídica ou acadêmica longa. O ex-governador comparou a função à escolha de um papa e argumentou que a idade mínima limitaria a permanência dos ministros a aproximadamente 15 anos.
Uma alteração dessa dimensão dependeria da aprovação de uma proposta de emenda à Constituição pelo Congresso Nacional.
“Superpresídio” na Amazônia é principal proposta de segurança
Na área da segurança pública, Zema defendeu a construção de um “superpresídio” em uma área remota, preferencialmente no meio da Amazônia.
A unidade seria destinada às principais lideranças das facções criminosas. Segundo o candidato, o isolamento dificultaria o contato com integrantes das organizações que permanecem em liberdade e reduziria a capacidade de os presos continuarem comandando crimes de dentro das penitenciárias.
Zema afirmou que os líderes do crime organizado deveriam permanecer presos por longos períodos e declarou que eles “vão mofar por pelo menos 25 anos”.
O ex-governador utilizou a expressão “prisão em massa” ao defender uma ação mais rígida contra organizações criminosas. Segundo ele, existem regiões brasileiras nas quais o Estado perdeu espaço para as facções, situação que representaria uma ameaça à soberania nacional.
A proposta deverá provocar discussões sobre custos, logística, impactos ambientais, condições carcerárias e respeito aos direitos previstos pela Constituição.
A transferência de presos para uma região distante também poderia dificultar o acesso de familiares, advogados, defensores públicos e representantes do Poder Judiciário.
Facções seriam classificadas como organizações terroristas
Zema também prometeu trabalhar para que facções criminosas sejam classificadas legalmente como organizações terroristas.
Segundo o candidato, o Brasil deveria ter adotado essa medida há mais tempo, especialmente diante da capacidade financeira, territorial e operacional alcançada por alguns grupos.
A classificação poderia ampliar os instrumentos utilizados pelas forças de segurança e endurecer as punições aplicadas aos integrantes das organizações. Entretanto, a medida exigiria mudanças na legislação e enfrentaria debates jurídicos sobre a diferença entre terrorismo e criminalidade organizada.
Atualmente, a legislação brasileira considera terrorismo a prática de atos motivados por razões específicas, como xenofobia, discriminação ou preconceito, com o objetivo de provocar terror social ou generalizado.
A inclusão das facções nessa categoria precisaria estabelecer critérios claros para evitar interpretações excessivamente amplas e garantir a segurança jurídica.
Soberania nacional é associada ao combate ao crime
No discurso, Zema associou o combate às facções à retomada da soberania brasileira. Segundo ele, a presença de organizações criminosas em determinadas comunidades e regiões demonstra uma redução da autoridade do Estado.
O candidato argumentou que nenhum grupo pode controlar territórios, impor regras próprias ou impedir a atuação das forças públicas.
A campanha deverá utilizar esse discurso para aproximar os temas da segurança pública e da defesa nacional. A estratégia também busca alcançar eleitores preocupados com o avanço do narcotráfico, o controle territorial das facções e os crimes violentos.
Zema prometeu uma atuação mais rígida das forças de segurança, penas prolongadas para as lideranças e isolamento dos responsáveis por comandar as organizações.
Banco Master e fraudes no INSS aparecem no discurso
Romeu Zema também mencionou autoridades e políticos relacionados às investigações sobre o Banco Master e aos descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social.
O Banco Master foi liquidado e passou a ser investigado como possível núcleo de um esquema bilionário de fraudes financeiras. Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição, tornou-se um dos principais personagens do caso.
Zema tenta utilizar as investigações para reforçar seu discurso contra corrupção, favorecimentos e relações entre poder político e interesses financeiros.
O candidato também mencionou o caso dos descontos indevidos do INSS para atingir o Governo Federal e defender uma fiscalização mais rígida sobre entidades e autoridades envolvidas.
As investigações deverão permanecer presentes na campanha eleitoral, especialmente porque atingem ou mencionam figuras associadas a diferentes grupos políticos.
Novo tenta ampliar espaço na corrida presidencial
A candidatura de Zema entra em uma disputa já marcada pela liderança de Lula e Flávio Bolsonaro.
Além dos dois primeiros colocados, o cenário inclui Ronaldo Caiado, oficializado pelo PSD, e Renan Santos, candidato do Partido Missão. Outros nomes ainda deverão concluir suas convenções e apresentar as respectivas chapas.
Zema tentará ocupar o espaço de uma direita liberal na economia, conservadora na segurança e crítica tanto ao PT quanto ao funcionamento atual do STF.
Sua trajetória como governador de Minas Gerais deverá ser utilizada para demonstrar capacidade administrativa. O desafio será transformar o reconhecimento conquistado no estado em uma candidatura nacional competitiva.
A decisão de não atacar diretamente Flávio no primeiro pronunciamento indica que o candidato pretende concentrar esforços contra Lula e o PT. Entretanto, para chegar ao segundo turno, Zema também precisará retirar votos do próprio campo político ocupado pelo bolsonarismo.
Com propostas de reforma do Supremo, redução dos privilégios públicos e endurecimento das medidas contra as facções, Romeu Zema inicia oficialmente sua campanha tentando apresentar-se como representante do “Brasil real” e alternativa à polarização eleitoral.
