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Xi Jinping e Putin discutem guerra na Ucrânia durante cúpula que busca ampliar influência asiática

Encontro no Quirguistão reúne líderes de China, Rússia, Índia e Irã em meio aos esforços de Pequim e Moscou para fortalecer uma ordem internacional menos dependente dos Estados Unidos


O presidente da China, Xi Jinping, reuniu-se nesta segunda-feira (31) com o líder russo, Vladimir Putin, durante a cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, realizada em Bishkek, capital do Quirguistão.

De acordo com o Kremlin, os dois presidentes conversaram sobre a guerra na Ucrânia, mas o conflito não foi o assunto central da reunião. O governo russo não apresentou detalhes sobre os outros temas discutidos.

Xi e Putin chegaram à capital quirguistanesa no domingo (30). O encontro ocorre em um momento no qual China e Rússia procuram ampliar a influência da organização e apresentá-la como uma alternativa a instituições internacionais tradicionalmente associadas aos Estados Unidos e às potências ocidentais.

A cúpula também conta com as presenças do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e do presidente do Irã, Masoud Pezeshkian. Uma reunião bilateral entre Putin e o líder iraniano está prevista para terça-feira (1º).

Apesar da presença de países que mantêm relações tensas com Washington, a Organização de Cooperação de Xangai não funciona como um bloco político ou militar unificado. Seus integrantes possuem interesses próprios e divergências em temas econômicos, territoriais e diplomáticos.


Xi e Putin abordaram guerra na Ucrânia

A guerra na Ucrânia fez parte da reunião entre Xi Jinping e Vladimir Putin, segundo informações divulgadas pelo Kremlin. O governo russo, entretanto, afirmou que esse não foi o principal assunto da conversa.

China e Rússia estreitaram suas relações políticas e econômicas nos últimos anos. A aproximação ganhou força após o início do conflito na Ucrânia e o aumento das sanções ocidentais contra Moscou.

Pequim não rompeu relações com o Kremlin e ampliou os contatos comerciais com a Rússia. O governo chinês afirma manter uma posição neutra sobre a guerra e defende uma solução negociada.

Países ocidentais, contudo, acusam empresas e instituições chinesas de fornecer conhecimento, componentes e equipamentos que poderiam contribuir para a capacidade militar russa. A China rejeita as acusações de apoio direto à ofensiva e sustenta que mantém relações comerciais regulares com Moscou.

O encontro em Bishkek oferece aos dois líderes uma nova oportunidade para demonstrar proximidade política e coordenar posições sobre assuntos internacionais.


China tenta ampliar influência da Organização de Xangai

Ao lado da Rússia, a China procura transformar a Organização de Cooperação de Xangai em uma plataforma de maior alcance internacional.

Pequim apresenta o grupo como uma alternativa para países que defendem um sistema global menos concentrado nas instituições lideradas pelos Estados Unidos e por seus aliados.

O governo chinês tem oferecido programas de assistência, financiamento e cooperação para aumentar a influência da organização, principalmente na Ásia Central. A região ocupa uma posição estratégica entre a China, a Rússia, o Oriente Médio e a Europa.

Na semana anterior à cúpula, o Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que a OCX encontrou um novo caminho para a cooperação regional. Para Pequim, o grupo pode desempenhar um papel maior em áreas como comércio, energia, infraestrutura e segurança.

A ampliação da organização também faz parte da política externa de Xi Jinping, que busca fortalecer instituições nas quais a China possui maior capacidade de definir prioridades e influenciar decisões.


Rússia busca apoio diplomático diante do isolamento ocidental

Para Vladimir Putin, a cúpula representa uma oportunidade de demonstrar que a Rússia continua integrada a importantes articulações internacionais, apesar das sanções e do isolamento promovido por países ocidentais por causa da guerra na Ucrânia.

Moscou procura ampliar relações com países da Ásia, África, América Latina e Oriente Médio. A parceria com a China tornou-se um dos principais elementos dessa estratégia.

A Organização de Cooperação de Xangai oferece à Rússia um espaço diplomático no qual os Estados Unidos e países da União Europeia não participam das decisões.

A presença de líderes como Xi Jinping, Narendra Modi e Masoud Pezeshkian também permite que Putin realize encontros bilaterais e discuta acordos econômicos, energéticos e políticos.

A Rússia procura novos mercados para seus produtos e alternativas para reduzir os efeitos das sanções impostas por governos ocidentais.


Índia participa apesar das divergências com China e Paquistão

A presença de Narendra Modi mostra a diversidade política da Organização de Cooperação de Xangai. A Índia mantém relações estratégicas com os Estados Unidos, mas também participa de fóruns nos quais China e Rússia exercem grande influência.

Nova Délhi procura preservar sua autonomia diplomática e evita um alinhamento exclusivo com qualquer uma das grandes potências.

A Índia possui uma relação histórica com a Rússia, especialmente nas áreas de defesa e energia. Ao mesmo tempo, ampliou a cooperação com os Estados Unidos diante do crescimento da presença chinesa na região do Indo-Pacífico.

Também existem divergências entre Índia e China relacionadas às fronteiras e à competição regional. A participação do Paquistão na organização acrescenta outra fonte de tensão, devido às disputas históricas entre Islamabad e Nova Délhi.

Essas diferenças demonstram que a OCX não possui uma posição única sobre os principais temas internacionais.


Irã amplia presença em fóruns fora do eixo ocidental

O presidente iraniano Masoud Pezeshkian também participa da cúpula em Bishkek. O Irã integra a organização em meio aos esforços para fortalecer relações econômicas e diplomáticas com China, Rússia e países da Ásia Central.

Teerã enfrenta sanções internacionais e mantém uma relação marcada por tensões com os Estados Unidos. A participação na OCX permite ao governo iraniano buscar parceiros comerciais e ampliar sua presença em fóruns que não são liderados pelo Ocidente.

Putin e Pezeshkian devem realizar uma reunião bilateral na terça-feira. O encontro poderá abordar cooperação econômica, energia, segurança regional e os conflitos no Oriente Médio.

Rússia e Irã aprofundaram sua relação nos últimos anos. Os dois países são alvo de sanções ocidentais e procuram desenvolver mecanismos alternativos para operações financeiras e comércio internacional.


Cúpula reúne encontros bilaterais em Bishkek

Além das reuniões principais da Organização de Cooperação de Xangai, os líderes aproveitam o evento para realizar conversas bilaterais.

O presidente do Quirguistão, Sadyr Japarov, reuniu-se nesta segunda-feira com o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres.

Como anfitrião, o Quirguistão procura utilizar a cúpula para ampliar sua projeção diplomática. O país faz fronteira com a China e mantém vínculos históricos, econômicos e de segurança com a Rússia.

A Ásia Central ocupa uma posição estratégica para projetos de infraestrutura e transporte. A região também possui reservas de energia e minerais que despertam o interesse de diferentes potências.

Para a China, os países centro-asiáticos são importantes para as rotas comerciais que conectam o território chinês à Europa. Para a Rússia, a região integra sua área histórica de influência.


O que é a Organização de Cooperação de Xangai?

A Organização de Cooperação de Xangai foi criada em 2001 pela China, Rússia e quatro países da Ásia Central. Inicialmente, o grupo tinha como principal objetivo promover a cooperação em segurança.

Ao longo de aproximadamente 25 anos, a organização ampliou o número de integrantes e passou a tratar também de comércio, infraestrutura, energia e relações diplomáticas.

Atualmente, a OCX possui dez países-membros: China, Rússia, Índia, Irã, Belarus, Paquistão, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão.

A expansão aumentou o peso demográfico e territorial da organização. O grupo reúne algumas das maiores populações do mundo, importantes produtores de energia e potências nucleares.

Apesar do crescimento, seus objetivos e programas ainda são considerados pouco definidos. A organização também possui reconhecimento internacional inferior ao de instituições como o G7, a Otan e a União Europeia.


OCX é uma aliança militar?

A Organização de Cooperação de Xangai não é uma aliança militar equivalente à Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan.

O grupo realiza exercícios conjuntos e mantém projetos de cooperação em segurança, especialmente no combate ao terrorismo, ao separatismo e ao extremismo. No entanto, não existe um compromisso semelhante ao da Otan, no qual um ataque contra um integrante pode ser tratado como uma agressão contra todos.

Os membros da OCX também não seguem uma política externa única. Índia e China, por exemplo, possuem disputas fronteiriças, enquanto Índia e Paquistão mantêm uma relação historicamente marcada por conflitos.

As diferenças dificultam a transformação da organização em um bloco político ou militar plenamente coordenado.


Organização é vista como contraponto aos Estados Unidos

China e Rússia utilizam a OCX para defender uma ordem internacional com maior participação de potências fora do eixo ocidental.

Esse projeto envolve críticas à concentração de poder dos Estados Unidos e de seus aliados em instituições financeiras, militares e diplomáticas.

A classificação da cúpula como “anti-EUA” ou “anti-Ocidente”, porém, não representa necessariamente a posição de todos os integrantes. A Índia, por exemplo, mantém cooperação crescente com Washington e participa de outras articulações destinadas a limitar o avanço chinês na Ásia.

A organização funciona principalmente como um espaço no qual países com interesses diferentes podem negociar sem a presença direta das potências ocidentais.

Para Pequim e Moscou, essa característica ajuda a demonstrar que existem centros alternativos de poder. Para os demais integrantes, o grupo oferece oportunidades de financiamento, comércio, segurança e maior margem de negociação com diferentes parceiros.


Cúpula reforça aproximação entre China e Rússia

O encontro em Bishkek reforça a parceria estratégica entre Xi Jinping e Vladimir Putin em um período de disputa crescente pela influência global.

China e Rússia compartilham críticas à liderança dos Estados Unidos no sistema internacional, mas mantêm objetivos próprios. Pequim busca ampliar seu peso econômico e diplomático, enquanto Moscou procura reduzir os efeitos do isolamento provocado pela guerra na Ucrânia.

A presença de Índia e Irã amplia a relevância política da cúpula, mas também evidencia as diferenças internas da OCX.

As reuniões realizadas no Quirguistão deverão produzir novas declarações de cooperação. O impacto prático dependerá da capacidade dos países-membros de superar divergências e transformar compromissos diplomáticos em projetos concretos.