Festival reuniu 700 mil pessoas durante sete dias e terminou marcado por apresentações históricas, decepções, muita chuva e a estreia do Stray Kids como atração principal do Palco Mundo.
O Rock in Rio 2026 chegou ao fim no domingo, 13 de setembro, depois de sete dias de apresentações na Cidade do Rock. Marcada pela diversidade musical, a edição reuniu veteranos do rock, ícones da música brasileira, estrelas do pop e alguns dos maiores representantes do k-pop mundial.
De acordo com a organização, aproximadamente 700 mil pessoas passaram pelo festival, que recebeu 1,3 mil artistas em 190 shows distribuídos por sete palcos. O encerramento ficou sob a responsabilidade do Twenty One Pilots, que apresentou um espetáculo enérgico depois das passagens de Zara Larsson e Ivete Sangalo.
Entre os momentos mais importantes estiveram o retorno de Elton John aos grandes palcos, a estreia do Stray Kids como primeiro grupo de k-pop a ocupar o posto de headliner do Palco Mundo e a celebração da música brasileira em encontros como Roupa Nova com Guilherme Arantes e Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago.
A edição também teve apresentações consideradas abaixo das expectativas. MGK, Maroon 5, Luísa Sonza e Calvin Harris apareceram entre as principais decepções do festival, seja pela dificuldade de conexão com o público, pela repetição de fórmulas ou pela falta de uma proposta mais coerente no palco.
Elton John protagonizou o grande momento do festival
Aos 79 anos e aposentado das grandes turnês, Elton John entregou a apresentação mais celebrada do Rock in Rio 2026. Durante mais de duas horas, o cantor britânico mostrou disposição, domínio vocal e a habilidade ao piano que marcou décadas de carreira.
O repertório reuniu músicas que atravessaram gerações, incluindo “Saturday Night’s Alright for Fighting”, “Sacrifice”, “Rocket Man” e “Crocodile Rock”. Nesta última, Elton conduziu o público em um coro acompanhado por palmas, criando uma das cenas destinadas a permanecer na história do festival.
O artista já havia anunciado sua despedida das grandes turnês, mas voltou a um evento desse porte para sua terceira apresentação no Rock in Rio. Mesmo depois de décadas de carreira, demonstrou que seus principais sucessos continuam capazes de mobilizar uma multidão.
A apresentação também mostrou que o impacto de um show não depende somente de efeitos especiais. Sentado ao piano e acompanhado por sua banda, Elton John sustentou o espetáculo com repertório, interpretação e presença de palco.
Stray Kids levou o k-pop ao posto de atração principal
A segunda sexta-feira do festival entrou para a história do Rock in Rio. Pela primeira vez, um representante do k-pop ocupou o posto de headliner do Palco Mundo, posição entregue ao Stray Kids.
Bang Chan, Lee Know, Changbin, Hyunjin, Han, Felix, Seungmin e I.N encontraram uma Cidade do Rock tomada por fãs com lightsticks, cartazes e músicas decoradas até mesmo nas partes cantadas em coreano. A dimensão do público surpreendeu os integrantes, que afirmaram não conseguir enxergar onde a multidão terminava.
O espetáculo combinou coreografias sincronizadas, rap, vocais, interação com a plateia e um uso eficiente do gigantesco telão do Palco Mundo. O repertório passou por músicas como “MANIAC”, “Chk Chk Boom”, “God’s Menu”, “DIVINE”, “RUN IT”, “This & That” e “Stray Kids”, considerada uma espécie de hino do grupo.
O encerramento com “Hall of Fame” transformou a apresentação em uma grande celebração da trajetória dos oito integrantes. Bang Chan ainda arriscou frases em português, cantou um trecho de “Ai Se Eu Te Pego”, de Michel Teló, e, diante do calor do Rio de Janeiro, tirou a camiseta no palco.
Durante o show, o grupo reforçou os pedidos para que os fãs bebessem água, evitassem empurrões e ajudassem as pessoas ao redor. Antes da apresentação de Hwasa, a própria produção do festival já havia orientado o público a se afastar da grade por causa da concentração de pessoas nas primeiras filas.
A escolha do Stray Kids mostrou-se coerente com o crescimento do grupo no Brasil. Em sua passagem anterior pelo país durante a turnê mundial, o octeto reuniu grandes públicos no Estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro, e no MorumBIS, em São Paulo.

NEXZ abriu o dia com energia e conquistou novos fãs
O NEXZ ficou responsável por abrir a programação de k-pop e aproveitou a oportunidade para apresentar sua identidade a um público muito maior. Uma das apostas mais jovens da JYP, o grupo entregou uma apresentação vibrante, marcada por dança, rap, coreografias precisas e músicas de refrões fáceis de acompanhar.
Os integrantes arriscaram frases em português e não esconderam a felicidade com a recepção brasileira. O líder Tomoya ganhou atenção especial do público e ficou conhecido durante o show como o “cara da camisa verde”.
O repertório incluiu músicas como “Beat-Boxer”, “Loco” e “MMCHK”, além de “Saucin”, apresentada três vezes durante a passagem do grupo pelo palco. Mesmo com a repetição, o público manteve o entusiasmo e cantou a música em todas as execuções.
A apresentação revelou um grupo ainda no começo da carreira, mas preparado para aproveitar um evento de grandes proporções. A jovialidade dos integrantes, o carisma e a execução das coreografias ajudaram o NEXZ a conquistar uma base ainda maior de fãs no Brasil.
A ligação com o Stray Kids também proporcionou momentos especiais. Pelo menos quatro integrantes do NEXZ foram vistos acompanhando a apresentação dos artistas mais experientes da JYP.
Felix desceu do palco e cumprimentou Tomoya e Seita na área reservada à equipe. Em outro momento, Hyunjin foi até Haru, que também acompanhava a performance.
Mais do que uma simples presença na plateia, as cenas simbolizaram uma geração jovem prestigiando e aprendendo com um grupo que percorreu o mesmo sistema de treinamento e alcançou o posto mais importante do maior festival brasileiro.

Hwasa entregou presença de palco e carinho pelo Brasil
Entre NEXZ e Stray Kids, Hwasa mostrou por que se tornou um dos nomes mais reconhecidos de sua geração no k-pop. A cantora levou ao festival um espetáculo performático, seguro e marcado por uma relação intensa com o público.
A artista dançou com a bandeira brasileira, aproximou-se dos fãs e chegou a se jogar nos braços da plateia. A apresentação combinou sensualidade, domínio de palco, espontaneidade e experiência.
Hwasa também reforçou a pluralidade do k-pop apresentado no festival. Enquanto o NEXZ representou uma nova geração em busca de espaço e o Stray Kids apareceu como fenômeno global consolidado, ela ocupou o palco como solista experiente e dona de uma identidade artística própria.
Jamiroquai provou que permanece atual
Mesmo diante de um público menor do que o registrado nas apresentações de k-pop, o Jamiroquai realizou um dos melhores shows da edição. A banda levou seu acid jazz ao Palco Sunset e encontrou espaço tanto entre espectadores mais velhos quanto entre jovens que aguardavam o Stray Kids.
Com um groove preciso e Jay Kay em ótima forma, o grupo demonstrou que seu repertório permanece relevante. A performance ganhou força pela qualidade instrumental e pela naturalidade com que a banda ocupou o palco, sem depender de grandes efeitos para conquistar a plateia.
O contraste entre Jamiroquai e as atrações de k-pop mostrou a capacidade do Rock in Rio de aproximar públicos diferentes dentro de uma mesma programação.
Roupa Nova e Guilherme Arantes conduziram celebração de sucessos
Responsável pela gravação do tema oficial do Rock in Rio, o Roupa Nova retornou ao festival pela segunda vez e construiu o show com músicas que marcaram diferentes gerações.
Canções como “Dona” e “A Viagem” foram acompanhadas pelo público, enquanto a participação de Guilherme Arantes proporcionou um dos encontros mais afetivos do evento.
Em sua estreia no festival, Guilherme Arantes apresentou “Cheia de Charme” e “Lindo Balão Azul”. A união de dois repertórios conhecidos transformou o espetáculo em uma sequência de memórias da música popular brasileira.
A recepção também representou uma consagração tardia para Guilherme Arantes, cuja trajetória justificava há anos uma participação no Rock in Rio.
Jon Batiste apostou no improviso e na música brasileira
Jon Batiste apresentou um espetáculo imprevisível e sustentado por seu domínio de diferentes instrumentos. Sem se limitar a um roteiro rígido, o artista transitou entre soul, jazz e referências brasileiras.
O músico tocou “Mas Que Nada” e “Chega de Saudade” e convidou a bailarina carioca Ingrid Silva para participar do show. A apresentação confirmou sua capacidade de dialogar com diferentes estilos e públicos.
Batiste também enfrentou a responsabilidade de subir ao Palco Mundo antes de Gilberto Gil e Elton John. Ainda assim, entregou um dos espetáculos mais seguros e musicalmente sofisticados da edição.
Demi Lovato mostrou força vocal e merecia maior destaque
Demi Lovato reuniu uma das maiores multidões do Rock in Rio 2026 e apresentou um show construído para marcar sua volta ao pop depois de um período de maior aproximação com o rock.
A cantora convidou Pabllo Vittar para dividir os vocais de “Cool for the Summer” e reafirmou sua capacidade vocal. Com um repertório bem organizado e ótima resposta do público, Demi demonstrou condições para ocupar o posto de headliner de sua noite, entregue ao Maroon 5.
A diferença entre a energia de sua apresentação e a previsibilidade da atração principal ampliou a percepção de que a cantora poderia ter recebido uma posição superior na programação.
Péricles transformou clássicos da Motown em grande espetáculo
Péricles levou ao Palco Sunset uma homenagem à Motown, gravadora norte-americana fundamental para a consolidação da música negra no mercado internacional.
O repertório passou por “I’ll Be There” e “ABC”, do Jackson 5, “How Sweet It Is”, de Marvin Gaye, e “For Once in My Life”, de Stevie Wonder.
Com experiência vocal e capacidade para adaptar as músicas ao próprio registro, o cantor brasileiro tratou os clássicos com respeito sem abandonar sua identidade. O resultado foi um espetáculo que poderia ganhar continuidade fora do festival e se transformar em uma turnê própria.
Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago celebraram a música afro-lusófona
Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago abriram um dos dias do festival diante de um público reduzido, mas entregaram uma das apresentações musicalmente mais interessantes da edição.
O show foi baseado no álbum gravado em conjunto pelos três artistas e misturou jazz, rap e ritmos afro-lusófonos. O piano de Amaro Freitas dialogou com os versos de Criolo e Dino D’Santiago em uma apresentação que valorizou criatividade e experimentação.
O trio também interpretou “Pérola Negra”, de Luiz Melodia, e “Oceano”, de Djavan. O momento mais conhecido do repertório próprio de Criolo veio com “Não Existe Amor em SP”, recebida com entusiasmo pela plateia.
Black Eyed Peas reviveu o clima dos anos 2000
A ausência de Fergie ainda provoca comparações, mas o Black Eyed Peas conseguiu manter o público envolvido com uma sequência de grandes sucessos.
Will.i.am, apl.de.ap e Taboo comandaram a apresentação ao lado de J. Rey Soul, bem recebida pelos fãs. O espetáculo contou ainda com a participação de Papatinho e uma homenagem a Sergio Mendes.
A familiaridade das músicas e as referências ao Brasil ajudaram a criar uma festa com clima dos anos 2000. Mesmo distante de sua formação mais conhecida, o grupo demonstrou que continua sabendo conduzir apresentações para grandes públicos.
Ivete Sangalo confirmou sua força mesmo debaixo de chuva
Em sua vigésima apresentação no festival, Ivete Sangalo voltou a mostrar por que permanece como uma escolha frequente para o Rock in Rio.
A cantora apostou em um espetáculo inspirado por suas origens espanholas e pela sonoridade latina presente em diferentes momentos da carreira. Mesmo sem grandes novidades no repertório, manteve a plateia envolvida durante uma chuva forte.
A capacidade de estabelecer comunicação imediata com o público compensou a falta de surpresas. Ivete foi recebida com entusiasmo e encerrou sua participação mais uma vez como uma das artistas brasileiras mais confiáveis para grandes festivais.
MGK ficou deslocado na programação dedicada ao metal
MGK, também conhecido como Machine Gun Kelly, apareceu como uma das principais decepções do festival. Escalado para o Palco Mundo no dia do metal, o cantor teve dificuldades para criar uma conexão com a plateia.
O repertório mais próximo do pop punk não foi suficiente para conquistar o público. O artista chegou a reconhecer a resistência ao afirmar que amava os espectadores mesmo que o sentimento não fosse recíproco.
A comparação com o Bring Me The Horizon tornou a diferença ainda mais evidente. Logo depois, a banda britânica apresentou um espetáculo muito mais intenso e compatível com a proposta da noite.
Maroon 5 repetiu uma fórmula já conhecida
O Maroon 5 voltou ao Rock in Rio com seus principais sucessos e a presença carismática de Adam Levine, mas apresentou poucas novidades em relação a outras passagens pelo Brasil.
A repetição do formato tornou o show previsível, mesmo com a recepção positiva dos fãs. Um dos melhores momentos ocorreu quando o tecladista PJ Morton assumiu os vocais e o piano na primeira parte de “Heavy”, reforçando a influência de soul e R&B no som da banda.
O grupo continua reunindo repertório suficiente para agradar multidões, mas precisa renovar a forma como leva essas músicas ao palco.
Luísa Sonza apresentou espetáculo sem unidade
Luísa Sonza tentou reunir diferentes etapas e influências de sua carreira, passando pela bossa nova, pelo pop e pelo funk. A diversidade, no entanto, não encontrou uma ligação suficientemente clara no palco.
A cantora tem liberdade e capacidade para explorar vários estilos, mas a sucessão de propostas fez a apresentação parecer desconexa. Em vez de revelar versatilidade, as mudanças constantes dificultaram a construção de uma identidade para o espetáculo.
As críticas provocaram reações da equipe da artista nas redes sociais. Ainda assim, o show evidenciou a necessidade de uma direção mais coesa para futuras apresentações em eventos do mesmo porte.
Calvin Harris apostou nos sucessos, mas evitou riscos
Calvin Harris levou ao Palco Mundo uma sequência de músicas reconhecidas internacionalmente e criou uma grande festa eletrônica. O problema apareceu na comparação com Alok.
Embora o escocês tenha mais sucessos globais, o brasileiro apresentou um espetáculo visualmente mais ambicioso. Alok utilizou o telão para construir um universo próprio, incluindo uma nave espacial que parecia flutuar sobre o palco.
Enquanto Calvin Harris permaneceu em uma estrutura confortável e previsível, Alok assumiu mais riscos e ofereceu uma experiência visual mais completa.
Chuva criou dificuldades dentro e fora dos palcos
A chuva foi um dos maiores desafios do Rock in Rio 2026. O temporal ganhou intensidade especialmente no dia de Calvin Harris e deixou grandes poças na Cidade do Rock.
O problema continuou afetando a circulação do público em outros dias, inclusive nas apresentações de Elton John e do encerramento do festival. Áreas internas e espaços próximos aos camarins também registraram acúmulos de água.
A vice-presidente executiva do evento, Roberta Medina, afirmou que a chuva acabou alterando a maneira como parte do público acompanhou os shows. Com receio de molhar os celulares, muitos espectadores teriam guardado os aparelhos e interagido mais com as atrações.
Ao comentar as condições do terreno, ela comparou a situação com o primeiro Rock in Rio, realizado em 1985, quando a área do festival ficou tomada pela lama.
Apesar dos transtornos, a chuva não impediu a realização das principais apresentações. A próxima edição do Rock in Rio já está confirmada para setembro de 2028.
Editorial | O dia em que o Rock in Rio virou um pedaço de Seul
A segunda sexta-feira do Rock in Rio 2026 mostrou que os organizadores entenderam uma questão fundamental para a continuidade do festival: manter a relevância exige dialogar com um público extremamente jovem.
A escolha do k-pop não pareceu uma tentativa aleatória de acompanhar uma tendência. Foi o reconhecimento de que o gênero já movimenta multidões no Brasil e possui fãs capazes de cantar músicas completas mesmo sem dominar o idioma coreano.
O NEXZ abriu o dia com a responsabilidade de se apresentar diante de um público que, em grande parte, aguardava o Stray Kids. Em vez de funcionar apenas como aquecimento, o grupo transformou a oportunidade em uma apresentação vibrante.
Tomoya e os demais integrantes arriscaram o português, dançaram, cantaram, fizeram rap e demonstraram uma felicidade impossível de esconder. O grupo trouxe exatamente aquilo que se espera de artistas jovens em um palco dessa dimensão: energia, beleza, carisma e vontade de conquistar cada pessoa presente.
Mesmo com “Saucin’” apresentada três vezes, a plateia respondeu com entusiasmo em todas elas. “Beat-Boxer”, “Loco” e “MMCHK” também ajudaram a mostrar um repertório com potencial para conquistar uma base ainda maior no Brasil.
O NEXZ pode ser visto como o irmão mais novo do Stray Kids dentro da JYP. Essa relação ganhou forma quando integrantes do grupo foram vistos acompanhando a apresentação de seus “hyungs”. Felix desceu do palco e cumprimentou Tomoya e Seita na área reservada, enquanto Hyunjin encontrou Haru em outro momento.
Foram cenas bonitas porque mostraram artistas jovens prestigiando e aprendendo com quem percorreu antes o mesmo caminho. Não era somente um grupo assistindo a outro. Era uma geração observando de perto aquilo que também sonha alcançar.
Na sequência, Hwasa mostrou por que já pode ser chamada de lenda. Seu show teve força, sensualidade, domínio de palco e uma relação muito sincera com o público brasileiro. Ela dançou com a bandeira do Brasil e se jogou nos braços dos fãs, entregando uma performance que misturou experiência e jovialidade.
Então veio o momento mais esperado.
O Stray Kids não decepcionou. O grupo apresentou suas principais músicas em versões preparadas para festivais, com arranjos mais intensos e uma presença capaz de preencher o enorme Palco Mundo.
Bang Chan se arriscou no português, demonstrou carisma e ainda cantou “Ai Se Eu Te Pego”, de Michel Teló. O público respondeu cantando tudo, inclusive os versos em coreano.
“MANIAC”, “Chk Chk Boom”, “God’s Menu”, “DIVINE”, “RUN IT”, “This & That” e “Stray Kids” construíram uma sequência que explicava por que o grupo havia sido escolhido como headliner. No encerramento com “Hall of Fame”, Bang Chan sentiu o calor do Rio, tirou a camiseta e ajudou a transformar o Palco Mundo em um verdadeiro puxadinho de Seul.
Hyunjin, I.N, Felix, Changbin, Seungmin, Lee Know e Han também estavam visivelmente felizes. Dançaram, brincaram, arriscaram palavras em português e aproveitaram cada instante de uma apresentação histórica para o gênero no Brasil.
Eles foram escolhidos a dedo. Depois de uma turnê mundial que passou pelo Rio de Janeiro e por São Paulo, com grandes públicos no Nilton Santos e no MorumBIS, levar o Stray Kids ao Rock in Rio era uma decisão natural.
Se o BTS se consolidou como o principal símbolo internacional da terceira geração do k-pop, o Stray Kids ocupa posição semelhante entre os representantes da quarta geração. Os dois casos mostram que a língua nunca foi uma barreira definitiva para o sucesso quando existem talento, trabalho e capacidade de criar identificação com o público.
O próprio nome Stray Kids, ou “crianças perdidas”, combina com uma trajetória construída por jovens que buscaram seu espaço sob a liderança do australiano-coreano Bang Chan. Dentro de uma empresa tradicional como a JYP, o grupo desenvolveu uma identidade própria e fez do envolvimento dos integrantes com as músicas uma de suas maiores forças.
Brasil demonstra potencial para se tornar rota permanente do k-pop
O sucesso da programação não começou nem terminou dentro da Cidade do Rock. Ele faz parte de um movimento maior de crescimento da cultura coreana no Brasil.
A música abriu muitas dessas portas, mas o interesse brasileiro já alcança os dramas, a gastronomia, a língua, a moda e diferentes produtos culturais da Coreia do Sul. O público deixou de ser apenas um nicho concentrado nas redes sociais e passou a ocupar estádios, festivais e eventos de alcance nacional.
A presença do Brasil na Arirang World Tour reforça essa aproximação e mostra que o país começa a ser percebido como um mercado relevante dentro da expansão internacional da cultura coreana.
A passagem do ENHYPEN por terras tupiniquins, meses antes do Rock in Rio, também representou um momento aguardado durante anos pelos fãs brasileiros. A recepção mostrou novamente que existe demanda para trazer grandes nomes do gênero ao país.
O Brasil possui um público intenso, organizado e disposto a apoiar seus artistas. Os fãs aprendem coreografias, acompanham lançamentos, compram álbuns, produzem projetos e cantam em coreano mesmo sem falar o idioma. Quando os grupos finalmente chegam, encontram uma energia difícil de reproduzir em outros lugares.
Esse potencial, no entanto, ainda não é explorado por completo. O país permanece fora da rota de muitas turnês mundiais, apesar do tamanho de seu público e da resposta oferecida sempre que um artista de k-pop desembarca por aqui.
Existem dificuldades logísticas, distâncias continentais, custos elevados e agendas apertadas. Ainda assim, os públicos reunidos por Stray Kids, ENHYPEN, NEXZ e Hwasa demonstram que trazer o k-pop ao Brasil não precisa ser encarado apenas como uma aposta. Em muitos casos, já existe uma base sólida esperando.
O Rock in Rio deu um passo importante ao colocar o Stray Kids como atração principal. Não os tratou como curiosidade, atração secundária ou experiência isolada. Entregou ao grupo o horário mais importante e permitiu que o público brasileiro mostrasse sua dimensão.
Para este jovem jornalista que escreve, fica a esperança de que esse tenha sido apenas o começo.
Ainda sonho com o dia em que o Brasil receberá o BOYNEXTDOOR, com sua energia leve e identidade própria; o &TEAM, que reúne diferentes nacionalidades e representa uma ponte entre o Japão e a Coreia do Sul; e o Tomorrow X Together, um dos principais nomes de sua geração e dono de um repertório capaz de ocupar qualquer grande palco brasileiro.


Não faltam fãs. Não falta entusiasmo. Também não falta espaço.
Se o Rock in Rio deseja continuar acompanhando as transformações da música mundial, o caminho está aberto para que outros grupos cheguem nas próximas edições. O sucesso de 2026 mostrou que o público brasileiro não somente está preparado para receber o k-pop, como já esperava por esse reconhecimento há muito tempo.
Naquela sexta-feira, o Stray Kids não parecia perdido. O grupo encontrou no Rio de Janeiro uma multidão que já sabia exatamente quem eles eram.
E o Brasil, por sua vez, confirmou que pode se tornar uma das casas mais apaixonadas do k-pop fora da Ásia.