Procurador-geral afirma que viu Daniel Vorcaro uma única vez, rejeita interpretação de mensagens atribuídas a ele e diz não haver motivo para deixar as investigações do Banco Master.
Gonet admite encontro com Vorcaro em evento internacional
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, confirmou que se encontrou pessoalmente com Daniel Vorcaro em abril de 2024, durante um evento realizado em Londres. Apesar de admitir o contato, ele negou manter uma relação de amizade ou possuir interesses pessoais nos processos envolvendo o antigo controlador do Banco Master.
As explicações constam em uma manifestação de 37 páginas encaminhada ao Conselho Superior do Ministério Público Federal. O documento responde a questionamentos sobre a possível proximidade entre o procurador-geral e Vorcaro.
Gonet afirmou que teve apenas uma interação presencial com o empresário e que o contato ocorreu na presença de diversas autoridades e outros convidados.
“Não tenho com o sr. Daniel Vorcaro relação de amizade alguma, nem muito menos tenho interesse pessoal nos processos em que ele conste como parte ou investigado”, declarou.
Conselho avaliará possível impedimento no caso Master
A manifestação foi apresentada após uma solicitação do subprocurador-geral da República Francisco Sanseverino, relator de um procedimento aberto no Conselho Superior do MPF.
O colegiado analisa uma representação apresentada pelo partido Novo para avaliar se Gonet deve ser considerado impedido de atuar nos procedimentos relacionados ao Banco Master.
A discussão teve origem em informações reunidas pela Polícia Federal e encaminhadas ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, no âmbito da Operação Compliance Zero.
O Conselho Superior marcou para o dia 25 de setembro uma sessão específica para analisar os argumentos apresentados pelo partido e a defesa do procurador-geral.
Gonet classificou as acusações como “descabidas e estapafúrdias” e afirmou que continuará atuando no caso por não identificar qualquer elemento jurídico que comprometa sua imparcialidade.
Mensagens citam “saudade” e chamam interlocutor de “máquina”
Parte da controvérsia envolve mensagens atribuídas a Gonet e encaminhadas ao advogado Ciro Soares.
Segundo a interpretação apresentada pela Polícia Federal, o procurador-geral teria manifestado “saudade” de Vorcaro e chamado o banqueiro de “máquina”. As mensagens teriam sido posteriormente encaminhadas por Ciro ao antigo controlador do Master.
Gonet rejeitou essa interpretação. Ele afirmou que a mensagem com a expressão “saudade de você” não teria sido dirigida a Vorcaro, com quem, segundo sua versão, havia tido apenas um contato breve.
O procurador-geral também declarou que a expressão “você é uma máquina” se referia a Ciro Soares, e não ao banqueiro.
De acordo com Gonet, a forma como terceiros encaminharam ou utilizaram as mensagens não estava sob seu controle. Ele afirmou que as frases foram retiradas do contexto e utilizadas para sustentar uma tentativa de difamação.
Procurador-geral nega amizade com banqueiro
Gonet dividiu sua manifestação em dois blocos. No primeiro, tratou dos contatos atribuídos a ele e da participação no evento em Londres. No segundo, explicou sua atuação nas investigações da Operação Compliance Zero.
O procurador-geral sustentou que não possuía qualquer relação de amizade com Vorcaro e que sua presença no mesmo evento não demonstra proximidade pessoal ou profissional.
Segundo Gonet, até aquele momento, o banqueiro era uma pessoa desconhecida para ele. O Banco Master também seria visto apenas como uma instituição financeira que, aparentemente, operava de forma regular.
Ele afirmou que nenhuma informação sobre possíveis irregularidades praticadas pelo banco ou por seus dirigentes havia chegado ao seu conhecimento na época do encontro.
Evento reuniu ministros e autoridades brasileiras
Gonet participou do evento em Londres como convidado de um painel sobre o papel do Judiciário na estabilidade democrática.
De acordo com sua manifestação, também estavam presentes os ministros do STF Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, além de Ricardo Lewandowski, então ministro da Justiça, e Jorge Messias, advogado-geral da União.
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, os ministros do Superior Tribunal de Justiça Luiz Felipe Salomão, Mauro Campbell Marques e Benedito Gonçalves, e o ex-presidente Michel Temer também foram mencionados entre os convidados.
Gonet afirmou que as autoridades participaram de painéis sobre assuntos jurídicos, políticos e internacionais. Também ocorreram momentos de convivência entre os participantes.
Foi nesse ambiente que, segundo o procurador-geral, ele foi apresentado a Vorcaro. Gonet declarou que nunca teve uma conversa profissional reservada com o banqueiro e que os contatos ocorreram sempre na presença de outras pessoas.
A versão apresentada sustenta que aquela foi a primeira e única vez em que os dois se encontraram pessoalmente.
PF apura tentativas de interferência nas investigações
As mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro indicam que o ex-banqueiro teria procurado Alexandre de Moraes repetidas vezes para pedir algum tipo de intervenção junto a Andrei Rodrigues e Paulo Gonet.
Os pedidos estariam relacionados às investigações sobre possíveis negócios fraudulentos do Banco Master.
As informações fazem parte do material produzido pela Polícia Federal e utilizado para levantar questionamentos sobre a atuação de diferentes autoridades no caso.
Gonet, entretanto, negou ter recebido qualquer pedido para impedir ou dificultar as investigações. Segundo ele, não existiu interferência destinada a proteger Vorcaro ou o banco.
O procurador-geral afirmou que agiu em sentido contrário, garantindo apoio institucional e material aos integrantes do Ministério Público responsáveis pela apuração.
Gonet contesta anotações atribuídas a Vorcaro
Outro ponto apresentado no procedimento envolve anotações feitas por Vorcaro nos dias 30 de outubro e 5 e 15 de novembro de 2025.
Os registros mencionavam uma pessoa identificada como “Paulo”. A associação do nome ao procurador-geral levantou suspeitas sobre possíveis contatos relacionados a medidas temidas pelo banqueiro em investigações conduzidas na primeira instância.
Gonet afirmou que não existe demonstração de que tenha atuado para bloquear diligências ou proteger os interesses do Banco Master.
“O fato é que não recebi interferência nenhuma para obstar investigações”, declarou.
Segundo ele, sua atuação foi destinada a garantir que os procuradores e investigadores tivessem os recursos necessários para apurar os fatos corretamente.
PGR diz que continuará atuando nas investigações
Gonet informou ao Conselho Superior que não pretende se afastar dos procedimentos relacionados ao Banco Master.
Na manifestação, o procurador-geral citou seus 39 anos de atuação no Ministério Público Federal e afirmou estar juridicamente apto a continuar trabalhando no caso com independência.
Para Gonet, não existem elementos que justifiquem seu impedimento nem razões para a abertura de uma investigação criminal sobre sua conduta.
Ele também argumentou que uma eventual tentativa de constrangê-lo não poderia ser utilizada para provocar seu afastamento, especialmente por considerar ilegal a maneira como parte das suspeitas foi levantada.
A posição contraria os pedidos para que o procurador-geral deixe de atuar nas apurações que envolvem Vorcaro, Moraes e o Banco Master.
Colegiado será presidido por Nicolao Dino
O Conselho Superior do Ministério Público Federal é a principal instância administrativa da instituição. O grupo possui dez integrantes, incluindo o procurador-geral e o vice-procurador-geral da República.
Também participam quatro subprocuradores-gerais escolhidos pelo Colégio de Procuradores e outros quatro eleitos pelos próprios integrantes da carreira.
Como o procedimento envolve diretamente Paulo Gonet, a sessão do dia 25 será presidida pelo vice-presidente do Conselho, Nicolao Dino, irmão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal.
Caberá ao colegiado analisar se os elementos apresentados comprometem a atuação de Gonet ou se os esclarecimentos são suficientes para afastar as suspeitas de proximidade com Vorcaro.
Até que uma decisão seja tomada, Gonet permanece à frente da Procuradoria-Geral da República e continua atuando nos procedimentos relacionados ao Banco Master.
