Relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta 1.568 vítimas no último ano e crescimento de 14,5% desde 2021; maioria dos crimes ocorre dentro de casa e é cometida por parceiros ou ex-companheiros
O Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio em 2025, número que representa alta de 4,7% em relação ao ano anterior. Desde a criação da Lei do Feminicídio, em 2015, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas em razão da condição de sexo feminino no país.
Os dados fazem parte do relatório “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, divulgado nesta quarta-feira (4) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O levantamento mostra que, entre 2021 e 2025, houve crescimento acumulado de 14,5% nos registros de feminicídio.
O cenário reforça o alerta sobre a persistência da violência de gênero no país, especialmente em contextos domésticos e familiares.
Violência íntima e dentro de casa
A análise de 5.729 casos registrados entre 2021 e 2024 revela um padrão recorrente: 59,4% das vítimas foram mortas pelo companheiro e 21,3% pelo ex-companheiro. Outros familiares respondem por 10,2% das ocorrências, enquanto apenas 4,9% dos casos tiveram como autor um desconhecido.
Os dados também indicam que 97,3% dos crimes foram cometidos por homens, evidenciando o caráter estrutural da violência contra a mulher.
A residência da vítima foi o local do crime em 66,3% das ocorrências, confirmando que a maioria dos feminicídios acontece dentro do ambiente doméstico. A via pública aparece em segundo lugar, com 19,2%.
Em relação aos meios utilizados, a arma branca esteve presente em 48,7% dos casos, enquanto armas de fogo foram usadas em 25,2% das ocorrências.
Perfil das vítimas
O levantamento traça um retrato das mulheres assassinadas. 62,6% das vítimas eram mulheres negras, enquanto 36,8% eram brancas. Metade tinha entre 30 e 49 anos. Outras 15,5% tinham 50 anos ou mais, e 5,1% eram menores de 18 anos.
Os dados evidenciam que o feminicídio atinge principalmente mulheres em idade adulta, muitas vezes inseridas em relações afetivas marcadas por histórico de violência.
Pequenas cidades apresentam maior risco
O relatório aponta que municípios de menor porte registram taxas proporcionalmente mais altas de feminicídio. Em 2024, cidades com até 100 mil habitantes tiveram taxa de 1,7 feminicídio por 100 mil mulheres, acima da média nacional de 1,4.
Nos municípios com até 20 mil habitantes, a taxa chegou a 1,8 por 100 mil mulheres, o que representa índice 28,5% superior à média do país.
Embora 41% das mulheres brasileiras vivam em cidades com até 100 mil habitantes, esses municípios concentraram 50% dos feminicídios registrados.
Rede de proteção é limitada no interior
A infraestrutura de atendimento às mulheres em situação de violência é significativamente mais restrita nas cidades pequenas. Apenas 5% dos municípios de pequeno porte possuem Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher. Somente 3% contam com Casa Abrigo, enquanto 27,1% dispõem de ao menos um serviço especializado da rede de proteção.
A limitação estrutural pode dificultar o acesso a medidas preventivas e à proteção adequada das vítimas.
Medidas protetivas não impediram parte dos crimes
O levantamento também analisou dados de 16 unidades da federação e constatou que 13,1% das vítimas de feminicídio possuíam Medida Protetiva de Urgência (MPU) vigente no momento do crime.
Alguns estados apresentaram percentuais superiores à média nacional, como Acre, com 25%, Mato Grosso, com 22,2%, e São Paulo, onde a capital registrou 21,7%.
Os números indicam que, embora as medidas protetivas sejam instrumentos importantes de proteção, ainda existem falhas na efetividade e no monitoramento, especialmente em contextos de vulnerabilidade social e estrutural.
Crescimento contínuo preocupa especialistas
O aumento de 14,5% nos registros desde 2021 reforça a preocupação de especialistas e entidades de segurança pública com a escalada da violência de gênero no Brasil. O relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que o enfrentamento ao feminicídio exige fortalecimento da rede de proteção, ampliação de políticas públicas e melhoria na fiscalização do cumprimento das medidas protetivas.
O cenário evidencia que o feminicídio permanece como um dos principais desafios na área da segurança pública e dos direitos das mulheres no país.



