Levantamento baseado em fontes abertas aponta mais de 100 brasileiros mortos no conflito, enquanto o Itamaraty confirma 35 óbitos e registra 92 desaparecidos
O Brasil aparece entre os países com maior número de combatentes estrangeiros mortos na guerra da Ucrânia, segundo um levantamento realizado pela emissora alemã Deutsche Welle, a DW.
A contagem, elaborada a partir de anúncios públicos, publicações de familiares e informações disponíveis na internet, aponta mais de 100 brasileiros mortos desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022.
O número, entretanto, não é oficial. O Ministério das Relações Exteriores confirma 35 mortes e 92 desaparecimentos de brasileiros envolvidos no conflito ao lado das forças ucranianas.
Durante a apuração, o Brasil ocupava a terceira posição entre os países com mais estrangeiros mortos na guerra, atrás apenas dos Estados Unidos e da Colômbia.
Números oficiais são inferiores ao levantamento
A diferença entre os dados públicos e os números confirmados pelo Itamaraty acontece porque muitas mortes não são comunicadas imediatamente às autoridades brasileiras.
Há ainda combatentes cujos corpos permanecem em áreas ocupadas, desaparecem durante operações ou não são identificados oficialmente. Em outros casos, as informações circulam primeiro entre familiares e grupos de militares nas redes sociais.
Por essas razões, os mais de 100 óbitos representam uma estimativa baseada em fontes abertas, enquanto os 35 casos informados pelo Itamaraty correspondem às mortes que receberam confirmação consular.
O governo brasileiro também registra 92 desaparecidos. Esse número mais que dobrou desde dezembro de 2025, indicando o crescimento da participação e das baixas de brasileiros no conflito.
Brasileiros formam unidades dentro das forças ucranianas
A presença brasileira na Ucrânia pode ser observada em diferentes unidades militares.
Uma das companhias que atuam ao lado das forças ucranianas é formada majoritariamente por combatentes que falam português e possui brasileiros em posições de comando.
Canais oficiais de recrutamento da Ucrânia também publicam conteúdos em português destinados diretamente ao público brasileiro. As mensagens apresentam as condições de ingresso, as funções disponíveis e os documentos necessários para participar das forças do país.
Embora os números completos sejam mantidos em sigilo por questões estratégicas, as autoridades ucranianas afirmaram que mais de 10 mil estrangeiros de aproximadamente 75 países já combateram ao lado da Ucrânia.
Legião Internacional foi criada após invasão russa
A participação de estrangeiros ganhou força poucos dias depois do início da invasão, em fevereiro de 2022.
O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, fez um apelo internacional para que voluntários de outros países ajudassem na defesa do território. A convocação resultou na criação da Legião Internacional da Defesa Territorial da Ucrânia.
Desde então, milhares de estrangeiros passaram a integrar unidades vinculadas às Forças Armadas ucranianas.
Os contratos oficiais estabelecem funções, salários, direitos e deveres. Os integrantes também ficam submetidos à estrutura de comando e às regras militares do país.
Ucrânia busca novos combatentes estrangeiros
Depois de mais de quatro anos de guerra, a Ucrânia enfrenta dificuldades para recompor o efetivo militar.
Estudos citados pela DW estimam que entre 125 mil e 150 mil soldados ucranianos tenham morrido desde o início da invasão. Outros mais de 200 mil militares teriam desertado, embora números relacionados às baixas sejam considerados estratégicos e não tenham confirmação independente completa.
Diante dessa situação, Kiev reformulou os contratos oferecidos aos estrangeiros para atrair novos voluntários e manter os combatentes que já estão no país.
Os novos modelos estabelecem permanência mínima de seis meses e oferecem facilidades migratórias, incluindo a possibilidade de continuar na Ucrânia por determinado período depois do encerramento do serviço.
Salários podem chegar a R$ 53 mil
O principal incentivo oferecido pela Ucrânia é financeiro.
Dependendo da função exercida e da proximidade da linha de frente, a remuneração mensal pode alcançar o equivalente a aproximadamente R$ 53 mil.
Os valores mais elevados são destinados principalmente aos integrantes de unidades de infantaria e tropas de assalto que participam diretamente dos combates.
A remuneração, entretanto, não significa que os estrangeiros consigam acumular dinheiro. Gastos pessoais, problemas com pagamentos, ferimentos e o próprio risco de morte fazem com que a realidade seja diferente da imagem apresentada durante o recrutamento.
Combatentes brasileiros entrevistados pela DW afirmaram que poucos conseguem melhorar de vida após entrar na guerra.
Treinamento pode durar poucas semanas
O brasileiro Giovanni Paese contou que ingressou nas forças ucranianas depois de ouvir relatos de amigos que já estavam no país.
Segundo ele, o treinamento recebido no início da guerra durou entre duas e três semanas antes do envio para missões.
Atualmente, Giovanni trabalha com drones, função considerada menos exposta do que as operações de infantaria. Ele se casou com uma ucraniana, comprou um apartamento e decidiu permanecer no país.
Outros brasileiros tiveram trajetórias diferentes. Muitos foram enviados para trincheiras e posições improvisadas, onde permaneceram sob bombardeios constantes e com pouco contato com familiares.
Relatos descrevem condições extremas no front
Brasileiros que passaram meses no conflito relataram dificuldades relacionadas à estrutura, ao treinamento e à intensidade dos combates.
Rodrigo Lopes e Naiano Gonçalves permaneceram durante 11 meses na guerra antes de preparar o retorno ao Brasil.
Gonçalves afirmou que ouviu integrantes descreverem uma das brigadas como um “moedor de carne”, em referência à elevada quantidade de baixas registrada nas missões.
A utilização de drones, artilharia e ataques constantes torna a linha de frente especialmente perigosa. Em determinadas posições, os soldados permanecem longos períodos em abrigos improvisados e quase sem exposição à luz do dia.
Entre os brasileiros mortos recentemente está Edi Soares de Souza, atingido durante combates na região de Zaporíjia.
Famílias enfrentam dificuldades para confirmar mortes
Quando um combatente desaparece, seus familiares podem passar meses sem receber informações oficiais.
A localização do corpo é importante para a emissão de documentos e para o reconhecimento formal da morte. Em áreas ocupadas ou sob bombardeio, porém, a recuperação pode ser impossível.
Familiares também enfrentam dificuldades relacionadas ao idioma, à distância e à obtenção de documentos junto às autoridades militares ucranianas.
As indenizações previstas em contrato podem se aproximar de R$ 2 milhões em determinadas circunstâncias, mas o pagamento depende da comprovação do óbito e do cumprimento das exigências estabelecidas pelas autoridades locais.
Quando o corpo não é encontrado, o reconhecimento da morte pode exigir um longo processo judicial.
Morte em base militar está sob investigação
O caso de Bruno Gabriel Leal da Silva aumentou os questionamentos sobre as condições enfrentadas pelos brasileiros dentro de determinadas unidades.
Ele foi encontrado morto em dezembro de 2025 dentro de uma base militar próxima a Kiev. Segundo investigações jornalísticas, o corpo apresentava sinais de agressão e ele ainda não havia assinado um contrato militar.
Ex-integrantes de uma unidade liderada por brasileiros denunciaram a ocorrência de abusos e punições violentas. Os relatos foram publicados pelo The Kyiv Independent e também apurados por veículos brasileiros.
O comandante mencionado nas denúncias negou envolvimento e classificou as acusações como falsas. Posteriormente, disse que cooperava com as autoridades, mas que não poderia comentar detalhes da investigação.
As autoridades ucranianas confirmaram a abertura de uma investigação criminal. Até o momento, ninguém foi formalmente acusado pela morte.
Rússia classifica estrangeiros como mercenários
O tratamento dos combatentes estrangeiros é outro ponto de disputa entre Rússia e Ucrânia.
Moscou classifica os estrangeiros que lutam ao lado de Kiev como mercenários. Sob essa interpretação, eles não teriam direito ao mesmo tratamento destinado aos prisioneiros de guerra.
A posição aumenta o risco para brasileiros capturados pelas forças russas. Estrangeiros já foram submetidos a processos em territórios ocupados, incluindo áreas controladas pela autoproclamada República Popular de Donetsk.
A Ucrânia rejeita a classificação. O governo sustenta que os estrangeiros assinam contratos oficiais, integram formalmente suas Forças Armadas e recebem os mesmos direitos, deveres e salários dos militares ucranianos.
Especialistas ressaltam que a definição jurídica de mercenário possui vários requisitos e não depende apenas da nacionalidade estrangeira ou do recebimento de uma remuneração.
ONU não classificou integrantes da Legião como mercenários
A Organização das Nações Unidas mantém uma posição contrária ao recrutamento e à utilização de mercenários em conflitos armados.
A entidade possui uma convenção internacional que determina a adoção de medidas contra o recrutamento, o financiamento, o treinamento e o uso desses combatentes.
A ONU, entretanto, não classificou oficialmente os estrangeiros incorporados à Legião Internacional ucraniana como mercenários.
A situação depende da forma de recrutamento, do vínculo contratual, da integração às Forças Armadas e das motivações predominantes de cada pessoa.
Brasil não possui crime específico de mercenarismo
O Brasil não aderiu à Convenção Internacional da ONU contra o Recrutamento, Uso, Financiamento e Treinamento de Mercenários.
A legislação brasileira também não possui um tipo penal específico para punir alguém exclusivamente por atuar como mercenário no exterior.
Isso não significa que brasileiros tenham liberdade para praticar qualquer ato durante uma guerra. Crimes comuns, formação de grupos paramilitares, terrorismo e violações do direito humanitário podem gerar responsabilização, dependendo das circunstâncias e da legislação aplicável.
A ausência de uma regra específica, porém, cria dúvidas sobre as consequências jurídicas da participação voluntária em conflitos estrangeiros.
Itamaraty recomenda que brasileiros não participem da guerra
O Ministério das Relações Exteriores voltou a recomendar que cidadãos brasileiros evitem qualquer envolvimento com forças armadas estrangeiras.
O Itamaraty alerta que a capacidade de oferecer assistência consular em zonas de guerra é severamente limitada pelas condições de segurança.
Em áreas de combate, diplomatas brasileiros podem não conseguir localizar desaparecidos, retirar cidadãos feridos ou recuperar corpos.
O crescimento do número de mortos e desaparecidos evidencia os riscos enfrentados por brasileiros que viajam para a Ucrânia atraídos por salários, experiência militar, solidariedade ou motivações ideológicas.
Enquanto Kiev intensifica o recrutamento internacional, famílias brasileiras continuam esperando respostas sobre parentes que desapareceram em uma guerra distante e de consequências cada vez mais graves.
