Grupo sul-coreano decidiu não inscrever o álbum “Arirang” no Grammy 2027 após a criação de uma categoria exclusiva para o pop asiático; Recording Academy lamentou a decisão e negou tentativa de segregação
O BTS anunciou que não inscreverá seus trabalhos no Grammy 2027, abrindo uma das maiores discussões recentes sobre representatividade, reconhecimento internacional e a maneira como a indústria musical classifica artistas que estão fora do eixo formado pelos Estados Unidos e pela Europa.
A decisão foi comunicada pelos sete integrantes do grupo — RM, Jin, Suga, J-Hope, Jimin, V e Jungkook — na madrugada de quarta-feira (29). A manifestação ocorreu pouco mais de um mês depois de a Recording Academy, responsável pela premiação, anunciar a criação da categoria Melhor Performance de Música Pop Asiática.
Em uma mensagem publicada nas redes sociais, o BTS afirmou que decidiu não submeter suas músicas à avaliação da Academia neste ano. O grupo também defendeu que a música seja ouvida e valorizada por suas próprias qualidades, sem ser dividida por região geográfica ou idioma.
“Esperamos que a música possa ser ouvida e amada por si só, em vez de ser dividida por regiões ou idiomas. Agradecemos sinceramente aos ARMYs e a todos que sempre estão conosco”, declarou o grupo.
Apesar de o comunicado não utilizar diretamente o termo “boicote”, a decisão de retirar voluntariamente os próprios trabalhos do processo de avaliação passou a ser interpretada dessa forma por fãs e veículos internacionais.
BTS não inscreverá o álbum “Arirang” no Grammy 2027
Com a decisão, nenhuma música ou videoclipe do novo álbum “Arirang” deverá ser submetido à 69ª edição do Grammy Awards, programada para fevereiro de 2027.
O disco representa o retorno coletivo do BTS após o período em que os integrantes cumpriram o serviço militar obrigatório na Coreia do Sul e desenvolveram projetos individuais. Por isso, o lançamento era considerado um dos trabalhos mais aguardados da temporada musical.
O novo momento do grupo também foi acompanhado por forte repercussão comercial e por uma nova turnê internacional. O BTS retornou aos palcos como um dos nomes mais influentes da música contemporânea, mantendo uma base de fãs espalhada por diferentes continentes.
Diante dessa dimensão, a ausência do septeto não representa apenas a retirada de um concorrente. A decisão cria um problema de imagem para o Grammy, que passa a ser questionado justamente pelo grupo que mais contribuiu para transformar o K-pop em um fenômeno verdadeiramente global.
Nova categoria para o pop asiático motivou a decisão
A categoria Melhor Performance de Música Pop Asiática, chamada oficialmente de Best Asian Pop Music Performance, foi anunciada pela Recording Academy em junho.
Segundo as regras apresentadas pela organização, a classificação pretende reconhecer a excelência artística de performances de pop originadas ou amplamente reconhecidas nos mercados asiáticos. A categoria inclui movimentos como K-pop, J-pop e C-pop, além de exigir o uso significativo de um ou mais idiomas asiáticos.
Para a Academia, a mudança amplia o espaço disponível para artistas que historicamente encontraram dificuldades para alcançar as principais categorias do Grammy.
A interpretação do BTS, entretanto, aponta para outro problema: ao criar uma classificação baseada simultaneamente em mercado regional e idioma, a premiação pode reforçar uma divisão entre o pop considerado universal e aquele tratado como produto de uma determinada origem.
É justamente essa separação que aparece no centro da crítica feita pelo grupo.
O BTS não questionou a importância de reconhecer artistas asiáticos. A manifestação colocou em dúvida a necessidade de reuni-los em uma mesma categoria, apesar das enormes diferenças linguísticas, culturais e musicais existentes entre países como Coreia do Sul, Japão, China, Índia, Filipinas, Indonésia e Tailândia.

Grammy criou outras quatro categorias para 2027
Além da categoria voltada ao pop asiático, o Grammy anunciou outras quatro classificações para a cerimônia de 2027: Melhor Música Latina, Melhor Colaboração ou Performance de Dupla ou Grupo de R&B, Melhor Performance Vocal Pop Tradicional e Melhor Álbum de Folk Tradicional.
No caso de Melhor Música Latina, a regra estabelece que pelo menos 51% da letra esteja em espanhol. Isso significa que uma música predominantemente em português não pode disputar especificamente essa nova categoria, mesmo sendo produzida no Brasil, o maior país da América Latina.
A questão amplia o debate levantado pelo BTS. Afinal, enquanto o pop produzido em inglês é tratado simplesmente como pop, artistas de outras regiões frequentemente recebem rótulos relacionados ao país, continente ou idioma de origem.
Uma música norte-americana pode circular como pop. Uma produção coreana é direcionada ao K-pop ou ao pop asiático. Uma canção japonesa recebe o rótulo de J-pop. Já uma obra brasileira pode ficar fora de uma categoria latina por não ser cantada majoritariamente em espanhol.
A criação de espaços adicionais pode aumentar o número de indicados, mas também provoca dúvidas sobre quem continua tendo acesso real às categorias de maior prestígio da premiação.
CEO do Grammy diz respeitar posicionamento do BTS
Após a repercussão internacional, o CEO da Recording Academy, Harvey Mason Jr., afirmou estar triste com a decisão do BTS, mas disse compreender e respeitar o posicionamento dos integrantes.
O executivo declarou que a categoria de pop asiático foi criada para celebrar a diversidade, a riqueza artística e o crescimento da música produzida no continente. Segundo ele, o objetivo nunca foi dividir os artistas, mas ampliar o número de trabalhos reconhecidos pelos cerca de 15 mil membros votantes do Grammy.
Mason também ressaltou que a inscrição em uma categoria especializada não impede a participação nas categorias gerais da premiação.
Dessa maneira, artistas inscritos em Pop Asiático, Jazz, Country ou outras áreas também podem ser considerados para prêmios como Álbum do Ano, Canção do Ano e Gravação do Ano, desde que atendam às regras de elegibilidade.
“A intenção nunca foi dividir, mas ampliar quem é reconhecido”, afirmou o executivo.

Academia garante que categorias gerais permanecem abertas
Na tentativa de responder às críticas, Harvey Mason Jr. reforçou que as categorias gerais continuam disponíveis para qualquer gravação elegível, independentemente do gênero musical, da nacionalidade ou do idioma utilizado.
De acordo com o CEO, o reconhecimento em uma categoria de gênero e a participação no chamado Campo Geral não são mutuamente excludentes. Em outras palavras, um mesmo artista pode disputar uma classificação específica e também buscar os principais prêmios da noite.
A explicação, contudo, não encerrou a controvérsia.
Embora a possibilidade formal de concorrer nas categorias gerais continue existindo, a crítica apresentada pelo BTS está relacionada à forma como os trabalhos são inicialmente percebidos e classificados. O questionamento não se limita ao regulamento, mas alcança a cultura interna da indústria e a maneira como produções internacionais são apresentadas aos votantes.
A Recording Academy afirmou que continuará ouvindo a comunidade musical global e trabalhando para reconhecer artistas de diferentes regiões. Até o momento, porém, a categoria de Pop Asiático está mantida no Grammy 2027.
Decisão marca novo capítulo na relação entre BTS e Grammy
O afastamento representa um momento inédito na relação entre o BTS e a principal premiação da indústria fonográfica norte-americana.
O grupo acumula cinco indicações ao Grammy, mas nunca conquistou uma estatueta. Entre os trabalhos reconhecidos estão sucessos como “Dynamite”, “Butter”, a colaboração “My Universe”, com o Coldplay, e o videoclipe de “Yet to Come”.
Ao longo dos anos, o BTS também protagonizou apresentações de grande repercussão na cerimônia. Ainda assim, parte dos fãs e da crítica passou a questionar se a Academia utilizava a popularidade do grupo para ampliar sua audiência sem oferecer o mesmo reconhecimento nas principais disputas.
Agora, ao decidir não inscrever um álbum aguardado mundialmente, o BTS inverte essa relação. Não é o Grammy que determina se o grupo merece uma indicação; é o grupo que questiona se deseja participar do processo.
Vídeos ficaram indisponíveis após anúncio do grupo
A repercussão aumentou depois que fãs perceberam que vídeos de apresentações do BTS no Grammy ficaram indisponíveis no canal da premiação no YouTube.
Entre os conteúdos apontados pelos fãs estavam performances de “Dynamite” e “Butter”, que acumulavam números expressivos de visualizações.
Até o momento, não há confirmação de que os vídeos tenham sido retirados deliberadamente em resposta à decisão do grupo. A Recording Academy também não esclareceu se a indisponibilidade está relacionada a direitos de transmissão, mudanças contratuais ou problemas técnicos.
Por isso, não é possível estabelecer uma relação direta entre o comunicado do BTS e o desaparecimento dos conteúdos. Ainda assim, a coincidência intensificou as críticas e os questionamentos nas redes sociais.
Boicote reacende discussão sobre representatividade
A controvérsia expõe uma questão que acompanha o Grammy há décadas: a dificuldade da premiação em equilibrar categorias especializadas com um reconhecimento verdadeiramente global.
Para parte do público, a criação de uma categoria asiática representa um avanço, pois garante que mais artistas tenham a oportunidade de receber uma indicação. Para outra parcela, a mudança pode funcionar como uma forma de manter artistas asiáticos concentrados em um espaço separado, diminuindo sua presença nas categorias centrais.
O debate também ultrapassa o BTS e o próprio K-pop. Ele envolve artistas de toda a Ásia e pode alcançar músicos africanos, latino-americanos e de outras regiões frequentemente apresentados pela indústria como representantes de um território antes de serem reconhecidos pelo gênero que produzem.
Ao recusar a inscrição de “Arirang”, o BTS transformou uma alteração técnica do regulamento em uma discussão internacional sobre quem pode ser considerado simplesmente um artista pop e quem precisa carregar permanentemente um rótulo geográfico.
Editorial | O BTS já é maior do que o reconhecimento que o Grammy pode oferecer
O BTS é o maior grupo de K-pop da atualidade. Essa afirmação não depende de gosto pessoal, preferência musical ou participação em determinada comunidade de fãs. Os números, o alcance internacional e o impacto cultural do grupo falam por si.
É possível não gostar das músicas. É possível não acompanhar os integrantes ou não se identificar com a estética do K-pop. O que não é possível, diante da realidade, é negar que o BTS se transformou em um sucesso estrondoso e ocupa um lugar no hall dos grandes nomes da música mundial.
O grupo rompeu barreiras que pareciam intransponíveis para artistas que cantavam majoritariamente em coreano. Entrou nas principais paradas do planeta, lotou estádios, movimentou bilhões, levou milhões de pessoas a conhecerem a cultura da Coreia do Sul e ajudou a mudar a percepção ocidental sobre artistas asiáticos.
O BTS não chegou até esse ponto por concessão de uma premiação. Chegou pela força de sua música, de sua identidade e de um público que ultrapassa fronteiras.

Um grupo que sabe o tamanho da própria voz
O BTS sempre foi vocal em seus posicionamentos. Seus integrantes sabem o que representam e conhecem o peso de cada declaração pública.
Por isso, a decisão de não submeter “Arirang” ao Grammy não deve ser tratada como uma reação impulsiva ou como simples descontentamento por nunca terem conquistado uma estatueta. É uma decisão política dentro da indústria musical.
O grupo está afirmando que não deseja ter sua música automaticamente colocada em uma categoria determinada por continente ou idioma. Não está pedindo o fim do reconhecimento aos artistas asiáticos. Está questionando por que esse reconhecimento precisa acontecer em uma divisão geográfica.
Se a obra é pop, por que ela não pode ser apenas pop?
Quando o pop deixa de ser apenas pop
Parece brincadeira, mas a mensagem transmitida pela indústria é frequentemente esta: se você não é europeu ou norte-americano, não faz simplesmente música pop.
Você faz pop latino, K-pop, J-pop, C-pop ou pop asiático. A origem aparece antes da música. O passaporte chega antes do gênero.
Enquanto isso, artistas dos Estados Unidos, do Canadá ou de grande parte da Europa dificilmente precisam carregar uma categoria continental para serem reconhecidos. Eles fazem pop, rock, R&B ou música eletrônica. Aos demais, muitas vezes é reservado um compartimento regional.
A situação fica ainda mais contraditória quando a nova categoria de Melhor Música Latina exige que a composição seja predominantemente em espanhol. O Brasil pertence à América Latina, mas uma canção em português fica fora dessa classificação específica.
Se a categoria é latina, por que o idioma de mais de 200 milhões de latino-americanos não recebe o mesmo tratamento? Se, na prática, o prêmio deseja reconhecer apenas canções em espanhol, talvez devesse assumir essa definição em seu nome.
Uma divisão que pode esconder preconceitos estruturais
Seria irresponsável afirmar, sem provas, que a Recording Academy criou essas categorias com uma intenção deliberadamente racista ou xenofóbica. Mas também seria ingênuo ignorar o padrão que existe por trás dessas divisões.
Há, no mínimo, um viés cultural que coloca a produção norte-americana e anglófona como universal, enquanto transforma o restante do mundo em nichos regionais.
Esse mecanismo pode funcionar como uma espécie de pré-julgamento: antes mesmo de a música ser ouvida, ela já foi separada pela origem do artista, pelo idioma utilizado ou pelo mercado em que surgiu.
É nesse ponto que o debate se aproxima de questões como xenofobia, racialização e desigualdade de representação. Não necessariamente como uma acusação individual contra os organizadores, mas como uma crítica à estrutura de uma indústria que ainda trata determinadas identidades como padrão e todas as outras como categorias alternativas.
A resposta do Grammy não resolve o problema
O CEO Harvey Mason Jr. está correto ao lembrar que artistas asiáticos continuam elegíveis para Álbum do Ano, Canção do Ano e Gravação do Ano. O regulamento não fecha formalmente essas portas.
Mas a discussão levantada pelo BTS é maior do que a possibilidade técnica de preencher uma inscrição.
A verdadeira pergunta é se esses artistas serão percebidos pelos votantes como concorrentes centrais ou se permanecerão associados, antes de tudo, à categoria regional criada para eles.
Ter permissão para concorrer não significa receber igualdade de tratamento. O desafio está na maneira como a Academia avalia, promove e reconhece obras que não pertencem ao universo anglófono tradicional.
O boicote mostra a verdadeira dimensão do BTS
Na minha visão, toda essa situação apenas demonstra o tamanho alcançado pelo BTS.
Poucos artistas teriam força para recusar voluntariamente a possibilidade de disputar o prêmio mais conhecido da indústria musical. Poucos poderiam transformar uma mudança no regulamento em um debate mundial sobre idioma, identidade e representatividade.
O BTS pode fazer isso porque já não depende do Grammy para provar sua relevância.
O grupo possui público, impacto cultural, resultados comerciais e uma trajetória que não desaparece pela ausência de uma estatueta. Ao abrir mão da disputa, os integrantes deixam claro que a dignidade artística e o posicionamento coletivo podem valer mais do que a validação de uma instituição.
O Grammy seguirá existindo sem o BTS. Mas a cerimônia de 2027 terá de conviver com a ausência do maior grupo de K-pop da atualidade e com a pergunta deixada por ele: se a música é realmente universal, por que alguns artistas continuam sendo separados pela região onde nasceram?
No fim, a decisão não diminui o BTS. Ela evidencia o quanto o grupo se tornou gigante — grande o suficiente para questionar as regras da indústria em vez de apenas aceitá-las.