Pequim acusou os Estados Unidos de protecionismo, contestou justificativa sobre trabalho forçado e defendeu aproximação comercial entre o país asiático e o Mercosul
O governo da China manifestou nesta segunda-feira (27) forte oposição às novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos chineses. Pequim classificou as medidas como “injustificadas”, acusou Washington de adotar práticas protecionistas e pediu a retirada das taxas adicionais.
A reação chinesa ocorre em meio a uma nova ofensiva comercial do governo do presidente americano, Donald Trump. Os Estados Unidos anunciaram tarifas de 10% e 12,5% sobre produtos procedentes de 60 parceiros comerciais, alegando que esses países não adotaram medidas suficientes para restringir importações relacionadas ao trabalho forçado.
Brasil e China foram atingidos por uma alíquota de 12,5%, enquanto produtos da União Europeia receberam uma taxa de 10%.
Paralelamente ao novo confronto entre as duas maiores economias do mundo, China e Brasil reforçaram sua aproximação diplomática e comercial. Na noite de domingo (26), o presidente chinês, Xi Jinping, conversou por telefone durante mais de uma hora com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Durante o diálogo, Xi manifestou apoio ao Brasil na defesa da soberania nacional e concordou com Lula sobre a necessidade de acelerar as tratativas para um acordo comercial entre a China e o Mercosul.
China classifica tarifas americanas como injustificadas
Em comunicado, o Ministério do Comércio chinês informou que se opõe “firmemente” às tarifas aplicadas pelos Estados Unidos e rejeitou a justificativa apresentada pelo governo Trump.
Washington afirma que os países atingidos não adotaram providências suficientes para impedir a entrada de produtos associados ao trabalho degradante em suas cadeias comerciais.
Pequim contestou a acusação e declarou que possui uma estrutura abrangente de proteção trabalhista. O governo chinês também acusou os Estados Unidos de utilizarem o combate ao trabalho forçado como um instrumento político para justificar novas barreiras comerciais.
Segundo o Ministério do Comércio, a decisão representa “um ato típico de unilateralismo e protecionismo”. O órgão pediu que Washington encerre as medidas e respeite as regras internacionais do comércio.
A China também questionou a posição americana ao lembrar que os Estados Unidos não ratificaram a Convenção sobre Trabalho Forçado de 1930, estabelecida pela Organização Internacional do Trabalho.
Estados Unidos recorrem à Seção 301
O governo chinês criticou o uso da chamada Seção 301 da legislação comercial americana, mecanismo que permite aos Estados Unidos investigar práticas consideradas prejudiciais ao comércio do país e adotar medidas unilaterais como resposta.
Pequim avalia que Washington voltou a recorrer ao dispositivo para criar uma justificativa interna para a aplicação de tarifas adicionais.
A Seção 301 já foi utilizada anteriormente em disputas comerciais entre Estados Unidos e China. O instrumento ganhou destaque especialmente durante as rodadas de tarifas aplicadas pelo governo Trump sobre produtos chineses.
Na avaliação de Pequim, o governo americano utiliza acusações relacionadas a direitos trabalhistas, segurança nacional e concorrência desleal para limitar a presença internacional de empresas chinesas.
Apesar das críticas, a China indicou que ainda pretende manter canais de negociação abertos com Washington. O Ministério do Comércio defendeu conversas baseadas em “respeito mútuo, igualdade e benefício mútuo”.
Tarifa de 12,5% ainda permite manutenção da trégua
De acordo com o governo chinês, os Estados Unidos haviam se comprometido, em negociações anteriores, a limitar possíveis tarifas adicionais a 20%.
Como a nova alíquota aplicada aos produtos chineses foi estabelecida em 12,5%, Pequim entende que ainda existe espaço para preservar a trégua comercial e continuar as negociações.
A intenção é evitar uma escalada que possa prejudicar ainda mais as cadeias internacionais de produção e aumentar os custos para empresas e consumidores.
As discussões ganham importância diante da possível visita de Xi Jinping a Washington, prevista para setembro. Um eventual encontro com Donald Trump poderá tratar das tarifas, das restrições tecnológicas e de outros pontos de tensão entre os dois países.
A relação entre Estados Unidos e China alterna períodos de negociação e confronto. Mesmo sendo grandes parceiros comerciais, as duas potências disputam influência econômica, tecnológica, diplomática e militar em diferentes regiões do mundo.
Inteligência artificial amplia confronto entre China e EUA
Além das tarifas, Pequim criticou a possibilidade de os Estados Unidos abrirem uma investigação sobre o setor chinês de inteligência artificial.
O governo chinês acusou Washington de promover um “hegemonismo por IA” e utilizar medidas unilaterais para tentar conter o desenvolvimento tecnológico de empresas chinesas.
Pequim também condenou as ameaças de sanções contra companhias do setor e afirmou que acompanhará os próximos movimentos do governo americano.
Segundo as autoridades chinesas, o país está preparado para adotar “todas as medidas necessárias” para proteger os direitos e os interesses de suas empresas.
A inteligência artificial tornou-se uma das principais frentes da disputa entre as duas potências. Estados Unidos e China competem pelo desenvolvimento de modelos avançados, pela fabricação de semicondutores e pelo controle das infraestruturas necessárias para processar grandes volumes de informações.
Restrições americanas à exportação de chips e equipamentos já atingem empresas chinesas. Washington argumenta que as medidas são necessárias para proteger a segurança nacional, enquanto Pequim as classifica como tentativas de impedir seu crescimento tecnológico.
Xi Jinping manifesta apoio político ao Brasil
A reação chinesa às tarifas ocorre simultaneamente a uma aproximação com o Brasil. Na conversa telefônica realizada no domingo, Xi Jinping afirmou a Lula que valoriza o papel internacional brasileiro.
O presidente chinês assegurou apoio político ao país “na defesa de sua soberania e independência” e na oposição a interferências externas.
Xi também destacou a contribuição brasileira para a paz e a estabilidade regional e mundial. Segundo Pequim, diante das novas circunstâncias internacionais, Brasil e China devem permanecer “do lado certo da história”.
A manifestação acontece em um momento de tensão entre o Governo brasileiro e a administração Trump. O Brasil também foi atingido pela tarifa de 12,5%, elevando a preocupação de exportadores que dependem do mercado americano.
Embora a nota divulgada pelo Palácio do Planalto não tenha citado diretamente o novo pacote tarifário, o momento da conversa evidencia a importância estratégica da relação com a China.
Brasil e China discutem acordo com o Mercosul
Durante o telefonema, Lula e Xi concordaram sobre a urgência de acelerar as discussões para a criação de um acordo comercial entre a China e o Mercosul.
A negociação deverá considerar flexibilidades necessárias para os integrantes do bloco sul-americano, formado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia.
A aproximação com a China pode abrir novos mercados para produtos brasileiros e reduzir parte da dependência em relação aos Estados Unidos. Também poderá ampliar a entrada de mercadorias, investimentos e tecnologias chinesas no continente.
O Palácio do Planalto informou que os dois presidentes trataram da implementação de sinergias entre os projetos nacionais de desenvolvimento dos dois países.
A expressão envolve áreas como infraestrutura, energia, indústria, tecnologia, agricultura e transição energética. A China já ocupa posição de destaque como parceira comercial brasileira e como destino de produtos como soja, minério de ferro, petróleo e carnes.
Diversificação ganha importância diante do protecionismo
Com a aplicação de novas tarifas, a diversificação dos destinos das exportações torna-se ainda mais importante para o Brasil.
Uma maior variedade de parceiros reduz a dependência de um único mercado e pode ajudar a amortecer os efeitos de disputas comerciais. Setores muito expostos aos Estados Unidos poderão buscar alternativas na Ásia, na Europa e em outros países da América Latina.
Ao mesmo tempo, uma aproximação excessiva com qualquer potência exige cautela. A ampliação do comércio com a China não elimina a importância econômica dos Estados Unidos, que continuam sendo um parceiro relevante do Brasil, especialmente para produtos industrializados e investimentos.
O desafio brasileiro será ampliar as possibilidades comerciais sem transformar a diversificação em uma nova dependência.
Um acordo com a China também precisará considerar os interesses dos demais integrantes do Mercosul e os possíveis efeitos sobre a indústria regional. Produtos chineses de menor custo podem beneficiar consumidores e empresas, mas também aumentar a concorrência enfrentada pelos fabricantes sul-americanos.
Tarifas aproximam politicamente China e Brasil
O novo pacote americano contribui para aproximar países atingidos pelas mesmas barreiras comerciais. Embora China e Brasil possuam estruturas econômicas e interesses diferentes, os dois governos compartilham críticas ao unilateralismo e ao protecionismo.
A ligação entre Lula e Xi demonstra que Pequim pretende utilizar o momento para reforçar sua presença na América Latina. Para o Brasil, a aproximação oferece oportunidades comerciais e diplomáticas em um cenário internacional marcado por disputas entre grandes potências.
China e Estados Unidos seguirão negociando para evitar uma escalada, mas os atritos relacionados a tarifas, inteligência artificial e semicondutores mostram que a rivalidade deve permanecer.
Para o Brasil, o confronto representa simultaneamente um risco e uma oportunidade. As tarifas podem prejudicar exportações destinadas aos Estados Unidos, mas também incentivar a abertura de novos mercados e acelerar as negociações com parceiros como a China.
