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Franco Baresi, símbolo da defesa italiana e lenda do Milan, morre aos 66 anos

Campeão mundial com a Azzurra em 1982, ex-zagueiro construiu toda a carreira no Milan e ficou marcado pela liderança, elegância e capacidade de comandar uma defesa como poucos na história.


O ex-zagueiro Franco Baresi, um dos maiores nomes da história do futebol italiano, morreu nesta sexta-feira (31), aos 66 anos. Ídolo do Milan e campeão mundial com a seleção da Itália, ele realizava tratamento oncológico desde 2025, quando passou por uma cirurgia para retirar um nódulo no pulmão.

A morte foi anunciada pelo próprio Milan nas redes sociais. Em uma publicação, o clube afirmou que toda a sua história estava de luto e destacou que o exemplo e a integridade do antigo capitão permanecerão para sempre no DNA da instituição.

Baresi dedicou toda a carreira profissional ao clube rossonero. Durante duas décadas, atravessou períodos de crise, rebaixamentos e reconstrução até se tornar o principal líder de uma das equipes mais dominantes já formadas no futebol europeu.

Com a camisa da seleção italiana, participou de três Copas do Mundo e subiu ao pódio em todas: foi campeão em 1982, terceiro colocado em 1990 e vice-campeão em 1994. Sua atuação na decisão contra o Brasil, poucos dias depois de uma cirurgia no joelho, tornou-se um dos capítulos mais emblemáticos da história dos Mundiais.


Milan anuncia morte de Franco Baresi

O Milan comunicou a morte de Baresi durante a manhã desta sexta-feira. O ex-jogador passava por tratamento contra o câncer desde o ano anterior, após a retirada de um nódulo pulmonar.

“Toda a história do Milan está em lágrimas com a morte de Franco Baresi. Seu exemplo e integridade estarão para sempre impressos no DNA do clube, assim como sua icônica camisa 6”, publicou a equipe italiana.

A relação entre Baresi e o Milan ultrapassou as quatro linhas. Depois de encerrar a carreira como jogador, ele continuou ligado à instituição e se tornou uma das principais referências públicas do clube.

Seu nome representa uma época na qual o Milan deixou de ser apenas uma potência italiana para se transformar em uma referência mundial. Baresi foi o capitão e o ponto de equilíbrio de uma equipe que reunia jogadores como Paolo Maldini, Alessandro Costacurta, Mauro Tassotti, Carlo Ancelotti, Ruud Gullit, Frank Rijkaard e Marco van Basten.


Uma carreira inteira dedicada ao Milan

Franco Baresi chegou às categorias de base do Milan ainda adolescente e estreou profissionalmente em 1978. Naquele momento, poucos poderiam imaginar que o jovem defensor permaneceria no clube por toda a carreira e se tornaria um de seus maiores símbolos.

Ao contrário de outras estrelas de sua geração, Baresi nunca defendeu outra equipe profissional. Mesmo durante os momentos mais difíceis da história milanista, incluindo duas passagens pela segunda divisão italiana, o zagueiro permaneceu no clube.

A fidelidade reforçou sua identificação com os torcedores. Baresi não foi apenas o capitão das grandes conquistas europeias. Ele também esteve presente durante a reconstrução que permitiu ao Milan retornar à elite e recuperar seu lugar entre os principais clubes do continente.

Com a camisa rossonera, conquistou seis títulos do Campeonato Italiano e três edições da Copa dos Campeões da Europa, atual Champions League, além de taças intercontinentais, supercopas europeias e títulos nacionais.

O reconhecimento foi tão grande que o Milan aposentou a camisa 6 depois de sua despedida dos gramados. O número tornou-se inseparável da imagem do capitão que liderava a defesa e organizava o time a partir do campo defensivo.


O defensor que transformou a posição em arte

Baresi não tinha o porte físico normalmente associado aos grandes zagueiros. Com aproximadamente 1,76 metro de altura, compensava a ausência de estatura com uma combinação rara de inteligência, velocidade, antecipação e precisão técnica.

Sua maior qualidade era a leitura do jogo. Baresi identificava uma jogada antes que ela se desenvolvesse completamente. Em vez de depender apenas da força física, posicionava-se para interceptar passes, fechar espaços e obrigar os adversários a escolher caminhos menos perigosos.

Também era um defensor extremamente limpo. Seus desarmes tinham precisão e, muitas vezes, aconteciam no último instante. Ele sabia exatamente quando avançar, quando recuar e quando abandonar a linha defensiva para enfrentar o atacante.

Na função de líbero, Baresi não se limitava a proteger a área. Depois de recuperar a bola, tinha qualidade para iniciar as jogadas, avançar em direção ao meio-campo e encontrar companheiros com passes precisos.

Era, ao mesmo tempo, o último defensor e o primeiro organizador da equipe.

Essa característica tornou Baresi fundamental para o Milan comandado por Arrigo Sacchi. A equipe italiana ficou conhecida pela marcação por zona, pela compactação e pela linha defensiva adiantada. Para que o sistema funcionasse, era necessário ter um líder capaz de interpretar rapidamente cada movimento do adversário.

Baresi comandava os companheiros, determinava o momento de avançar e deixava atacantes em posição de impedimento. Sua coordenação com Maldini, Costacurta e Tassotti ajudou a formar uma das defesas mais celebradas da história do futebol.


A história de Franco Baresi com a Azzurra

Franco Baresi disputou 81 partidas pela seleção italiana, número registrado pela Federação Italiana de Futebol. Apesar do prestígio adquirido ainda jovem, sua consolidação como titular da Azzurra demorou a acontecer.

O zagueiro fez parte do elenco campeão da Copa do Mundo de 1982, disputada na Espanha. No entanto, não entrou em campo durante a competição. O técnico Enzo Bearzot contava com uma defesa experiente, formada por jogadores como Gaetano Scirea, Claudio Gentile, Fulvio Collovati e Giuseppe Bergomi.

Baresi acompanhou do banco a campanha que terminou com a vitória italiana sobre a Alemanha Ocidental na final. Mesmo sem atuar, passou a integrar oficialmente o grupo de campeões mundiais.

A afirmação na seleção aconteceu durante o ciclo seguinte. Com a chegada do técnico Azeglio Vicini, Baresi passou a atuar em sua posição preferida, como líbero, e tornou-se uma das principais referências do time.

Sua capacidade de organizar o sistema defensivo fez com que a Itália voltasse a construir sua identidade ao redor de uma defesa forte, mas tecnicamente qualificada. Baresi não era apenas um marcador: ele comandava o posicionamento, iniciava as jogadas e transmitia segurança aos companheiros.


Copa de 1990 terminou com frustração dentro de casa

Na Copa do Mundo de 1990, realizada na Itália, Baresi chegou ao torneio como um dos melhores defensores do planeta. A Azzurra era uma das favoritas ao título e contava com uma geração que reunia nomes como Paolo Maldini, Giuseppe Bergomi, Roberto Donadoni, Gianluca Vialli, Roberto Baggio e Salvatore Schillaci.

A seleção italiana avançou até a semifinal com uma campanha marcada pela solidez defensiva. Baresi comandava o setor com a mesma autoridade apresentada no Milan.

Na semifinal contra a Argentina, em Nápoles, a Itália saiu na frente, mas sofreu o empate e acabou eliminada nos pênaltis. Baresi converteu sua cobrança, mas os argentinos venceram a disputa.

A equipe ainda derrotou a Inglaterra na decisão do terceiro lugar. Para Baresi, a medalha de bronze não apagou a frustração de perder a oportunidade de disputar uma final de Copa diante da própria torcida.

Ainda assim, sua atuação no torneio consolidou definitivamente sua imagem como um dos maiores líberos da história da seleção italiana.


Retorno histórico marcou a Copa do Mundo de 1994

A participação de Baresi na Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, tornou-se a passagem mais dramática de sua trajetória com a Azzurra.

Capitão da seleção comandada por Arrigo Sacchi, ele sofreu uma lesão no joelho durante a partida contra a Noruega, ainda na fase de grupos. A gravidade do problema levou Baresi a passar por uma cirurgia no dia 25 de junho.

A expectativa inicial era de que sua participação no Mundial tivesse terminado. Enquanto a Itália avançava pelas fases eliminatórias, o capitão iniciou uma recuperação acelerada, embora nem ele acreditasse que teria condições de retornar ao torneio.

A seleção superou Nigéria, Espanha e Bulgária até garantir uma vaga na decisão contra o Brasil. Em uma recuperação considerada extraordinária, Baresi voltou a campo na final em 17 de julho, pouco mais de três semanas depois da cirurgia.

Mesmo sem estar completamente recuperado, jogou os 120 minutos da decisão. O Brasil contava com uma dupla de ataque formada por Romário e Bebeto, mas a defesa italiana conseguiu segurar o empate por 0 a 0.

Baresi realizou uma atuação quase impecável. O capitão compensou as limitações físicas com posicionamento, inteligência e desarmes decisivos. Em um dos lances mais lembrados, impediu uma oportunidade brasileira já na prorrogação com uma intervenção precisa dentro da área.

A própria Fifa recorda a atuação como uma demonstração de coragem e domínio defensivo, destacando a recuperação do capitão após a cirurgia e o desempenho contra o Brasil.


Pênalti perdido não diminuiu atuação histórica

Depois de 120 minutos sem gols, o título mundial de 1994 foi decidido nos pênaltis. Baresi foi o primeiro cobrador da Itália e mandou a bola por cima do gol defendido por Taffarel.

Daniele Massaro também desperdiçou sua cobrança, defendida pelo goleiro brasileiro. Mais tarde, Roberto Baggio chutou por cima e confirmou o tetracampeonato do Brasil.

A imagem de Baresi chorando após a derrota tornou-se uma das mais marcantes daquela Copa. O pênalti perdido, entretanto, não apagou a dimensão de sua atuação.

O fato de ter retornado tão rapidamente de uma cirurgia e comandado a defesa italiana durante toda a final transformou aquela partida em um símbolo de sua carreira. Mesmo derrotado, o capitão deixou o gramado reconhecido como um dos melhores jogadores da decisão.

Baresi classificaria posteriormente a recuperação como algo que ainda parecia inacreditável. Em entrevista à Fifa, admitiu que não estava em condição física plena, mas acreditava que poderia ajudar a seleção.


Três Copas do Mundo e três lugares no pódio

A trajetória de Baresi nos Mundiais possui uma característica incomum. Ele participou de três edições e terminou todas entre os três primeiros colocados.

Em 1982, integrou o elenco campeão na Espanha, embora não tenha entrado em campo. Em 1990, liderou a defesa da equipe que ficou com a terceira colocação. Quatro anos depois, foi o capitão da seleção vice-campeã nos Estados Unidos.

A sequência resume diferentes fases de sua relação com a Azzurra. Baresi começou como um jovem reserva em um time repleto de defensores consagrados. Depois, tornou-se titular, líder técnico e, por fim, capitão da seleção.

Sua passagem pela equipe nacional foi encerrada em 1994. Ao todo, disputou 81 partidas com a camisa azul, marca confirmada nos registros históricos da federação italiana.


Legado ultrapassa títulos conquistados

Os números ajudam a explicar a grandeza de Franco Baresi, mas não resumem completamente sua influência. O defensor ajudou a mudar a forma como a posição era observada.

Baresi provou que um zagueiro poderia comandar o jogo sem precisar ser o mais alto ou o mais forte em campo. Sua superioridade estava na tomada de decisão, na capacidade de antecipar movimentos e na compreensão coletiva da partida.

Também representou uma escola italiana de defesa que não se limitava a recuar e bloquear ataques. Baresi defendia avançando, diminuindo espaços e mantendo o time compacto. Quando recuperava a bola, transformava rapidamente uma ação defensiva no início de uma jogada ofensiva.

Sua liderança era exercida mais pelo comportamento do que pelos discursos. Reservado fora de campo, tornava-se uma figura dominante durante as partidas, orientando os companheiros e assumindo a responsabilidade nos momentos mais difíceis.

Para o Milan, foi capitão, símbolo e referência institucional. Para a seleção italiana, representou a continuidade entre a geração campeã de 1982 e o grupo que chegou à final de 1994.

Com sua morte, o futebol perde um dos maiores defensores que já produziu. Permanece, entretanto, a imagem do capitão com a camisa 6, conduzindo a linha defensiva do Milan e antecipando jogadas como se enxergasse o futebol alguns segundos antes de todos os outros.