Proposta estabelece armazenamento de armas sob supervisão palestina, desmobilização de grupos armados e transferência da segurança para uma força internacional. Israel ainda não confirmou oficialmente a adesão ao acordo.
O Hamas confirmou nesta sexta-feira (31) que aceitou um plano para o desarmamento do grupo e a retirada gradual das forças israelenses da Faixa de Gaza. O entendimento é apresentado pelos mediadores como um possível primeiro passo para encerrar definitivamente uma guerra que se aproxima dos três anos.
O acordo foi anunciado na noite de quinta-feira (30) pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que classificou a decisão como um “acordo histórico” e um avanço em direção à paz e à segurança na região.
A proposta prevê que as armas pesadas ainda mantidas pelo Hamas e por outros grupos palestinos sejam identificadas e armazenadas sob supervisão de uma autoridade palestina. O processo ocorreria em etapas e seria acompanhado pela retirada progressiva das tropas de Israel.
O território passaria gradualmente para o controle do Comitê Nacional para a Administração de Gaza, conhecido pela sigla NCAG. Uma Força Internacional de Estabilização também seria mobilizada para apoiar uma nova polícia palestina e assumir responsabilidades relacionadas à segurança.
Apesar do anúncio americano e da confirmação do Hamas, o governo israelense ainda não apresentou uma resposta oficial. Uma fonte política de Israel afirmou que a proposta não atenderia completamente às exigências israelenses para a desmilitarização de Gaza.
Hamas confirma aceitação do plano
Ghazi Hamad, um dos negociadores do Hamas, confirmou que o movimento aceitou o plano durante as conversas mediadas por países da região. Outras duas fontes do alto escalão do grupo também reconheceram a existência do acordo.
Segundo Hamad, o Hamas decidiu fazer concessões para tentar proteger os moradores da Faixa de Gaza diante das mortes, do deslocamento em massa e da destruição provocada pela guerra.
O negociador afirmou que Israel não participará diretamente da fiscalização do desarmamento. Essa responsabilidade ficaria com o Comitê Nacional para a Administração de Gaza, uma estrutura palestina criada para assumir gradualmente a gestão do território.
A formulação foi considerada importante para que o Hamas aceitasse avançar nas negociações. O grupo rejeitava a possibilidade de entregar suas armas diretamente ao governo ou às forças militares israelenses.
O Hamas também condicionou o cumprimento de suas obrigações à execução dos compromissos assumidos por Israel. Para o movimento, os mediadores internacionais e o Conselho da Paz precisarão garantir que a retirada militar israelense aconteça conforme o cronograma estabelecido.
Desarmamento será realizado em diferentes etapas
O esboço do plano possui quatro páginas e apresenta um processo dividido em fases. O texto vincula cada avanço no desarmamento dos grupos palestinos a uma nova etapa da retirada das tropas israelenses.
A proposta teria sido construída a partir de uma lógica de desconfiança mútua e verificação constante. Nenhuma das partes avançaria para a etapa seguinte antes que o cumprimento das obrigações anteriores fosse confirmado.
Inicialmente, grupos armados menores que atuam na Faixa de Gaza seriam desmobilizados. Somente depois desse processo começaria o desmantelamento da estrutura militar mais ampla do Hamas.
Essa fase envolveria o inventário e o armazenamento das armas pesadas, além da desativação de túneis, depósitos, centros de produção de armamentos e outras instalações utilizadas pelo braço armado do movimento.
As autoridades envolvidas nas negociações reconhecem que o processo será demorado. O Hamas construiu durante anos uma infraestrutura militar subterrânea e mantém diferentes tipos de armamentos espalhados pelo território.
Ao final das etapas previstas, uma nova autoridade palestina deverá exercer controle exclusivo sobre as armas e as forças de segurança em Gaza.
Hamas rejeitou entrega direta de armas a Israel
As negociações foram descritas por um dirigente do Hamas como “longas e extremamente difíceis”. Um dos pontos mais sensíveis envolveu a maneira como o desarmamento seria apresentado e executado.
O grupo insistiu na utilização da expressão “inventário e armazenamento de armas”, em vez de aceitar uma entrega direta ao Exército israelense.
Com essa formulação, os armamentos seriam catalogados, retirados de circulação e armazenados sob supervisão palestina. O Hamas considera que a medida impediria Israel de controlar unilateralmente o processo.
Para o governo israelense, entretanto, o armazenamento pode não ser suficiente. Israel exige a desmilitarização completa de Gaza e o fim da capacidade do Hamas de reconstruir sua estrutura armada.
A ausência de uma resposta oficial israelense mantém dúvidas sobre a possibilidade de implementação do roteiro. Também não está claro quais mecanismos serão utilizados para verificar se todas as armas foram declaradas e retiradas de circulação.
Retirada israelense dependerá do cumprimento do acordo
O plano estabelece que as forças israelenses deverão deixar progressivamente a Faixa de Gaza à medida que o desarmamento for confirmado.
Israel ainda controla mais de 60% do território, segundo as informações apresentadas durante as negociações. A presença militar israelense está entre os principais pontos de conflito na segunda fase do cessar-fogo.
O governo de Benjamin Netanyahu defende que qualquer retirada seja condicionada ao fim da estrutura militar do Hamas e de outros grupos palestinos. Israel também exige garantias de que Gaza não volte a representar uma ameaça à sua segurança.
Pelo roteiro anunciado por Trump, cada etapa do desarmamento seria acompanhada por uma redução correspondente da presença militar israelense. A verificação ficaria sob responsabilidade dos mediadores e das estruturas internacionais envolvidas no acordo.
Depois da saída das tropas, a segurança deverá ser assumida por uma nova polícia palestina, com o apoio da Força Internacional de Estabilização.
Israel ainda não confirmou participação no entendimento
Embora o Hamas e o governo americano tenham anunciado avanços, Israel ainda não reagiu oficialmente ao acordo.
Uma fonte política israelense afirmou que a proposta não soluciona de maneira satisfatória todas as exigências de Israel relacionadas à desmilitarização de Gaza. Segundo essa avaliação, o armazenamento dos armamentos pode não representar um desarmamento definitivo.
A mesma fonte declarou que o conteúdo do acordo não foi discutido no encontro entre Donald Trump e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, realizado na Casa Branca.
A ausência de uma manifestação do governo israelense impede que o entendimento seja tratado como uma solução definitiva. Para entrar em vigor, o roteiro dependerá da aceitação prática das condições por todas as partes.
Israel também deverá avaliar a composição da força internacional, o modelo da futura administração palestina e os mecanismos utilizados para impedir que o Hamas volte a produzir ou adquirir armamentos.
Trump classifica anúncio como acordo histórico
Donald Trump comemorou o avanço por meio da rede social Truth Social. O presidente americano chamou o entendimento de “acordo histórico” e de “passo monumental” para a construção de uma paz duradoura.
Segundo Trump, a execução ocorrerá em fases cuidadosamente estruturadas. Conforme o desarmamento avançar, as forças israelenses deverão se retirar e permitir que a nova estrutura de segurança assuma o território.
O presidente também agradeceu aos mediadores do Egito, Catar e Turquia, países que participam das discussões sobre o cessar-fogo e a reconstrução da Faixa de Gaza.
Trump afirmou que o acordo integra seu Plano de 20 Pontos para Gaza. A proposta busca encerrar a guerra, desarmar os grupos palestinos, retirar as tropas israelenses e estabelecer uma administração de transição.
O governo americano considera o desarmamento do Hamas uma etapa indispensável para permitir a instalação de um novo governo palestino no território.
Conselho da Paz acompanhará implementação
O Conselho da Paz, estrutura criada por Trump para acompanhar a manutenção do cessar-fogo e a reconstrução de Gaza, também confirmou a aceitação do roteiro pelo Hamas.
Segundo o órgão, o movimento concordou com um plano detalhado para implementar as próximas etapas do cessar-fogo. A prioridade agora será transformar os compromissos políticos em medidas práticas.
O conselho deverá acompanhar o cumprimento das obrigações assumidas pelo Hamas e por Israel. Também será responsável pela coordenação da Força Internacional de Estabilização.
A estrutura internacional reunirá tropas de diferentes países e atuará ao lado de uma nova força policial palestina. Israel autorizou a entrada da organização no domingo (25), mas os detalhes da operação ainda estão sendo definidos.
O conselho também deverá participar do processo de reconstrução de Gaza, devastada pelos combates, ataques aéreos e operações terrestres.
Nova autoridade palestina assumirá administração de Gaza
O plano prevê que o Comitê Nacional para a Administração de Gaza assuma gradualmente as responsabilidades civis e administrativas no território.
No início de julho, o Hamas anunciou a dissolução do comitê que administrava os assuntos civis de Gaza desde 2007. O movimento declarou que pretendia transferir essas funções para o NCAG.
A mudança busca separar a administração pública da estrutura política e militar do Hamas. O novo órgão deverá controlar serviços essenciais, organizar a reconstrução e coordenar o atendimento à população.
Com o avanço do plano, o comitê também assumiria responsabilidades relacionadas à segurança e à fiscalização das armas armazenadas.
A proposta pretende estabelecer uma autoridade palestina de transição até que seja definida uma solução política permanente para o governo da Faixa de Gaza.
Nova liderança do Hamas apoiou decisão
A aceitação do plano ocorreu pouco depois da conclusão do processo de escolha da nova liderança do Hamas.
Khalil al-Hayya, baseado em Gaza, assumiu o comando do movimento no lugar de Yahya Sinwar, morto em uma operação israelense em outubro de 2024.
Autoridades palestinas envolvidas nas negociações acreditam que a nova direção estava disposta a tomar uma das decisões políticas mais importantes da história do grupo.
O Hamas controla a Faixa de Gaza desde 2007 e construiu sua identidade em torno da resistência armada contra Israel. Aceitar a desmobilização de sua estrutura militar representa uma mudança profunda na trajetória do movimento.
A decisão teria sido motivada principalmente pelas condições humanitárias enfrentadas pelos mais de 2 milhões de palestinos que vivem em Gaza.
Situação humanitária influenciou concessões
A guerra provocou destruição em grande parte da Faixa de Gaza, deslocou famílias repetidas vezes e comprometeu o funcionamento de hospitais, escolas, redes de abastecimento e outros serviços essenciais.
Ghazi Hamad afirmou que o Hamas aceitou fazer concessões para tentar salvar a população da morte e de novos deslocamentos.
A continuidade dos combates aumentava o risco de uma crise humanitária ainda mais grave. A reconstrução também permanecia inviável enquanto não houvesse uma estrutura política e de segurança reconhecida pelas partes.
O plano tenta combinar o fim da capacidade militar do Hamas com a retirada israelense, a criação de uma administração palestina e o início da reconstrução.
Mesmo assim, ainda não há garantia de que o entendimento produzirá uma melhora imediata nas condições de vida da população.
População de Gaza reage com desconfiança
O anúncio foi recebido com pouca empolgação por moradores da Faixa de Gaza. Depois de anos de cessar-fogos interrompidos e acordos que não conseguiram encerrar a violência, muitos palestinos demonstram ceticismo.
Para parte da população, os detalhes técnicos do desarmamento são menos importantes do que os resultados concretos do acordo.
Os moradores querem saber se os ataques realmente terminarão, se as famílias deslocadas poderão voltar para casa e se haverá acesso permanente a alimentos, água, medicamentos e energia.
A confiança no Hamas e no governo de Israel permanece baixa. Acordos anteriores fracassaram antes de produzir mudanças duradouras na rotina da população.
O impacto real do novo plano dependerá, portanto, não apenas de anúncios políticos, mas do fim dos combates e da retomada efetiva dos serviços básicos.
Negociações avançaram durante reuniões no Egito
As conversas para implementar a segunda fase do cessar-fogo aconteciam há semanas no Egito.
O desarmamento do Hamas era considerado um dos principais obstáculos para transformar a trégua em um acordo permanente. Israel se recusava a retirar suas forças sem garantias de desmilitarização, enquanto o grupo palestino rejeitava abandonar suas armas antes da saída israelense.
O novo roteiro tenta resolver esse impasse por meio de ações simultâneas e verificadas. Cada lado deverá cumprir uma parte de suas obrigações antes de receber a contrapartida prevista.
O Cairo deverá sediar uma nova reunião dos mediadores para discutir a implementação da segunda fase. Egito, Catar e Turquia devem continuar participando da fiscalização política do acordo.
Plano pode abrir caminho para o fim da guerra
Caso seja implementado, o acordo poderá remover o principal obstáculo para o encerramento definitivo da guerra em Gaza.
O desarmamento completo do Hamas era uma exigência central de Israel. A retirada das tropas israelenses, por outro lado, estava entre as principais demandas do grupo palestino e dos mediadores.
A criação de uma autoridade de transição e de uma força internacional busca impedir que o vácuo de poder resulte no retorno dos combates ou no surgimento de novas organizações armadas.
O plano ainda precisará superar divergências sobre a definição de desarmamento, a fiscalização dos arsenais, o futuro dos integrantes do Hamas e a composição do governo palestino.
A falta de uma confirmação oficial de Israel também recomenda cautela. O anúncio representa um avanço político significativo, mas ainda não significa que a guerra terminou.
O sucesso dependerá do cumprimento gradual dos compromissos, da atuação dos mediadores e da capacidade das partes de manter o entendimento diante da desconfiança acumulada durante anos de conflito.
