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Exército israelense reconhece disparos contra carro onde estava Hind Rajab

Palestina de 5 anos pediu ajuda por telefone após familiares serem mortos dentro do veículo em Gaza; caso será alvo de investigação criminal e ganhou repercussão internacional


As Forças Armadas de Israel reconheceram, nesta quarta-feira (19), que soldados israelenses atiraram contra o carro onde estava Hind Rajab, uma palestina de 5 anos morta em fevereiro de 2024 durante uma ofensiva na Faixa de Gaza.

A admissão faz parte de um relatório militar que concluiu análises sobre 150 incidentes envolvendo a conduta das tropas israelenses no território palestino. Depois da avaliação, Israel decidiu abrir investigações criminais sobre cinco casos, incluindo a morte de Hind e o ataque que matou 15 socorristas palestinos em Rafah.

Hind estava em um veículo com quatro primos e seus tios enquanto a família tentava deixar a Cidade de Gaza. O carro foi atingido por disparos efetuados por tropas israelenses.

Após sobreviver ao ataque inicial, a criança entrou em contato com o Crescente Vermelho Palestino e pediu ajuda durante várias ligações. O contato acabou sendo perdido enquanto a entidade tentava conseguir autorização dos militares para enviar uma equipe de resgate.

Hind, seus familiares e dois socorristas foram encontrados mortos 12 dias depois.


Israel confirma que soldados atiraram no veículo

No relatório, as Forças de Defesa de Israel reconheceram que seus militares abriram fogo contra o carro da família de Hind.

Segundo o comunicado, o veículo teria se aproximado na direção oposta à rota de retirada anunciada anteriormente aos moradores da região.

“As investigações revelaram que as forças da IDF atiraram em um veículo que se aproximava na direção oposta à evacuação anunciada em um comunicado preliminar do porta-voz da IDF aos moradores da região”, informou o Exército israelense.

O comunicado acrescentou que o veículo pertencia à família Hamada e que cinco ocupantes morreram durante os primeiros disparos.

Hind e sua prima Layan Hamada, de 15 anos, teriam sobrevivido ao ataque inicial, mas ambas foram posteriormente encontradas mortas.

O reconhecimento representa uma mudança importante no tratamento dado ao caso, que durante mais de dois anos foi alvo de cobranças internacionais e pedidos por uma investigação independente.


Família tentava fugir da Cidade de Gaza

O episódio aconteceu em fevereiro de 2024, quando a família tentava fugir da Cidade de Gaza em meio à ofensiva militar israelense.

Hind estava dentro do carro acompanhada dos tios e de quatro primos. Durante o deslocamento, o veículo foi atingido por diversos disparos.

A família buscava deixar uma área afetada pelos combates e pelas ordens de evacuação emitidas durante a operação militar.

O relatório israelense afirma que o veículo seguia em direção contrária à retirada anunciada, mas não esclarece se os ocupantes representavam alguma ameaça aos soldados.

A admissão de que as tropas efetuaram os disparos deverá ser analisada durante a investigação criminal anunciada pelas autoridades militares.


Prima de Hind ligou para pedir socorro

A primeira ligação para o serviço de emergência foi realizada por Layan Hamada, prima de Hind, que tinha 15 anos.

Durante a chamada ao Crescente Vermelho Palestino, a adolescente afirmou que um tanque israelense se aproximava do veículo e que integrantes de sua família haviam sido mortos.

Segundos depois, novos disparos foram registrados na gravação. Os gritos de Layan cessaram e a ligação foi interrompida.

A gravação se tornou uma das principais evidências públicas sobre os momentos vividos pela família dentro do carro.

Depois da morte de Layan, Hind permaneceu sozinha entre os corpos dos parentes e continuou pedindo ajuda pelo telefone.


Hind permaneceu em contato com socorristas

O Crescente Vermelho Palestino conseguiu manter contato com Hind enquanto tentava organizar uma operação de resgate.

A menina informou que estava presa no veículo e pediu que alguém fosse buscá-la. Durante as ligações, os atendentes tentaram acalmá-la e permanecer na linha.

A organização afirmou que precisava de autorização e garantias de segurança das forças israelenses antes de enviar uma ambulância ao local.

O contato com Hind foi perdido antes que o resgate conseguisse alcançá-la.

A criança e seus cinco parentes foram encontrados mortos 12 dias depois. Os corpos de dois socorristas enviados para a operação também foram localizados.

A demora para chegar ao veículo e a morte da equipe de emergência aumentaram os questionamentos sobre as circunstâncias do episódio.


Investigação criminal será aberta

As Forças Armadas de Israel anunciaram que o caso será encaminhado para uma investigação criminal.

O procedimento deverá analisar a atuação dos militares, as circunstâncias dos disparos, as informações disponíveis sobre o veículo e a tentativa de resgate da criança.

A apuração também deverá esclarecer por que uma ambulância enviada para buscar Hind foi atingida e por que os socorristas morreram.

A abertura da investigação não significa que os militares envolvidos já tenham sido responsabilizados ou considerados culpados.

O relatório publicado nesta quarta-feira representa uma análise inicial da conduta das tropas. Caberá à investigação criminal determinar se houve violação das normas militares ou das regras aplicáveis aos conflitos armados.


Caso ganhou repercussão internacional

A morte de Hind Rajab tornou-se um dos episódios mais conhecidos da guerra na Faixa de Gaza.

As gravações das ligações, nas quais a criança pede socorro enquanto permanece dentro do veículo, foram divulgadas internacionalmente e provocaram cobranças por esclarecimentos.

O rosto de Hind passou a ser utilizado em manifestações e homenagens realizadas em diferentes países. Em janeiro de 2026, um retrato da criança foi colocado em uma praia de Barcelona, na Espanha.

A história também foi transformada em filme e recebeu uma das maiores manifestações de aplausos do Festival de Veneza.

A produção ajudou a ampliar a repercussão do caso e levou as últimas horas da criança para um público internacional.


Israel também investigará morte de socorristas

Além do caso de Hind Rajab, Israel decidiu abrir uma investigação criminal sobre a morte de 15 socorristas palestinos em Rafah, no sul da Faixa de Gaza.

O ataque ocorreu em maio de 2025, quando tropas israelenses dispararam contra veículos de emergência.

Segundo as informações divulgadas, uma primeira ambulância seguia para atender vítimas de uma ofensiva israelense quando foi atingida.

Outros veículos do Crescente Vermelho Palestino e da Defesa Civil saíram em busca da primeira equipe e também foram atacados.

Os corpos e os veículos destruídos foram posteriormente enterrados em uma vala comum. As Nações Unidas e equipes de resgate conseguiram chegar ao local apenas uma semana depois.


Imagens contestaram versão inicial

Inicialmente, o Exército israelense afirmou que os veículos de emergência avançavam de forma suspeita em direção aos militares.

As forças também alegaram que as ambulâncias estavam sem faróis e sem os sinais de emergência ligados.

A versão foi contestada depois da divulgação de imagens registradas por um celular.

Os vídeos mostravam os veículos trafegando lentamente, com as luzes de emergência acionadas e os símbolos das organizações de resgate visíveis.

As imagens entraram em conflito com a explicação apresentada inicialmente pelas forças israelenses e aumentaram a pressão por uma investigação criminal.

O único sobrevivente do ataque também forneceu um relato sobre a sequência dos disparos e a atuação dos militares no local.


Crescente Vermelho cobra respeito ao direito internacional

O porta-voz do Crescente Vermelho Palestino, Eid Azizi, afirmou que as imagens e demais evidências já demonstram o que aconteceu com os socorristas.

“Não temos a obrigação de provar a verdade, pois ela já está provada para o mundo todo”, declarou à Associated Press.

Segundo Azizi, o episódio poderia ter sido evitado se as tropas israelenses tivessem respeitado as regras de proteção aos serviços médicos e de emergência.

Equipes de saúde, ambulâncias e socorristas possuem proteção especial pelo direito internacional humanitário, desde que não estejam sendo utilizados para finalidades militares.

A organização afirma que seus profissionais estavam devidamente identificados e atuavam em uma operação de emergência.


Outros episódios ficaram fora do comunicado

O relatório não apresentou conclusões sobre outras mortes de grande repercussão que as autoridades militares israelenses haviam prometido investigar.

Entre os episódios não mencionados estão ataques contra um hospital no sul de Gaza que mataram cinco jornalistas em agosto de 2025.

Uma das vítimas foi Mariam Dagga, fotojornalista que trabalhava como freelancer para a Associated Press e outros veículos de comunicação.

Os militares também informaram que não abrirão investigações criminais sobre três ataques que mataram trabalhadores humanitários da World Central Kitchen e da organização Médicos Sem Fronteiras.

A decisão indica que, entre os 150 incidentes analisados, apenas uma parcela limitada seguirá para investigações criminais.


Apuração ainda não tem resultado definitivo

As investigações anunciadas poderão analisar as responsabilidades individuais e as decisões tomadas pelos militares nos casos de Hind Rajab e dos 15 socorristas.

Ainda não existe prazo divulgado para a conclusão dos procedimentos.

Também não foram informados os nomes dos soldados ou comandantes que poderão ser investigados.

A admissão dos disparos confirma um elemento central do caso de Hind, mas ainda não esclarece toda a sequência que terminou com a morte da criança, de seus parentes e dos socorristas.

As conclusões dependerão do acesso aos registros operacionais, às comunicações militares e às evidências reunidas pelas equipes palestinas e por organizações internacionais.