Previsões apontam até 69% de probabilidade de o fenômeno alcançar intensidade recorde desde 1950, com impactos esperados sobre chuvas, secas e temperaturas em diferentes regiões do país.
El Niño ganha força e entra no radar dos cientistas
O El Niño que está se formando no Oceano Pacífico pode se tornar um dos mais intensos já registrados, segundo projeções divulgadas pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).
A nova previsão aponta probabilidade igual ou superior a 90% de ocorrência de um El Niño classificado como muito forte nos períodos entre setembro e janeiro. Além disso, existe 69% de probabilidade de que o episódio seja o mais intenso registrado desde 1950.
Em um cenário de maior intensidade, as águas do Pacífico Tropical podem apresentar uma anomalia de temperatura de 2,5°C ou mais acima da média.
O fenômeno deve persistir pelo menos até março de 2027, segundo a previsão apresentada pela NOAA.
O que é o El Niño
O El Niño ocorre quando há um aquecimento persistente e acima da média das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical.
Em condições normais, os ventos alísios empurram as águas mais quentes do Pacífico em direção à região da Indonésia, enquanto correntes frias chegam à superfície na costa oeste da América do Sul.
Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem e permitem que uma quantidade maior de água quente se desloque para o leste.
Essa mudança no oceano altera a circulação atmosférica em grande escala e pode modificar o regime de chuvas e temperaturas em regiões muito distantes do Pacífico.
Por isso, um fenômeno que começa no oceano pode provocar secas, enchentes, ondas de calor e outros eventos extremos em diferentes partes do planeta.
Brasil pode sentir efeitos diferentes em cada região
Os impactos do El Niño não são iguais em todo o território brasileiro.
Historicamente, o fenômeno tende a favorecer chuvas acima da média na Região Sul, enquanto pode provocar períodos mais secos e chuvas irregulares em partes do Norte e do Nordeste.
A previsão atual da NOAA indica justamente esse cenário.
A partir de outubro, são esperadas chuvas acima da média no Sul do Brasil, enquanto as regiões Norte e Nordeste podem registrar chuvas mais irregulares, com volumes abaixo da média em determinadas áreas.
Os primeiros efeitos do atual episódio já teriam sido observados no Sul. Segundo a previsão, as chuvas registradas em julho ficaram entre 30% e 90% acima da média, dependendo da localidade.
Fenômeno pode atingir intensidade excepcional
A possibilidade de um “Super El Niño” preocupa os pesquisadores porque episódios muito intensos estão associados a alterações mais significativas nos padrões climáticos.
A NOAA estima uma probabilidade de pelo menos 90% de que o fenômeno alcance a categoria de El Niño Muito Forte durante os próximos trimestres.
A projeção de 69% de chance de que seja o episódio mais intenso desde 1950 coloca o atual fenômeno entre os principais eventos já observados desde o início das séries modernas de monitoramento.
As temperaturas das águas do Pacífico podem atingir anomalias de 2,5°C ou superiores, um nível associado a eventos de grande intensidade.
Cientistas usam tecnologia para acompanhar o fenômeno
O acompanhamento do El Niño atualmente é muito diferente do que era décadas atrás.
Pesquisadores utilizam boias oceânicas, satélites, modelos matemáticos e sistemas de previsão meteorológica para acompanhar mudanças na temperatura do oceano, nos ventos e na circulação atmosférica.
Uma das principais redes de monitoramento foi ampliada após o forte El Niño de 1982 e 1983, quando os impactos do fenômeno surpreenderam a comunidade científica.
Centenas de equipamentos instalados no Pacífico passaram a transmitir informações em tempo real, permitindo acompanhar a evolução das condições oceânicas.
Esses dados são fundamentais para que os modelos meteorológicos possam antecipar possíveis mudanças no clima com meses de antecedência.
Registros de milhares de anos ajudam a entender o passado
Além dos equipamentos modernos, cientistas também utilizam registros naturais preservados durante milhares de anos para estudar antigos episódios de El Niño.
Estalagmites encontradas em cavernas, por exemplo, podem funcionar como verdadeiros arquivos climáticos.
À medida que a água atravessa as rochas, minerais são depositados e formam novas camadas. A composição dessas camadas permite aos pesquisadores identificar alterações no regime de chuvas e outros sinais relacionados ao clima.
Em determinadas cavernas, sedimentos deixados por grandes enchentes também permanecem preservados.
Uma das estalagmites analisadas por pesquisadores guarda aproximadamente 2.300 anos de registros, enquanto outros estudos conseguiram reconstruir eventos extremos ocorridos ao longo de mais de sete mil anos.
Essas informações ajudam a comparar o comportamento atual do clima com episódios registrados muito antes da existência dos instrumentos meteorológicos modernos.
El Niño acontece em um planeta mais quente
Um dos principais desafios atuais para os pesquisadores é compreender como um El Niño muito intenso se comporta em meio ao aquecimento global.
O planeta já apresenta temperaturas médias mais elevadas do que em períodos anteriores, o que pode aumentar a intensidade dos impactos associados a determinados eventos climáticos.
Segundo pesquisadores citados na reportagem, o ano de 2026 pode entrar para a lista dos mais quentes já registrados, enquanto 2027 também apresenta possibilidade de temperaturas excepcionalmente elevadas.
Isso torna mais difícil utilizar apenas os padrões observados no passado para prever exatamente como os próximos meses irão se comportar.
Modelos climáticos precisam ser continuamente atualizados para incorporar as mudanças que já ocorreram no sistema climático global.
Calor e seca aumentam preocupação com incêndios na Amazônia
Na Amazônia, a combinação entre temperaturas elevadas e períodos de seca pode aumentar o risco de incêndios.
Pesquisadores destacam, porém, que o fogo na região geralmente depende da ação humana para começar. O clima seco contribui para que a vegetação fique mais vulnerável e para que as chamas se espalhem com maior facilidade.
A possibilidade de uma temporada de seca mais intensa, portanto, representa um fator adicional de preocupação para áreas onde já existe pressão provocada pelo desmatamento e pelo uso do fogo.
O cenário também pode afetar comunidades, atividades agrícolas e ecossistemas que dependem da regularidade das chuvas.
Outros países também enfrentam efeitos do fenômeno
Os impactos de um El Niño intenso não ficam restritos ao Brasil ou à América do Sul.
Em diferentes episódios, mudanças na distribuição das chuvas e nas temperaturas já provocaram secas, incêndios e enchentes em diversas regiões do mundo.
Na Indonésia, por exemplo, a redução das chuvas pode favorecer incêndios florestais e aumentar a pressão sobre áreas de vegetação e espécies ameaçadas.
Na China, alterações nos padrões de precipitação podem contribuir para episódios de chuva intensa e enchentes.
Na América do Sul, eventos extremos também podem afetar estradas e cadeias de transporte, com consequências para o comércio regional.
Como diferentes países produtores de alimentos podem ser afetados ao mesmo tempo, eventos climáticos extremos também podem provocar impactos econômicos, redução da oferta de produtos e aumento de preços.
Monitoramento pode ajudar a reduzir os impactos
A previsão antecipada do El Niño não elimina os eventos extremos, mas permite que governos e comunidades adotem medidas preventivas.
No Brasil, pesquisadores também trabalham para melhorar sistemas capazes de identificar riscos de enchentes, deslizamentos e outros desastres associados a períodos de chuva intensa.
Sensores instalados em áreas de risco podem detectar movimentações do solo e enviar alertas às autoridades.
Drones e outras tecnologias também são utilizados para mapear áreas vulneráveis e identificar sinais de instabilidade que poderiam passar despercebidos.
Para os pesquisadores, a combinação de ciência, tecnologia, monitoramento e informação à população é fundamental para reduzir danos quando eventos extremos acontecem.
Até quando deve durar o Super El Niño
A previsão atual indica que o fenômeno deve continuar atuando até pelo menos março de 2027.
O pico da intensidade é esperado próximo ao fim de 2026, especialmente durante o período de dezembro, mas os efeitos sobre o clima podem continuar nos meses seguintes.
No Brasil, isso significa que diferentes regiões poderão enfrentar alterações no padrão de chuvas e temperaturas ao longo do verão e do início de 2027.
O Sul tende a permanecer entre as regiões mais sujeitas a volumes elevados de chuva, enquanto Norte e Nordeste podem enfrentar períodos de maior irregularidade e redução das precipitações.
A intensidade final do fenômeno, entretanto, ainda será acompanhada pelos centros meteorológicos à medida que novos dados forem incorporados às previsões.
O que esperar nos próximos meses
O atual cenário coloca o Brasil diante de um período de maior atenção para eventos climáticos extremos.
Caso as projeções da NOAA se confirmem, o El Niño poderá alcançar uma intensidade excepcional e permanecer ativo até os primeiros meses de 2027.
A combinação entre o fenômeno e um planeta mais quente aumenta a necessidade de acompanhamento constante das temperaturas, das chuvas e dos indicadores de seca.
Para a população, os principais efeitos poderão variar conforme a região, com possibilidade de chuvas mais intensas no Sul, períodos de seca e irregularidade das precipitações no Norte e Nordeste e temperaturas acima da média em diferentes áreas do país.
Os próximos meses serão decisivos para determinar se o fenômeno realmente alcançará um dos níveis de intensidade mais altos já observados desde o início do monitoramento moderno.
