Medida adotada pelo governo Donald Trump amplia por 90 dias a importação de carne bovina sem a tarifa adicional cobrada fora da cota; frigoríficos brasileiros podem ocupar até 40% do novo espaço
O Brasil pode fornecer entre 90 mil e 120 mil toneladas de carne bovina dentro da nova cota temporária de importação criada pelos Estados Unidos. O volume representa de 30% a 40% das 300 mil toneladas adicionais autorizadas pelo governo do presidente Donald Trump.
A medida vale por 90 dias e permite a importação mensal de até 100 mil toneladas de carne bovina magra sem a cobrança da tarifa adicional aplicada aos embarques que ultrapassam as cotas regulares.
A avaliação sobre o potencial brasileiro foi apresentada por Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado. Segundo ele, o tamanho da indústria frigorífica nacional e a quantidade de unidades habilitadas a exportar para os Estados Unidos colocam o país em uma posição favorável.
A participação estimada, entretanto, não está garantida. Os frigoríficos brasileiros precisarão competir com exportadores de outros países, negociar preços com os compradores norte-americanos e avaliar se as vendas serão financeiramente vantajosas.
Governo Trump amplia cota em 300 mil toneladas
A nova política comercial foi anunciada pelo governo dos Estados Unidos como uma tentativa de ampliar a oferta de carne bovina e reduzir os preços pagos pelos consumidores.
A autorização elevou em 300 mil toneladas a quantidade de carne bovina magra que poderá entrar no país dentro da tarifa aplicada à cota, sem a cobrança adicional destinada ao volume excedente.
A medida começou a valer em 1º de setembro de 2026 e terá duração de 90 dias. O volume foi dividido em três parcelas mensais de até 100 mil toneladas.
O foco está nos chamados trimmings, aparas retiradas durante o processamento da carcaça. Nos Estados Unidos, esses cortes são utilizados principalmente na fabricação de carne moída e hambúrgueres.
A decisão não altera os acordos comerciais mantidos com países que possuem cotas específicas ou tratados de livre comércio com os Estados Unidos.
Brasil pode ocupar até 40% da nova cota
A estimativa da Safras & Mercado indica que o Brasil pode conquistar de 30% a 40% do novo volume disponível.
Caso o cenário seja confirmado, os frigoríficos nacionais poderão embarcar entre 90 mil e 120 mil toneladas adicionais durante os três meses de vigência da medida.
O cálculo considera a capacidade de produção da indústria brasileira, o número de estabelecimentos autorizados a vender para o mercado norte-americano e a presença já consolidada do produto nacional nos Estados Unidos.
O país também possui condições de fornecer grandes quantidades em um período relativamente curto, uma vantagem diante de concorrentes com menor escala produtiva.
A ampliação da cota representa uma oportunidade comercial importante, mas o aproveitamento do espaço dependerá das condições estabelecidas pelos compradores e da disponibilidade dos produtos procurados.
Nova cota não será dividida automaticamente
As 300 mil toneladas não serão distribuídas previamente entre os países exportadores.
Na prática, cada frigorífico precisará negociar diretamente com importadores dos Estados Unidos e conquistar uma parcela da demanda. Os embarques serão definidos de acordo com preços, contratos, capacidade de entrega e exigências sanitárias.
Isso significa que a estimativa de até 120 mil toneladas para o Brasil não representa uma reserva garantida.
Os exportadores que oferecerem o produto nas condições procuradas pelo mercado norte-americano terão mais chances de utilizar a cota antes que o limite seja atingido.
A duração de apenas 90 dias também exige rapidez. Os frigoríficos precisam organizar produção, certificação, transporte e entrega dentro de uma janela limitada.
Redução do rebanho pressiona preços nos Estados Unidos
Os Estados Unidos enfrentam uma redução de seu rebanho bovino, situação que diminuiu a oferta interna e elevou os preços da carne.
A recuperação da produção não ocorre de forma imediata. A criação de animais exige tempo, desde a reprodução até o momento do abate, o que limita a capacidade dos pecuaristas de responder rapidamente ao aumento dos preços.
Diante desse cenário, o governo Trump decidiu recorrer às importações para elevar a disponibilidade de carne no curto prazo.
A Casa Branca justificou a medida pela necessidade de garantir uma oferta adequada de carne moída a preços considerados razoáveis. A proclamação presidencial menciona dificuldades na oferta de aparas de carne magra e uma interrupção relevante no mercado nacional.
Paralelamente, o governo norte-americano anunciou medidas para incentivar pecuaristas, ampliar o processamento de carne e fortalecer a produção doméstica.
Como funciona a cota atual da carne brasileira
Antes da nova medida, o Brasil já participava de uma cota compartilhada para exportações de carne bovina aos Estados Unidos.
Segundo a análise apresentada pelo setor, essa cota possui 52,4 mil toneladas e permite a entrada do produto sem a tarifa adicional cobrada sobre o volume excedente.
O limite foi completamente utilizado em apenas 15 dias, demonstrando a elevada demanda pelo acesso ao mercado norte-americano em condições tarifárias mais favoráveis.
Depois que a cota é preenchida, a carne brasileira ainda pode ser exportada para os Estados Unidos, mas passa a pagar uma tarifa adicional de 26,4%.
Essa cobrança reduz a competitividade do produto nacional e pode tornar algumas operações menos rentáveis.
A nova autorização de Trump cria um espaço temporário adicional, permitindo que mais carne seja enviada sem essa sobretaxa extracota.
Estados Unidos ampliaram compras do Brasil em 2026
Entre janeiro e agosto de 2026, os Estados Unidos compraram 269,1 mil toneladas de carne bovina brasileira.
Os embarques movimentaram aproximadamente US$ 1,74 bilhão, segundo os dados apresentados sobre o comércio entre os dois países.
Em volume, o resultado representa um crescimento de 28,7% em comparação com o mesmo período de 2025.
Os números mostram que os Estados Unidos já ocupavam uma posição relevante entre os destinos da carne brasileira antes da abertura da nova cota.
A ampliação temporária pode aumentar ainda mais as exportações, principalmente se os frigoríficos conseguirem oferecer as aparas de carne magra pelo preço procurado pelos importadores.
Paraguai e América Central aparecem como concorrentes
O Brasil não será o único fornecedor interessado no novo espaço.
Segundo Fernando Iglesias, os concorrentes mais diretos deverão ser o Paraguai e países da América Central. Esses mercados também podem utilizar a cota adicional destinada ao grupo de países sem limite específico.
Outros grandes fornecedores, como Argentina, Austrália, Canadá, México e Nova Zelândia, possuem condições comerciais próprias ou participam do mercado norte-americano por meio de acordos e cotas específicas.
A Argentina, por exemplo, já conta com uma cota própria e, por isso, não disputaria diretamente o mesmo volume temporário destinado ao grupo no qual o Brasil está inserido.
A vantagem brasileira está na escala. A indústria nacional possui maior capacidade de produção e mais frigoríficos habilitados do que alguns dos concorrentes diretos.
Ainda assim, a competitividade dependerá principalmente do preço final.
Preço pode limitar interesse dos frigoríficos
O principal desafio para a indústria brasileira será determinar se vale a pena direcionar os trimmings aos Estados Unidos.
Essas aparas possuem menor valor agregado e representam apenas uma parte da carcaça. Para ampliar os embarques, os frigoríficos precisam avaliar o preço oferecido, os custos de transporte e o retorno obtido com a comercialização das demais partes do animal.
Também será necessário comparar o mercado norte-americano com outros destinos disponíveis para a carne brasileira.
Se o valor pago pelos Estados Unidos não compensar os custos, algumas empresas poderão optar por comercializar o produto em mercados diferentes.
Por outro lado, uma elevação acentuada do preço das aparas pode reduzir o interesse dos compradores norte-americanos e comprometer o objetivo da medida, que é ampliar a oferta de carne moída mais barata.
Medida busca reduzir preço do hambúrguer
A demanda norte-americana está concentrada em carne bovina magra utilizada na produção de carne moída.
Nos Estados Unidos, frigoríficos costumam misturar aparas magras importadas com carne produzida localmente, que possui maior teor de gordura. O resultado é utilizado na fabricação de hambúrgueres e outros produtos consumidos em larga escala.
A falta de matéria-prima magra contribuiu para aumentar os custos desse processo.
Com a abertura da cota, o governo pretende elevar rapidamente a quantidade disponível e reduzir a pressão sobre os preços.
A Casa Branca também incentivou a comercialização do produto importado com valores abaixo dos preços praticados anteriormente, embora a resposta do mercado dependa das negociações entre empresas.
Efeito nos preços ainda é incerto
Embora o volume de 300 mil toneladas seja expressivo, ainda não está claro qual será o efeito da medida sobre os preços pagos pelos consumidores.
O mercado norte-americano de carne bovina é amplo, e o novo volume representa apenas uma parte do consumo total do país.
Além disso, a redução de tarifas não garante que toda a diferença será repassada aos consumidores. Custos de transporte, processamento, distribuição e comercialização também influenciam o preço final.
A medida poderá aliviar parte da pressão sobre a carne moída, mas dificilmente resolverá sozinha o problema provocado pela redução do rebanho.
A recuperação duradoura da oferta dependerá do aumento da produção interna e da recomposição do número de animais.
Frigoríficos brasileiros ainda avaliam oportunidade
As empresas brasileiras fazem cálculos para decidir quanto poderão fornecer durante os 90 dias.
Além do preço, precisam considerar a disponibilidade de aparas, o tempo necessário para organizar os embarques e as exigências sanitárias dos Estados Unidos.
A janela de três meses pode favorecer frigoríficos que já mantêm contratos e operações regulares no mercado norte-americano.
Empresas que ainda não exportam para o país terão mais dificuldade para aproveitar imediatamente a oportunidade, pois precisam cumprir processos de habilitação e certificação.
O Brasil tem capacidade para ocupar até 40% da nova cota, mas o resultado dependerá da competitividade da carne nacional e da velocidade dos embarques.