Com 810 participantes, encontro promoveu três dias de debates sobre governança, urbanismo, participação e pertencimento
O que uma cidade revela quando passa a ser observada pelos olhos de uma criança? Essa foi uma das perguntas que atravessaram o 3º Seminário pela Primeira Infância de Itaquaquecetuba, realizado na semana passada por três dias. Sob o tema “Primeira infância: território e pertencimento”, o evento reuniu 810 participantes e ampliou a discussão sobre como as escolhas feitas no presente podem determinar as condições de desenvolvimento das próximas gerações.

Promovido pela Prefeitura de Itaquaquecetuba, o seminário reuniu profissionais do poder público, especialistas e representantes da sociedade civil em uma agenda que conectou áreas da administração municipal. A proposta foi ir além da discussão sobre políticas específicas para crianças de 0 a 6 anos e refletir sobre um princípio mais abrangente: uma cidade comprometida com a primeira infância precisa ser planejada, cuidada e governada também a partir das necessidades de seus cidadãos mais jovens.
A secretária de Educação destacou que a discussão sobre primeira infância precisa ocupar todos os espaços da gestão pública. “Quando falamos de primeira infância, estamos falando de uma rede inteira que precisa funcionar em favor da criança. O território também educa, acolhe, protege e produz oportunidades. Por isso, discutir a primeira infância é discutir a cidade como um todo e fortalecer uma cultura de responsabilidade compartilhada.”
A programação foi estruturada para apresentar perspectivas sobre essa construção. O primeiro dia abordou a governança em rede da política de primeira infância, aproximando as diretrizes nacionais da realidade municipal. A discussão contou com Mariana Souza, gerente de articulação federativa e em rede da Política Nacional Integrada da Primeira Infância do Ministério da Educação.

No segundo dia, o urbanismo social ganhou protagonismo. O antropólogo Oscar Santiago Uribe Rocha, mestre pela London School of Economics (LSE) e pela EAFIT, apresentou reflexões sobre a relação entre território e desenvolvimento infantil, provocando os participantes a pensar sobre o impacto que ruas, praças, equipamentos públicos e espaços de convivência exercem na experiência cotidiana das crianças.
O encerramento trouxe a discussão sobre participação e identidade brasileira. Doutora em educação pela USP, Bruna Ribeiro abordou metodologias participativas e a importância de desenvolver formas de escuta que considerem as especificidades culturais e sociais das infâncias brasileiras.
Para o prefeito Eduardo Boigues, colocar a primeira infância como prioridade significa fazer uma escolha de longo prazo. “A primeira infância é o começo de tudo. É nessa fase que construímos bases que vão acompanhar a pessoa por toda a vida. Por isso, cuidar das crianças não pode ser uma ação isolada ou pontual. É uma decisão de governo e um compromisso com o futuro. Queremos uma cidade que ofereça oportunidades desde os primeiros anos e que reconheça cada criança como prioridade.”
O seminário também levou para dentro da programação manifestações que expressam a própria identidade do município. Crianças e adolescentes atendidos pelos polos esportivos da Secretaria de Esportes e Lazer protagonizaram apresentações de ginástica artística durante as três noites. A programação cultural contou ainda com o Grupo Seresta Viva, do CRECI, comandado pelo arte-educador Giuliano Del Sole, e com o grupo cultural Babado de Chita.
A relação entre infância e natureza também esteve presente com uma oficina sobre fauna e flora conduzida pelo biólogo João Vitor, da Secretaria de Meio Ambiente e Bem-Estar Animal. A iniciativa reforçou uma concepção de território que não se limita à infraestrutura urbana, mas contempla a relação das crianças com o ambiente e os elementos que compõem a paisagem onde vivem.

Para a primeira-dama, presidente do Fundo Social e embaixadora da primeira infância, Mila Boigues, criar pertencimento é permitir que a criança reconheça a cidade como um espaço que também lhe pertence. “Uma criança precisa se sentir parte do lugar onde vive. Quando ela tem acesso a espaços seguros, cultura, esporte, natureza, educação e convivência, ela não está apenas recebendo um serviço público: está construindo vínculos com a cidade. É esse sentimento que queremos fortalecer. Uma cidade melhor para as crianças é melhor para todos.”
A articulação entre as secretarias municipais e a comissão intersetorial responsável pela elaboração do Plano Municipal pela Primeira Infância (PMPI) deu ao seminário uma dimensão que ultrapassa a formação técnica. O encontro funcionou como espaço de convergência entre conhecimentos e setores, fortalecendo uma agenda que depende da atuação coordenada do poder público e da participação da sociedade.