Estudo combinou biópsia assistida a vácuo com coleta das margens da cavidade; resultado é promissor, mas método ainda precisa de validação antes de substituir cirurgias
Pesquisadores brasileiros desenvolveram uma abordagem que pode ajudar a identificar quando pequenos tumores de mama foram completamente retirados por meio de um procedimento percutâneo, realizado com uma agulha, sem a necessidade de uma cirurgia convencional para a remoção da lesão.
O método combina uma biópsia mamária estendida assistida a vácuo, técnica também conhecida como mamotomia, com a coleta de fragmentos das margens da cavidade formada no tecido após a retirada das amostras.
A pesquisa analisou retrospectivamente 120 casos de câncer em 116 pacientes atendidas em uma unidade especializada de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Em 45 casos, equivalentes a 37,5% do total, a cirurgia realizada posteriormente não encontrou tumor residual, indicando que a lesão havia sido retirada durante o procedimento percutâneo.
Os resultados foram publicados na revista científica Annals of Surgical Oncology, ligada à Sociedade de Oncologia Cirúrgica dos Estados Unidos.
Apesar dos dados promissores, a técnica ainda não substitui a cirurgia no tratamento habitual do câncer de mama. O próprio estudo recomenda que o método seja avaliado em pesquisas prospectivas, com acompanhamento planejado das pacientes.
Como funciona a técnica estudada
A biópsia assistida a vácuo utiliza uma agulha conectada a um sistema de sucção para retirar fragmentos do tecido mamário.
O procedimento costuma ser empregado para investigar lesões suspeitas identificadas em exames de imagem. A amostra coletada é enviada ao laboratório, onde passa por análise histológica para determinar se existem células cancerígenas.
Na técnica ampliada estudada pelos pesquisadores brasileiros, o médico retira uma quantidade maior de tecido. Quando a lesão é pequena, esse processo pode acabar removendo todo o tumor, mesmo que o objetivo inicial seja o diagnóstico.
O problema é que a retirada visual da lesão durante a biópsia não permite confirmar, sozinha, que nenhuma célula tumoral permaneceu na mama.
Para enfrentar essa limitação, os pesquisadores acrescentaram uma segunda etapa: a raspagem ou coleta das margens da cavidade, chamada no estudo de cavity margins sample shaving.
Margens da cavidade são analisadas separadamente
Depois da biópsia estendida, permanece uma pequena cavidade no local onde os fragmentos foram retirados.
Com uma cesta limpa acoplada ao mesmo sistema de biópsia, o profissional coleta amostras em toda a circunferência dessa cavidade. O material das margens é armazenado separadamente e encaminhado para análise laboratorial.
A intenção é verificar se ainda existem células cancerígenas ao redor da região da qual a lesão foi retirada.
Se as amostras das margens não apresentarem tumor, o resultado pode indicar que houve uma excisão completa. Se forem encontradas células malignas, existe maior possibilidade de que parte da doença permaneça no tecido.
Esse tipo de avaliação busca responder a uma questão importante: como saber, sem uma operação convencional, se a biópsia a vácuo retirou completamente um pequeno câncer de mama?
Estudo analisou 120 casos de câncer de mama
A pesquisa avaliou informações de um banco de dados da unidade Redimama-Redimasto, especializada em imagem mamária em Belo Horizonte.
Foram considerados diagnósticos realizados entre junho de 2021 e outubro de 2023. Os pesquisadores identificaram inicialmente mais de mil casos de câncer diagnosticados por diferentes procedimentos percutâneos.
A análise final incluiu 120 cânceres submetidos à biópsia estendida com coleta das margens e, posteriormente, à cirurgia convencional.
A operação foi importante para a pesquisa porque permitiu comparar o resultado do procedimento percutâneo com o tecido retirado cirurgicamente, utilizado como referência para confirmar se ainda havia tumor.
A mediana de idade das participantes foi de 57 anos. Os tumores tinham mediana de 11 milímetros nos exames de imagem, o que mostra que o estudo se concentrou principalmente em lesões pequenas.
Procedimento retirou completamente 37,5% das lesões
Em 45 dos 120 casos analisados, a peça cirúrgica não apresentou tumor residual.
Isso significa que, nesses casos, o câncer havia sido aparentemente retirado durante a biópsia estendida associada à coleta das margens.
O percentual de 37,5% corresponde a pouco mais de um em cada três casos avaliados. O resultado indica que alguns tumores pequenos podem ser completamente removidos por uma técnica percutânea.
Entretanto, todas as participantes incluídas na análise passaram posteriormente por cirurgia. Portanto, o estudo não demonstrou diretamente que essas mulheres poderiam ter deixado de operar com a mesma segurança oncológica em longo prazo.
A pesquisa avaliou a capacidade do método de prever uma retirada completa, não a segurança de abandonar a cirurgia como tratamento definitivo.
Resultados ainda exigem cautela
A coleta das margens apresentou sensibilidade de 70,7%, especificidade de 66,7% e precisão de 69,2% na avaliação da excisão completa.
O estudo também registrou uma taxa de falso negativo de 18,33%. Isso significa que, em parte dos casos, a análise das margens não indicou a permanência da doença, mas a cirurgia posterior encontrou tumor residual.
Esse dado é uma das razões pelas quais a técnica ainda não pode ser utilizada isoladamente para decidir que uma paciente não precisa de cirurgia.
Em tratamentos contra o câncer, um resultado falso negativo pode levar à interpretação incorreta de que a lesão foi completamente retirada.
Os autores concluíram que a estratégia possui potencial para prever a excisão de pequenos tumores, mas deve ser incorporada a estudos prospectivos antes de qualquer adoção mais ampla.
Método não deve ser padrão para carcinoma ductal in situ
A pesquisa incluiu casos de câncer invasivo e de carcinoma ductal in situ, conhecido pela sigla CDIS.
O carcinoma ductal in situ é uma alteração na qual células anormais estão restritas aos ductos mamários, sem invasão do tecido ao redor. Apesar de ser considerado uma forma inicial da doença, seu tratamento precisa ser definido de acordo com as características de cada caso.
Os próprios pesquisadores alertaram que a biópsia estendida com coleta das margens não deve ser adotada como tratamento padrão para o carcinoma ductal in situ neste momento.
A análise identificou uma associação entre o tamanho patológico do CDIS e a presença de tumor residual. Quanto maior a extensão da alteração, maior a dificuldade de garantir uma retirada completa pelo procedimento percutâneo.
Esse resultado reforça a necessidade de selecionar cuidadosamente os casos que poderão ser avaliados em futuras pesquisas.
Pesquisa surgiu a partir de doutorado na Unesp
O trabalho foi desenvolvido a partir do projeto de doutorado da mastologista Paula Clarke, no Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu.
A pesquisa foi orientada por Eduardo Carvalho Pessoa e teve a participação de Henrique Lima Couto e outros profissionais de diferentes instituições brasileiras.
O estudo reuniu especialistas de áreas como mastologia, diagnóstico por imagem, patologia e oncologia.
A participação de diferentes centros é relevante para o desenvolvimento de um método que depende tanto da realização correta do procedimento quanto da interpretação dos fragmentos retirados.
A pesquisa recebeu reconhecimento internacional com a publicação no Annals of Surgical Oncology.
Ensaio clínico deverá validar abordagem
Os pesquisadores continuam avaliando a retirada percutânea de pequenos tumores por meio do estudo VAE Breast 01.
O projeto é um ensaio clínico de fase 2 voltado à avaliação da excisão assistida a vácuo como possível abordagem terapêutica.
Diferentemente da análise retrospectiva, um ensaio clínico acompanha as participantes de acordo com um protocolo previamente estabelecido. Isso permite avaliar com maior precisão a seleção das pacientes, a segurança do procedimento e os resultados ao longo do tempo.
Outras pesquisas também estudam a utilização da técnica em pessoas que receberam quimioterapia antes da cirurgia.
Esses estudos deverão mostrar se a abordagem consegue manter a segurança oncológica, controlar a doença e reduzir intervenções sem aumentar o risco de permanência ou retorno do câncer.
Técnica pode reduzir intervenções no futuro
Se for confirmada por estudos maiores, a retirada percutânea poderá representar uma opção menos invasiva para grupos específicos de pacientes com tumores pequenos e características favoráveis.
O procedimento pode exigir uma incisão menor, reduzir o impacto estético e permitir uma recuperação mais rápida em comparação com uma operação tradicional.
Também existe a possibilidade de diminuir custos hospitalares e evitar cirurgias em situações nas quais a lesão já tenha sido completamente removida durante a biópsia.
Esses benefícios, porém, ainda são potenciais. A adoção dependerá de evidências sobre segurança, capacidade de identificar tumor residual e acompanhamento das pacientes por períodos mais longos.
Nenhuma pessoa com diagnóstico de câncer de mama deve deixar de realizar uma cirurgia ou alterar o tratamento com base apenas nesses resultados iniciais. A decisão precisa ser tomada individualmente com a equipe médica.
O que é o câncer de mama
O câncer de mama é provocado pela multiplicação desordenada de células anormais, capazes de formar um tumor e, em alguns casos, invadir outros tecidos ou órgãos.
Existem diferentes tipos da doença, com comportamentos e tratamentos distintos. Algumas lesões crescem lentamente, enquanto outras podem apresentar evolução mais rápida.
O câncer de mama é o tipo mais incidente e a principal causa de morte por câncer entre mulheres no Brasil, com exceção dos tumores de pele não melanoma.
Estimativa utilizada pelo Instituto Nacional de Câncer apontou 73.610 novos casos em 2024, com risco de 66,54 diagnósticos para cada 100 mil mulheres. Aproximadamente 1% dos casos ocorre em homens.
Sinais de alerta exigem avaliação médica
Entre os sinais que precisam ser investigados estão nódulos endurecidos ou que aumentam de tamanho, saída de sangue pelo mamilo, retração da pele ou do mamilo, vermelhidão persistente e pele com aparência semelhante à casca de laranja.
Também podem ocorrer caroços nas axilas, aumento progressivo do tamanho da mama e lesões na pele que não melhoram com tratamentos comuns.
Essas alterações não significam necessariamente a presença de câncer, mas devem ser avaliadas por um profissional de saúde.
O INCA ressalta que a atenção às mudanças habituais das mamas e o acesso rápido ao diagnóstico são importantes para identificar a doença em estágios iniciais.
Diagnóstico precoce aumenta opções de tratamento
A detecção precoce permite encontrar tumores menores e pode ampliar as possibilidades de tratamento.
No Sistema Único de Saúde, o Ministério da Saúde recomenda a mamografia de rastreamento para mulheres de 50 a 74 anos, a cada dois anos, quando não existem sinais ou sintomas suspeitos.
Mulheres fora dessa faixa etária podem receber orientações diferentes conforme fatores de risco, histórico familiar e avaliação individual realizada por um profissional.
Quando existe algum sintoma, a investigação não deve esperar a idade recomendada para o rastreamento. A mamografia diagnóstica e outros exames podem ser solicitados em diferentes faixas etárias.
A nova técnica brasileira poderá, no futuro, integrar o tratamento de determinados tumores detectados precocemente. Antes disso, contudo, os pesquisadores precisarão demonstrar que a retirada percutânea oferece controle da doença com segurança comparável às abordagens já estabelecidas.