Inquérito civil investigará se a entrada dos agentes em uma unidade de educação infantil de São Paulo violou o direito à educação e a liberdade pedagógica. Um dos policiais carregava um fuzil durante a ocorrência.
O Ministério Público de São Paulo abriu um inquérito civil para investigar a atuação de 12 policiais militares que entraram armados em uma escola municipal de educação infantil após a denúncia de um pai contra uma atividade pedagógica sobre cultura afro-brasileira.
O episódio aconteceu em 11 de novembro de 2025, na Escola Municipal de Educação Infantil Antônio Bento, localizada na Zona Oeste da capital paulista.
A ocorrência começou depois que o pai de uma aluna de 4 anos procurou a Polícia Militar alegando que a criança estaria sendo obrigada a participar de uma “aula de religião africana”. A menina havia feito um desenho com o nome de Iansã, orixá presente em tradições religiosas de origem africana.
O homem que realizou a denúncia é soldado da ativa da própria Polícia Militar. Após o chamado, 12 agentes foram enviados à unidade. Um deles entrou no ambiente escolar portando um fuzil.
Segundo o Ministério Público, os elementos reunidos até agora não indicam a ocorrência de crime que justificasse a diligência policial. O órgão pretende esclarecer se a ação violou o direito à educação, a liberdade dos profissionais de ensino e a obrigatoriedade de abordar a história e a cultura afro-brasileira e indígena nas escolas.
Ministério Público considera diligência injustificada
O inquérito civil foi aberto com base em depoimentos, documentos e imagens registradas pelas câmeras corporais dos policiais que atenderam à ocorrência.
Na avaliação inicial do Ministério Público, não existia indício de crime dentro da escola que justificasse a mobilização policial.
O procedimento classifica a diligência como “injustificada” e determina o aprofundamento da apuração sobre a conduta dos agentes.
A investigação deverá analisar por que 12 policiais foram enviados a uma escola de educação infantil, quais informações foram apresentadas durante o chamado e quem autorizou a entrada de um agente carregando um fuzil.
O Ministério Público também pretende verificar a forma como professores, servidores e integrantes da direção foram abordados durante a permanência da equipe na escola.
Por se tratar de um inquérito civil, a apuração está relacionada principalmente à possível violação de direitos e ao funcionamento das instituições públicas. Eventuais indícios de irregularidades de outra natureza poderão ser encaminhados aos órgãos competentes.
Atividade envolvia desenho sobre Iansã
A atividade questionada pelo pai fazia parte de um projeto pedagógico sobre cultura afro-brasileira.
Durante a aula, a menina produziu um desenho no qual aparecia o nome de Iansã. Ao saber do conteúdo, o pai afirmou que a filha teria sido obrigada a participar de uma atividade religiosa.
A direção da escola negou essa interpretação. Segundo a educadora responsável pela unidade, a proposta tinha caráter cultural, histórico e literário, sem intenção de promover qualquer religião.
O trabalho utilizava como referência o livro infantil Ciranda de Aruanda, obra presente no acervo distribuído às escolas da rede municipal.
O conteúdo abordava elementos da cultura afro-brasileira e estava inserido em um projeto desenvolvido de acordo com a legislação educacional.
Iansã é uma orixá cultuada em religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda. Sua presença em uma obra literária ou em uma atividade sobre cultura afro-brasileira, porém, não transforma necessariamente a aula em prática religiosa.
Ensino da cultura afro-brasileira é obrigatório
A diretora explicou aos policiais que a atividade estava fundamentada nas leis federais que tornaram obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena.
As normas alteraram a Lei de Diretrizes e Bases da Educação e determinaram que as escolas abordem a formação da sociedade brasileira, a história da África, as contribuições dos povos africanos e indígenas e suas manifestações culturais.
O ensino desses conteúdos não representa a adoção de uma religião pela escola. A proposta é apresentar aos estudantes conhecimentos históricos e culturais fundamentais para a compreensão da sociedade brasileira.
O inquérito do Ministério Público deverá avaliar se a intervenção policial criou obstáculos ao cumprimento dessa obrigação.
O promotor também pretende esclarecer se a presença do efetivo armado interferiu indevidamente no livre exercício da atividade pedagógica e provocou intimidação entre os profissionais da unidade.
Doze policiais foram enviados à escola infantil
Após o chamado, 12 policiais militares entraram na EMEI Antônio Bento para atender à ocorrência.
Um dos agentes estava com um fuzil. O grupo permaneceu na unidade por mais de uma hora, segundo os relatos reunidos sobre o caso.
Especialistas ouvidos após o episódio consideraram desproporcional o envio de um efetivo tão numeroso e fortemente armado para uma escola de crianças pequenas, especialmente porque não havia indicação de violência ou ameaça física.
A investigação buscará entender como a ocorrência foi classificada pela central da Polícia Militar e por que exigiu a presença de tantos agentes.
Também será analisada a atuação do tenente Ronald Camacho, comandante responsável pelo atendimento.
A presença de armas em um ambiente de educação infantil aumentou a preocupação sobre os efeitos da operação em crianças, professores e demais servidores.

Servidora relata abordagem com arma
Uma funcionária da escola afirmou que foi pressionada contra a parede e teve uma arma encostada no corpo durante a abordagem policial.
Segundo o relato, a ação teria durado aproximadamente 20 minutos. Os agentes permaneceram na unidade por mais de uma hora.
A alegação da servidora integra o conjunto de elementos que deverão ser analisados pelo Ministério Público.
O inquérito deverá verificar se houve emprego desnecessário de força, constrangimento ou intimidação durante a ocorrência.
Os registros das câmeras corporais poderão ser utilizados para reconstruir a movimentação dos policiais e conferir os relatos apresentados pelas pessoas que estavam na escola.
A apuração também deverá estabelecer quais ordens foram transmitidas à funcionária e se existia alguma justificativa operacional para a abordagem descrita.
Câmeras registraram discussão com diretora
As imagens das câmeras corporais mostram uma discussão entre o tenente responsável pela ocorrência e a diretora da EMEI.
Nas gravações, a educadora explica que a atividade não correspondia a uma aula de religião. Segundo ela, o conteúdo fazia parte de um projeto amparado pelas leis que determinam o ensino da cultura afro-brasileira e indígena.
O policial contesta a explicação e acusa a diretora de tentar “ditar sua ideologia”.
A educadora responde que o trabalho utilizava um livro infantil distribuído à rede municipal e tratava o tema sob uma perspectiva cultural e literária.
O diálogo passou a ocupar uma posição central na investigação porque pode ajudar a esclarecer se os agentes agiram para averiguar uma possível ocorrência ou se interferiram no conteúdo pedagógico da escola.
O Ministério Público deverá analisar a íntegra das gravações, e não apenas trechos isolados, para avaliar o contexto das falas e das decisões tomadas durante a operação.
Pai da aluna é policial militar da ativa
A Secretaria da Segurança Pública confirmou posteriormente que o homem responsável por acionar a corporação é um soldado da Polícia Militar em atividade.
Essa informação também deverá ser considerada na apuração sobre a resposta dada ao chamado.
O Ministério Público poderá verificar se o pai recebeu algum tratamento diferenciado em razão de seu vínculo profissional com a corporação.
A investigação também buscará esclarecer quais informações ele apresentou ao solicitar a presença dos agentes e se relatou a existência de algum risco que não estava presente na escola.
Em março de 2026, a Polícia Civil indiciou o pai da criança por intolerância religiosa.
O indiciamento representa a conclusão de uma etapa da investigação policial e não equivale a uma condenação judicial.
Apuração interna não identificou transgressão disciplinar
A Secretaria da Segurança Pública realizou uma análise preliminar sobre a atuação dos policiais militares envolvidos no episódio.
A pasta decidiu não abrir inquérito policial militar nem sindicância contra os agentes. O entendimento foi de que não havia indícios de transgressão disciplinar.
Em junho, uma apuração também concluiu que os policiais haviam seguido o protocolo da corporação ao entrarem na unidade escolar.
O procedimento, entretanto, foi encerrado antes da análise integral das imagens das câmeras corporais posteriormente divulgadas.
O Ministério Público decidiu realizar uma investigação própria e mais ampla. O novo inquérito não está limitado à existência de uma eventual infração disciplinar, pois examinará também a possível violação de direitos educacionais e da autonomia pedagógica.
Movimento Brasil Laico apresentou representação
O inquérito incorporou uma representação apresentada pelo Movimento Brasil Laico.
O documento passou a integrar o procedimento que já estava em andamento no Ministério Público.
A entidade questiona a intervenção policial em uma atividade prevista no currículo escolar e alerta para o risco de confundir o ensino da cultura afro-brasileira com a prática de uma religião.
A representação deverá ser examinada junto com os depoimentos, documentos administrativos e gravações das câmeras corporais.
A participação de organizações da sociedade civil pode contribuir para a análise dos efeitos do episódio sobre a liberdade de ensino, o combate ao racismo e o respeito às tradições de origem africana.
Diferença entre ensino cultural e prática religiosa
Um dos pontos centrais do caso é a diferença entre apresentar uma tradição religiosa como objeto de estudo e obrigar uma criança a praticar determinada fé.
Escolas públicas devem respeitar a liberdade religiosa dos estudantes e não podem impor crenças. Ao mesmo tempo, têm a obrigação de ensinar aspectos históricos e culturais que fazem parte da formação do Brasil.
O estudo de mitologias, símbolos, personagens e tradições religiosas pode ocorrer em contexto acadêmico, literário ou cultural, sem representar conversão ou participação em um culto.
No caso da EMEI Antônio Bento, a direção afirma que a atividade utilizava uma obra infantil para apresentar elementos da cultura afro-brasileira.
O Ministério Público deverá verificar se existia qualquer prática religiosa ou se a denúncia partiu de uma interpretação incorreta do conteúdo pedagógico.
Inquérito analisará possível violação ao direito à educação
A investigação não se limitará à conduta individual dos policiais.
O promotor pretende verificar se a entrada do efetivo armado interferiu no funcionamento da escola, intimidou educadores ou comprometeu o direito das crianças a receber conteúdos previstos na legislação.
Também será avaliado se o episódio pode gerar um efeito de censura sobre professores que trabalham com história africana, cultura afro-brasileira ou diversidade religiosa.
A obrigatoriedade desses conteúdos foi criada para combater a invisibilidade histórica das populações negras e indígenas no currículo escolar.
Se atividades relacionadas ao tema forem tratadas automaticamente como imposição religiosa, profissionais da educação poderão deixar de cumprir a legislação por receio de denúncias ou intervenções.
MP deverá ouvir envolvidos e analisar documentos
Com a abertura do inquérito civil, o Ministério Público poderá solicitar novos documentos à Polícia Militar, à Secretaria Municipal de Educação e à direção da escola.
Os responsáveis pela investigação também poderão colher depoimentos dos agentes, da diretora, da servidora que relatou a abordagem e de outras pessoas que presenciaram a ocorrência.
A íntegra das imagens das câmeras corporais será importante para estabelecer a sequência dos acontecimentos.
O MP deverá verificar desde o momento em que o pai acionou a polícia até a saída dos agentes da unidade.
Ao final da apuração, o órgão poderá arquivar o procedimento, recomendar mudanças nos protocolos policiais, propor um acordo para corrigir eventuais irregularidades ou apresentar uma ação civil pública.
Caso reacende debate sobre intolerância religiosa
O episódio também ampliou o debate sobre a forma como religiões de matriz africana são tratadas no ambiente escolar.
Conteúdos ligados ao candomblé e à umbanda são frequentemente confundidos com tentativa de conversão, mesmo quando aparecem em aulas de história, literatura ou cultura brasileira.
Especialistas apontam que essa associação pode refletir preconceitos e dificultar o cumprimento das leis educacionais.
A investigação deverá determinar se houve intolerância religiosa no chamado realizado pelo pai e se a resposta policial reforçou uma interpretação discriminatória da atividade.
Enquanto a apuração da conduta dos agentes prossegue, o caso permanece como um exemplo dos desafios enfrentados pelas escolas ao abordar a diversidade cultural e religiosa do país.
