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PF aponta proximidade entre Jaques Wagner e executivos ligados ao Banco Master

Relatórios enviados ao STF descrevem encontros, viagens, 74 ligações telefônicas e articulações sobre propostas de interesse da instituição financeira. Polícia Federal também apura supostas vantagens econômicas; investigação ainda não representa condenação


A Polícia Federal detalhou em relatórios enviados ao Supremo Tribunal Federal uma relação de proximidade pessoal e interlocução política entre o senador Jaques Wagner (PT-BA) e executivos ligados ao Banco Master.

Segundo os investigadores, Wagner mantinha uma relação de confiança com Augusto Ferreira Lima, conhecido como Guga, ex-sócio da instituição financeira. O vínculo também teria aproximado o senador de Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco.

Os documentos mencionam encontros entre as famílias, viagens, reuniões no gabinete parlamentar, presentes, ingressos, uso de aeronaves e discussões sobre propostas legislativas de interesse do Master.

A Polícia Federal também investiga suspeitas de que gestores ligados ao banco tenham oferecido vantagens econômicas ao senador em possível contrapartida por sua atuação política. Entre os episódios examinados está uma negociação para a compra de um apartamento avaliado em aproximadamente R$ 2,45 milhões, que seria destinado a Wagner.

Os relatórios foram tornados públicos pelo ministro André Mendonça, relator do caso no STF. O senador foi alvo de busca e apreensão durante a nona fase da Operação Compliance Zero, realizada em 18 de junho.

As informações fazem parte de uma investigação em andamento. As conclusões apresentadas pela PF são hipóteses investigativas e não representam uma condenação ou comprovação definitiva de que o senador tenha cometido crimes.


PF identificou 74 ligações telefônicas

Um levantamento realizado pela Polícia Federal identificou 74 ligações entre Jaques Wagner e Augusto Lima no período entre novembro de 2023 e maio de 2025.

Somadas, as chamadas duraram aproximadamente cinco horas e 30 minutos.

Para os investigadores, a frequência das conversas reforça a existência de uma relação próxima e contínua entre o parlamentar e o ex-sócio do Banco Master.

Os dados disponíveis, entretanto, não incluem o conteúdo das ligações. A PF teve acesso ao histórico das chamadas, aos horários e à duração dos contatos, mas não realizou escutas telefônicas.

Além das ligações, os investigadores analisaram mensagens encontradas em aparelhos apreendidos no decorrer das apurações.

Essas conversas mostrariam que Augusto enviava ao senador informações frequentes sobre o Banco Master, incluindo mudanças na composição acionária, negociações com o Banco de Brasília e avanços em temas de interesse da instituição.


Relação é descrita como longa e duradoura

A Polícia Federal classificou a relação entre Jaques Wagner e Augusto Lima como “longa e duradoura”.

Mensagens analisadas pela corporação registram encontros entre as famílias, viagens e manifestações de proximidade pessoal.

Em outubro de 2023, o senador e sua mulher aceitaram um convite para passar um fim de semana na chamada Ilha da Paixão, imóvel que estava sob controle de Augusto Lima.

O deslocamento teria acontecido em uma aeronave ligada ao empresário. Depois da viagem, mensagens trocadas entre as famílias demonstraram uma relação afetuosa e próxima.

Para a PF, a intimidade entre os dois núcleos familiares é relevante porque pode ajudar a compreender a confiança existente durante as conversas sobre negócios e pautas políticas.

A proximidade pessoal, isoladamente, não configura crime. Os investigadores tentam determinar se essa relação foi utilizada para favorecer interesses privados do Banco Master em decisões políticas ou legislativas.


Augusto mantinha senador informado sobre o Master

As mensagens indicam que Augusto Lima enviava regularmente a Jaques Wagner notícias e atualizações relacionadas ao Banco Master.

O ex-sócio compartilhava informações sobre mudanças na estrutura acionária da instituição, melhorias em sua nota de crédito e negociações mantidas com o BRB.

Também encaminhava notícias sobre discussões realizadas no Senado e sobre propostas que poderiam beneficiar o banco.

Wagner respondeu a parte dessas mensagens com símbolos de aprovação e agradecimento, como os emojis de “joinha” e de “mãos em oração”.

A Polícia Federal identificou um “padrão recorrente” de envio de notícias relacionadas à instituição financeira.

A investigação procura esclarecer se o senador apenas recebia informações de uma pessoa próxima ou se participava ativamente de articulações políticas em benefício do Master.


Reuniões ocorreram no gabinete do senador

Os relatórios também descrevem reuniões entre Jaques Wagner e Augusto Lima no gabinete do parlamentar, no Senado Federal.

Em abril de 2024, Wagner tentou organizar um encontro com Augusto e uma pessoa chamada “Messias”.

A Polícia Federal considerou a possibilidade de que a referência fosse ao advogado-geral da União, Jorge Messias.

Em um áudio analisado pelos investigadores, o senador afirmou que o gabinete seria um local “mais protegido e discreto”. Wagner também apresentou uma forma para que Augusto entrasse no local sem passar pelo procedimento regular de identificação.

A Advocacia-Geral da União negou a participação de Jorge Messias na reunião. Segundo o órgão, o advogado-geral nunca esteve reunido com Augusto Lima no gabinete de Jaques Wagner.

A PF deverá aprofundar a análise para identificar quem era a pessoa mencionada nas mensagens e qual seria o assunto do encontro.


PF investiga acompanhamento da “Emenda Master”

Uma das principais frentes da investigação envolve a atuação de Wagner em torno da chamada “Emenda Master”.

A proposta estava relacionada à PEC 63 de 2023 e previa ampliar para R$ 1 milhão por pessoa física o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito.

O FGC é uma entidade privada que protege depositantes e investidores em caso de intervenção ou quebra de instituições financeiras. A ampliação da cobertura poderia beneficiar clientes de bancos que enfrentassem dificuldades.

A proposta foi apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), que também possuiria vínculos com o Banco Master, segundo a PF.

Com base nas mensagens extraídas do celular de Augusto Lima, os investigadores afirmam que Jaques Wagner manteve um padrão de acompanhamento direto da proposta.

A corporação procura determinar se o senador atuou dentro das atividades políticas regulares ou se houve uma articulação motivada por vantagens pessoais.


Vorcaro tratava Wagner como aliado político

Os relatórios indicam que Daniel Vorcaro considerava Jaques Wagner um aliado político no Congresso Nacional.

Segundo a Polícia Federal, essa avaliação aparecia em discussões relacionadas a operações e medidas regulatórias de interesse do Master.

Os investigadores afirmam que Vorcaro enxergava o senador como alguém capaz de atuar não apenas no acompanhamento de projetos legislativos, mas também em articulações políticas e institucionais.

Para a corporação, essa percepção pode indicar que o relacionamento entre o parlamentar e os executivos do banco ultrapassava a troca regular de informações.

A apuração precisará demonstrar, porém, quais atos concretos foram praticados por Wagner e se eles tinham relação com algum benefício recebido ou prometido.

O apoio político a propostas legislativas, sem a presença de uma vantagem indevida ou outra irregularidade, não configura automaticamente um crime.


PF apura supostas vantagens econômicas

A Polícia Federal afirma ter encontrado indícios de que Jaques Wagner recebeu ou poderia receber vantagens oferecidas por integrantes do núcleo ligado ao Banco Master.

Os relatórios citam viagens em aeronaves particulares, presentes, bebidas de alto valor, ingressos para eventos e uma possível operação imobiliária.

A suspeita dos investigadores é de que esses benefícios poderiam estar relacionados à atuação parlamentar do senador em assuntos de interesse do banco.

Para comprovar uma eventual irregularidade, a investigação precisará estabelecer a origem dos recursos, os responsáveis pelos pagamentos e a existência de uma contrapartida política.

Também será necessário diferenciar presentes e encontros decorrentes de uma relação pessoal de benefícios oferecidos com o objetivo de influenciar decisões públicas.


Lista de presentes incluía autoridades

Os investigadores encontraram uma lista chamada “Lembranças de Fim de Ano”, enviada pela secretária de Augusto Lima em dezembro de 2024.

O documento reunia nomes de autoridades e figuras políticas que receberiam presentes de Natal.

Além de Jaques Wagner, apareciam na relação o prefeito de Salvador, Bruno Reis; o então ministro da Casa Civil, Rui Costa; o ex-deputado ACM Neto; o presidente nacional do União Brasil, Antônio de Rueda; e o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues.

Em seguida, a secretária encaminhou uma relação de vinhos com valores entre R$ 2.500 e R$ 5.300.

Fotografias encontradas posteriormente mostravam embalagens destinadas a “Jaques” e a “Tio Guiga”, referência a Guilherme Sodré, pessoa próxima ao senador.

A presença de um nome em uma lista de presentes, isoladamente, não comprova a prática de irregularidade. A PF deverá confirmar quais itens foram efetivamente entregues, quem pagou por eles e qual era o contexto dos envios.


Mensagens mencionam uso discreto de aeronave

Outro ponto analisado pela Polícia Federal envolve o possível uso de uma aeronave para transportar Jaques Wagner.

No celular de Daniel Vorcaro, os investigadores localizaram mensagens nas quais o ex-controlador do Master teria pedido discrição sobre um voo.

Vorcaro solicitou uma aeronave que não fosse reconhecida e pediu que ela deixasse a Bahia rapidamente depois do transporte.

Em uma das mensagens, teria escrito que o avião não deveria nem desligar o motor.

A PF suspeita que o voo tenha sido organizado para atender ao senador. Os investigadores ainda precisarão esclarecer se Wagner utilizou a aeronave, qual foi o trajeto e quem custeou a operação.

Também será necessário determinar se a viagem estava relacionada a compromissos particulares, políticos ou institucionais.


Ingressos para Taylor Swift custaram mais de R$ 63 mil

A investigação também identificou a compra de ingressos para um show da cantora americana Taylor Swift.

Segundo os relatórios, os bilhetes teriam sido destinados a familiares do senador, à amiga de uma neta e à mãe dessa amiga.

A compra foi atribuída à empresa REAG Investimentos e teria custado aproximadamente R$ 63,3 mil.

A PF apura quem solicitou os ingressos, quem recebeu os bilhetes e qual era a relação da empresa responsável pelo pagamento com o Banco Master.

Os investigadores consideram o episódio uma possível vantagem econômica oferecida ao núcleo familiar do parlamentar.

A apuração deverá verificar se Wagner tinha conhecimento da origem dos ingressos e se houve alguma contrapartida relacionada à sua atuação pública.


Apartamento de R$ 2,45 milhões está sob investigação

Uma das suspeitas consideradas mais relevantes envolve a possível compra de um apartamento para Jaques Wagner.

O imóvel está localizado no empreendimento Poème Horto, em Salvador, e era avaliado em aproximadamente R$ 2,45 milhões.

Segundo a Polícia Federal, o senador enviou a Augusto Lima informações sobre o empreendimento, incluindo o contato do responsável pela venda, o número da unidade e o preço.

Depois disso, Augusto teria procurado operadores financeiros para organizar a aquisição por meio de fundos e empresas interpostas.

A PF sustenta que o modelo seria semelhante ao utilizado na compra de imóveis que teriam sido oferecidos como propina ao ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.

Os investigadores afirmam que as conversas sobre o apartamento destinado a Wagner continuaram mesmo depois da prisão de Vorcaro, ocorrida em novembro de 2025.

A apuração deverá confirmar se o imóvel foi efetivamente adquirido, quem forneceu os recursos e se o senador ou pessoas ligadas a ele receberam algum benefício.


STF autorizou rastreamento do celular

Antes da operação realizada em 18 de junho, o ministro André Mendonça autorizou a Polícia Federal a acompanhar durante dez dias a localização aproximada do telefone celular de Jaques Wagner.

O monitoramento foi realizado por meio dos registros das antenas utilizadas pelas operadoras de telefonia.

A autorização também permitiu acesso ao histórico de ligações, registros de mensagens SMS sem o conteúdo, identificação dos aparelhos, conexões de internet e estações utilizadas pela linha.

O ministro não autorizou a interceptação das chamadas nem o acesso ao conteúdo das conversas.

A medida teve como objetivo identificar deslocamentos, contatos e possíveis encontros relacionados aos fatos investigados.


Pedido de audiência aumentou temor de vazamento

Ao autorizar as medidas, André Mendonça mencionou um episódio que teria aumentado o risco de vazamento da operação.

No mesmo dia em que a Polícia Federal apresentou os pedidos de busca, apreensão e monitoramento telefônico, o gabinete do ministro recebeu uma solicitação de audiência apresentada por um dos alvos.

Para o relator, a coincidência tornou as diligências mais urgentes e reforçou a necessidade de preservar o sigilo.

O episódio não demonstra, por si só, que houve acesso antecipado às informações da operação. A investigação deverá esclarecer se o pedido de audiência teve alguma relação com as medidas solicitadas pela PF.


Wagner foi alvo da Operação Compliance Zero

Jaques Wagner foi alvo de busca e apreensão durante a nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 18 de junho.

As diligências buscaram reunir documentos, aparelhos eletrônicos e outros elementos capazes de esclarecer a relação do senador com executivos ligados ao Banco Master.

O material apreendido deverá ser submetido a perícias e cruzado com as mensagens já encontradas nos celulares de Augusto Lima e Daniel Vorcaro.

A PF também poderá analisar registros de viagens, documentos imobiliários, pagamentos, agendas e contatos com autoridades.

Depois da conclusão das diligências, a corporação deverá apresentar um relatório ao Supremo Tribunal Federal.


Investigação ainda não representa culpa comprovada

Os documentos divulgados apresentam a interpretação da Polícia Federal sobre os elementos obtidos até o momento.

A existência de ligações, reuniões, viagens ou relações pessoais não comprova isoladamente a prática de um crime.

Para uma eventual responsabilização, será necessário demonstrar que houve pagamento ou promessa de vantagem indevida e que o benefício estava ligado a algum ato praticado pelo senador.

Também caberá à defesa de Jaques Wagner apresentar explicações sobre os contatos, as viagens, os ingressos e a negociação do apartamento.

Ao final da investigação, o material poderá ser enviado ao Ministério Público, responsável por avaliar se existem elementos para uma denúncia ou se o caso deve ser arquivado.

Até que haja uma decisão judicial definitiva, deve ser preservado o princípio da presunção de inocência.