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Falha técnica adia depoimento de Vorcaro sobre suspeita de favorecimento ao Banco Master

Antigo controlador da instituição deverá ser ouvido nesta sexta-feira (28) em investigação sobre possíveis vantagens indevidas concedidas a servidores do Banco Central


A Polícia Federal adiou para esta sexta-feira (28) o depoimento de Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master. A oitiva estava marcada para esta quinta-feira (27), mas não foi realizada devido a problemas técnicos. Os investigadores apuram a relação do ex-banqueiro com dois servidores do Banco Central suspeitos de receber vantagens indevidas e atuar em benefício da instituição financeira antes de sua liquidação.

Vorcaro deverá apresentar sua versão sobre os fatos investigados. O depoimento será uma nova etapa do inquérito que analisa a atuação dos ex-supervisores do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza e Bellini Santana durante o período em que o Master enfrentava uma crise de liquidez e era fiscalizado pela autoridade monetária.

O ex-banqueiro está preso preventivamente desde março de 2026. Antes disso, havia sido detido em novembro de 2025, durante a primeira fase da Operação Compliance Zero, mas foi solto dias depois por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região.


Depoimento foi remarcado por questão técnica

Inicialmente, a Polícia Federal havia programado o depoimento de Daniel Vorcaro para esta quinta-feira. Uma questão técnica, entretanto, impediu a realização da oitiva, que foi reagendada para sexta-feira.

A expectativa de pessoas ligadas à defesa é de que o antigo controlador do Banco Master apresente sua versão sobre a relação mantida com os servidores investigados e sobre as decisões tomadas durante a crise da instituição.

O depoimento ocorre em um momento no qual as negociações para um eventual acordo de colaboração premiada estariam travadas. Nesse tipo de acordo, um investigado fornece informações e provas às autoridades em troca de possíveis benefícios previstos na legislação.

A realização da oitiva, contudo, não significa que um acordo será fechado. As tratativas para uma colaboração dependem da avaliação das informações oferecidas, da utilidade dos elementos apresentados e da concordância das autoridades responsáveis pela investigação.


PF investiga possível favorecimento ao Banco Master

O foco do inquérito é esclarecer se servidores que participavam da supervisão do Banco Master receberam vantagens financeiras e, em contrapartida, atuaram em benefício da instituição.

A Polícia Federal apura a conduta de Paulo Sérgio Neves de Souza e Bellini Santana, que mantinham contato com Vorcaro durante o período em que o banco enfrentava dificuldades financeiras e passava por fiscalização.

Segundo as suspeitas investigadas pela PF e pelo próprio Banco Central, os servidores podem ter atuado para favorecer o banqueiro em discussões internas relacionadas à fiscalização, à obtenção de apoio financeiro e às medidas regulatórias que poderiam afetar o futuro do Master.

Os investigadores também buscam saber se houve orientação estratégica, antecipação de questionamentos, compartilhamento de informações internas ou qualquer interferência indevida nos procedimentos de fiscalização.

As suspeitas ainda estão em apuração e não representam uma conclusão definitiva sobre a responsabilidade dos envolvidos.


Problemas no Master começaram a chamar atenção em 2025

As dúvidas sobre a situação do Banco Master ganharam força no início de 2025. Naquele período, a instituição enfrentava dificuldades de liquidez, mas continuava realizando operações bilionárias de cessão de crédito ao Banco de Brasília, o BRB.

Em depoimento à Polícia Federal, o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, relatou que uma equipe do Departamento de Monitoramento analisou as operações e concluiu posteriormente que determinadas carteiras de crédito apresentadas pelo Master não existiam.

Diante dos indícios encontrados, o Banco Central comunicou o caso ao Ministério Público Federal, que encaminhou as informações à Polícia Federal.

De acordo com Aquino, as suspeitas sobre essas operações já haviam chegado ao setor de supervisão comandado por Bellini Santana e acompanhado por Paulo Sérgio. Mesmo assim, segundo o depoimento, os dois teriam demonstrado resistência ao aprofundamento das medidas de fiscalização.

O diretor afirmou que, ao analisar os acontecimentos posteriormente, passou a questionar por que os servidores resistiram ao avanço das apurações sobre as carteiras de crédito.


Possível fusão com o BRB entrou nas discussões

Outro ponto mencionado no depoimento foi a defesa de que os problemas identificados no Banco Master poderiam ser solucionados por meio de uma eventual fusão com o Banco de Brasília.

A Polícia Federal analisa a participação dos servidores nas discussões sobre essa possibilidade e busca identificar se a proposta era uma alternativa institucional ou se estava relacionada a uma tentativa de favorecer o Master.

As operações de cessão de crédito realizadas entre as instituições já despertavam preocupação por causa dos valores envolvidos e da situação de liquidez enfrentada pelo banco de Vorcaro.

A apuração deverá verificar como as informações sobre as carteiras foram avaliadas, quais medidas foram sugeridas pelos responsáveis pela supervisão e se houve resistência injustificada à adoção de providências mais rigorosas.


Investigação apura suspeitas de pagamentos

Uma das principais frentes do inquérito envolve supostos pagamentos destinados aos servidores que atuavam na supervisão do Banco Master.

Ailton de Aquino afirmou à Polícia Federal que foi informado, em janeiro deste ano, pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, sobre relatos anônimos envolvendo Bellini Santana e Paulo Sérgio.

Segundo esses relatos, os dois servidores teriam recebido valores ligados a Daniel Vorcaro. Após tomar conhecimento das suspeitas, Aquino disse ter ouvido ambos.

Bellini teria declarado que foi procurado, em 2023, por uma pessoa ligada ao advogado Leonardo Palhares, que apresentou uma proposta relacionada a projetos sociais. O servidor afirmou ter recebido duas parcelas de R$ 500 mil e, posteriormente, pagamentos mensais por meio de uma empresa criada por ele.

Paulo Sérgio, por sua vez, relatou ter vendido uma propriedade rural localizada em Guaxupé, Minas Gerais, por R$ 4,5 milhões. Ele declarou ter descoberto somente depois que o comprador possuía uma ligação familiar com Vorcaro.

A Polícia Federal busca determinar se os pagamentos e negócios relatados tiveram alguma relação com a atuação dos servidores na fiscalização do Banco Master.


Relação entre servidores e Vorcaro é analisada

O diretor de Fiscalização do Banco Central afirmou considerar normal que supervisores mantenham contato institucional com dirigentes de bancos fiscalizados.

Segundo ele, entretanto, não seria comum que servidores responsáveis pela fiscalização antecipassem questionamentos ou orientassem previamente uma instituição sobre como agir diante da autoridade reguladora.

As investigações indicam que Bellini e Paulo Sérgio mantinham interlocução frequente com Vorcaro e participavam de discussões relacionadas a temas sensíveis envolvendo o banco.

Uma das mensagens analisadas pela Polícia Federal foi enviada por Paulo Sérgio a Daniel Vorcaro em abril de 2025. No conteúdo, o servidor teria mencionado que uma operação de R$ 5 bilhões poderia evitar um impacto de R$ 58 bilhões.

Conforme o relato de Ailton de Aquino, a conversa estaria relacionada a uma possível linha de liquidez do Fundo Garantidor de Créditos para diminuir os impactos de uma eventual liquidação da instituição.

O diretor também declarou que os dois servidores insistiram para que ele recebesse Vorcaro em novembro de 2025. Na ocasião, o banqueiro teria apresentado uma proposta de aporte de investidores árabes para tentar impedir a liquidação do Master.


Banco Central temia vazamento de informações

O possível vazamento de informações internas também é investigado. Conforme o depoimento de Ailton de Aquino, integrantes da cúpula do Banco Central demonstraram preocupação com a possibilidade de decisões e discussões sigilosas chegarem antecipadamente ao conhecimento de pessoas investigadas e da imprensa.

Diante desse cenário, a decisão sobre a liquidação do Banco Master teria sido mantida dentro de um grupo extremamente restrito na instituição.

Aquino afirmou não possuir elementos para concluir que Vorcaro soubesse antecipadamente da liquidação. Segundo ele, porém, a insistência do banqueiro em apresentar uma alternativa de última hora provocou desconfiança entre integrantes do Banco Central.

A PF tenta esclarecer se houve repasse indevido de informações internas e se alguma pessoa ligada ao Master teve acesso antecipado às medidas que estavam sendo discutidas pela autoridade monetária.


Liquidação retirou o banco do mercado

A liquidação é uma medida adotada quando as autoridades identificam que uma instituição financeira não possui condições de continuar funcionando regularmente.

Nesse procedimento, o Banco Central interrompe as operações do banco, retira seus administradores e nomeia um responsável para apurar a situação financeira, organizar os ativos e verificar as obrigações existentes.

No caso do Master, a decisão foi tomada após o agravamento da crise e das dúvidas sobre as operações realizadas pela instituição.

A investigação busca reconstruir o período anterior à liquidação para identificar se houve interferência de servidores, tentativa de favorecimento ou atraso indevido na adoção das medidas de fiscalização.


Servidores também respondem a processos administrativos

Além do inquérito criminal, Paulo Sérgio e Bellini são alvos de quatro processos administrativos disciplinares na Controladoria-Geral da União, sendo dois contra cada servidor.

Os procedimentos estão na fase de depoimentos de testemunhas. Para auxiliar nas apurações, o ministro André Mendonça autorizou o compartilhamento de provas reunidas no inquérito.

Os documentos estão sendo analisados por técnicos responsáveis pelos processos administrativos. As investigações na CGU seguem independentemente da apuração criminal conduzida pela Polícia Federal.


Defesa nega favorecimento e vantagens indevidas

A defesa de Bellini Santana criticou a divulgação de informações de uma investigação sigilosa e afirmou que trechos do depoimento de Ailton de Aquino não apresentariam todo o contexto da fiscalização do Banco Master.

Os advogados sustentam que Bellini não era o único responsável pelo acompanhamento da instituição e que as decisões envolviam diferentes setores e dirigentes do Banco Central.

A defesa também nega que o servidor tenha favorecido o Master, recebido vantagens indevidas ou compartilhado informações sigilosas. Os advogados pediram a apuração da origem dos vazamentos e afirmaram confiar na análise do conjunto das provas.

Os demais citados não haviam apresentado posicionamento até a última atualização das informações. O depoimento de Daniel Vorcaro deverá ajudar a Polícia Federal a confrontar as versões já reunidas e avançar na apuração sobre a atuação dos servidores durante a crise do banco.