André Weiss é investigado por suspeita de participação em esquema de propina envolvendo créditos de ICMS; gravação também registra conversas sobre “rateio” de valores
O ex-diretor-geral da Administração Tributária de São Paulo André Weiss, que ocupou até maio de 2026 o terceiro posto mais alto da Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado, foi preso nesta quinta-feira (3) durante uma nova fase da investigação sobre um suposto esquema de corrupção envolvendo a liberação de créditos de ICMS.
Entre as provas apresentadas pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) está a gravação de um almoço entre auditores fiscais, ocorrido em julho de 2023. No diálogo, Weiss teria sugerido a compra de uma sauna como forma de movimentar e lavar dinheiro em espécie.
A gravação também registra conversas sobre o possível “rateio” de valores relacionados a processos tributários, além da preocupação do ex-dirigente com demonstrações públicas de riqueza. Em determinado momento, ele comenta que a compra de um automóvel Mercedes poderia chamar a atenção das autoridades e resultar em sua prisão.
De acordo com a investigação, Weiss teria recebido cerca de R$ 4,5 milhões em propina, com parte dos recursos entregue em dinheiro vivo dentro de mochilas. Ele é apontado pelo MPSP como um dos responsáveis pelo núcleo formado por agentes públicos no esquema investigado.
O advogado João André Buttini de Moraes também teve a prisão decretada. Outros seis agentes públicos foram afastados das funções e ficaram proibidos de acessar as dependências e os sistemas da Secretaria da Fazenda paulista.
Gravação foi encontrada no celular de auditor fiscal
A conversa que passou a integrar a investigação ocorreu em 27 de julho de 2023 e foi gravada por um dos participantes do almoço. Posteriormente, o arquivo foi encontrado no celular do auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto, preso em agosto de 2025 durante a Operação Ícaro.
O áudio tem mais de duas horas de duração e foi analisado pelo Núcleo de Computação Forense do Centro de Apoio Operacional à Execução. Segundo o MPSP, a perícia confirmou a integridade da gravação.
A Justiça também considerou que o material pode ser utilizado como prova, uma vez que o registro foi realizado por uma pessoa que participou da conversa. Dessa forma, não teria ocorrido uma interceptação clandestina conduzida pelos investigadores.
O conteúdo foi relacionado a outras provas reunidas durante a apuração, incluindo documentos manuscritos, movimentações bancárias, relatórios de inteligência financeira, quebras de sigilo e informações fornecidas em acordo de colaboração premiada.
Ex-dirigente falou sobre comprar sauna para lavar dinheiro
Durante o almoço, André Weiss teria mencionado a possibilidade de reunir dinheiro para comprar uma sauna em São Paulo. Na mesma conversa, ele afirmou que o estabelecimento poderia ser utilizado para reuniões e também seria conveniente para a lavagem de recursos.
O argumento apresentado por Weiss, conforme a transcrição do áudio, era de que muitos clientes de saunas realizariam pagamentos em dinheiro, evitando o uso de cartões. Na avaliação do MPSP, a declaração descreve, em primeira pessoa, uma possível maneira de ocultar a origem de valores ilícitos por meio de um negócio com circulação de recursos em espécie.
Apesar da conversa, os documentos da investigação não indicam que a compra do estabelecimento tenha sido efetivamente realizada.
A fala tornou-se um dos pontos de destaque do processo por apresentar uma discussão direta sobre lavagem de dinheiro entre agentes públicos investigados por suposto recebimento de propina.
Weiss teria demonstrado medo de ser preso e aparecer nos jornais
Em outro trecho da gravação, o ex-dirigente da Fazenda paulista comenta sobre os riscos de exibir um padrão de vida incompatível com os rendimentos declarados.
Weiss cita como exemplo a compra de uma Mercedes avaliada em aproximadamente R$ 250 mil. Segundo a transcrição, ele temia que aparecer dirigindo o veículo até uma delegacia chamasse a atenção das autoridades e levasse o caso aos jornais.
Na sequência, o então auditor também teria mencionado a possibilidade de ser algemado e preso por determinação de um promotor.
Para os investigadores, a conversa indica que os participantes tinham consciência da necessidade de evitar sinais externos de enriquecimento que pudessem levantar suspeitas sobre a origem dos recursos.
O almoço ocorreu menos de um mês antes da primeira entrega de propina relatada pelo ex-delegado regional tributário do Butantã Paulo Sérgio Siqueira Prado, conhecido como PP. Ele firmou um acordo de colaboração premiada e apresentou informações sobre o funcionamento do esquema.
Conversa menciona “rateio” de valores tributários
Além das referências à lavagem de dinheiro e ao risco de prisão, a gravação registra discussões sobre pedidos de ressarcimento de ICMS apresentados por grandes redes varejistas.
Durante o encontro, Weiss foi questionado sobre o tema de uma reunião reservada que teria mantido com Paulo Prado. Ele respondeu utilizando a palavra “rateio”.
Os fiscais também conversaram sobre três processos cujos números ou valores não estariam correspondendo e combinaram um novo encontro para analisar o assunto. Há ainda referências e comentários sobre supostas “caixinhas” mantidas por servidores.
Segundo a interpretação apresentada pelo MPSP, os diálogos indicam que os participantes discutiam a divisão de vantagens indevidas relacionadas à análise e à liberação de créditos tributários.
A decisão judicial que autorizou as prisões destacou que o conteúdo da gravação ganha maior relevância quando considerado em conjunto com as demais evidências. Entre elas estão anotações sobre a divisão de dinheiro e informações financeiras obtidas pelos investigadores.
Investigação aponta entrega de R$ 4,5 milhões em mochilas
Em seu acordo de colaboração premiada, Paulo Prado declarou ter recebido aproximadamente R$ 13,6 milhões do advogado João André Buttini de Moraes. O dinheiro seria destinado a agilizar ou destravar processos de ressarcimento tributário.
Segundo o colaborador, cerca de R$ 4,5 milhões foram repassados posteriormente a André Weiss. As entregas teriam sido realizadas em dinheiro vivo, colocado dentro de mochilas.
Os encontros teriam ocorrido principalmente em restaurantes da Rua Ferreira de Araújo e em uma unidade da Ofner localizada na Rua Pedroso de Moraes, em Pinheiros, na Zona Oeste da capital paulista.
Paulo Prado afirmou ainda que, a partir de meados de 2023, começou a pagar parcelas mensais de R$ 250 mil a Weiss. Em contrapartida, ele seria mantido no comando da Delegacia Regional Tributária do Butantã até sua aposentadoria, ocorrida em 2024.
De acordo com outra linha apresentada pela investigação, os repasses teriam começado em abril de 2023, quando Weiss assumiu a Diretoria de Fiscalização. Mais tarde, ele foi promovido à chefia da Diretoria Executiva da Administração Tributária.
Documentos indicariam divisão de recursos
Durante buscas realizadas na residência de Paulo Prado, os investigadores encontraram documentos manuscritos com possíveis divisões de valores.
Uma das anotações atribui a “Weiss” uma parcela de R$ 747,1 mil, relacionada a um processo tributário envolvendo a Via.
Para a Justiça, esse tipo de documento ajuda a sustentar as declarações apresentadas na colaboração premiada. O magistrado responsável pelo caso ressaltou que as acusações não estão baseadas exclusivamente no relato do colaborador.
Os investigadores também analisaram registros bancários, comunicações, relatórios de inteligência financeira e informações sobre os processos tributários citados pelos envolvidos.
Como funcionaria o esquema de fraude em créditos de ICMS
A investigação do Grupo de Atuação Especial de Repressão aos Delitos Econômicos, o Gedec, indica que empresas interessadas em acelerar o ressarcimento de créditos de ICMS pagavam propina a servidores públicos.
O processo regular para a liberação desses créditos pode levar anos. Com a participação dos agentes investigados, determinadas empresas teriam recebido tratamento privilegiado na fila de análise.
Em alguns casos, segundo o MPSP, os valores dos créditos também teriam sido inflados. Como os créditos de ICMS podem ser transferidos e negociados, as vantagens concedidas poderiam representar ganhos financeiros elevados para as empresas participantes.
O dinheiro teria circulado por meio do escritório de advocacia Buttini de Moraes e da consultoria BM Tax. Os clientes pagariam honorários milionários em troca de facilidades nos processos tributários.
A Smart Tax, empresa de contabilidade registrada em nome da mãe de Artur Gomes da Silva Neto, teria emitido mais de R$ 1 bilhão em notas fiscais. A suspeita é de que os documentos fossem utilizados para dar aparência legítima aos recursos obtidos pelo esquema.
Operação Ícaro já alcançou empresários e grandes varejistas
As prisões desta quinta-feira representam um novo desdobramento da Operação Ícaro, deflagrada originalmente em agosto de 2025.
A investigação já resultou em medidas contra auditores fiscais, advogados e executivos ligados a grandes empresas. Entre os nomes atingidos anteriormente está o empresário Sidney Oliveira, fundador da Ultrafarma.
A Fast Shop, apontada pelo MPSP como beneficiária de aproximadamente R$ 936,4 milhões em vantagens, recebeu uma multa de R$ 1,04 bilhão. O valor foi apresentado como a maior penalidade já aplicada com base na Lei Anticorrupção.
Quando as primeiras denúncias ganharam repercussão, André Weiss teria sido responsável por escolher oito auditores fiscais para formar um grupo de trabalho destinado ao combate às próprias fraudes investigadas.
Ex-dirigente é apontado como integrante do núcleo público
Weiss ocupou um cargo estratégico na estrutura da Secretaria da Fazenda paulista. Na hierarquia da pasta, estava subordinado somente ao subsecretário da Receita Estadual e ao secretário da Fazenda.
Ele assumiu a Diretoria de Fiscalização em abril de 2023 e posteriormente chegou ao comando da Diretoria Executiva da Administração Tributária. A partir de novembro daquele ano, passou a ocupar o terceiro posto mais importante da secretaria. O ex-dirigente deixou a função em maio de 2026.
Para o Ministério Público, Weiss comandava o núcleo público da organização criminosa, composto pelos servidores que teriam utilizado seus cargos para beneficiar empresas e intermediários.
Os investigados poderão responder por organização criminosa, corrupção ativa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. As responsabilidades individuais ainda serão analisadas durante o andamento do processo.
Prisões e afastamentos foram determinados pela Justiça
André Weiss e João André Buttini de Moraes foram presos nesta quinta-feira durante o cumprimento das determinações judiciais.
Além das prisões, seis agentes públicos foram afastados de seus cargos. Eles também ficaram impedidos de entrar nas unidades da Secretaria da Fazenda e de acessar os sistemas internos do órgão.
As medidas foram autorizadas diante do risco apontado pelos investigadores de interferência na coleta de provas e da possibilidade de continuidade das irregularidades.
As prisões possuem caráter cautelar e não representam condenação definitiva. Os investigados têm direito à defesa e são considerados inocentes até eventual decisão judicial transitada em julgado.
O que diz a Secretaria da Fazenda de São Paulo
Em nota, a Secretaria da Fazenda e Planejamento informou que atua em conjunto com o Ministério Público desde o início da Operação Ícaro para garantir a apuração dos fatos.
Segundo a pasta, as medidas administrativas adotadas até o momento resultaram na demissão de cinco servidores, exoneração de outro agente e afastamento de 17 funcionários sem remuneração.
A secretaria declarou ainda que as empresas envolvidas também estão sendo responsabilizadas. As autuações já teriam provocado a constituição de mais de R$ 3 bilhões em créditos tributários, multas e juros.
O órgão afirmou que novos fatos revelados pela investigação, incluindo informações provenientes de acordos de colaboração ou denúncias, serão analisados. Caso as irregularidades sejam comprovadas, novas medidas deverão ser adotadas.
A Secretaria da Fazenda também declarou que colabora integralmente com as autoridades e que não tolera condutas irregulares.
As defesas de André Weiss e dos demais investigados foram procuradas pelos veículos responsáveis pela apuração original. Até a publicação das informações apresentadas, não havia manifestação divulgada. O espaço permanece aberto para posicionamentos.