Embaixador brasileiro foi convocado e recebeu uma nota de repúdio do governo paraguaio, que acusa o presidente de apresentar uma versão distorcida do conflito. Assunção também pediu a devolução de troféus de guerra.
O governo do Paraguai entregou nesta sexta-feira (31) uma nota formal de repúdio ao embaixador brasileiro em Assunção, José Antonio Marcondes de Carvalho, após uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a Guerra da Tríplice Aliança.
O diplomata havia sido convocado pelo Ministério das Relações Exteriores do Paraguai para prestar esclarecimentos. A nota recebida por ele foi endereçada ao chanceler brasileiro, Mauro Vieira.
No documento, o governo paraguaio afirma que as declarações de Lula apresentam de forma distorcida acontecimentos históricos de grande importância para o país. Assunção também defende que o conflito seja abordado com responsabilidade, respeito recíproco e reconhecimento de sua complexidade.
A reação começou depois que Lula afirmou, na sexta-feira (24), que o Paraguai invadiu Brasil, Argentina e Uruguai no século XIX, provocando uma guerra que durou aproximadamente cinco anos.
A fala causou indignação entre autoridades, parlamentares e parte da população paraguaia. Apesar do protesto, o governo do presidente Santiago Peña declarou que não pretende aprofundar a crise diplomática com o Brasil.
Paraguai rejeita versão apresentada por Lula
Na declaração que provocou a reação, Lula afirmou que o Paraguai decidiu invadir o Brasil e mencionou a entrada das forças paraguaias em Corumbá. O presidente também disse que o país invadiu Argentina e Uruguai, dando início a uma guerra que inicialmente parecia pequena, mas se prolongou por cinco anos.
O governo paraguaio considerou que a explicação atribuiu de maneira simplificada ao Paraguai a responsabilidade pelo conflito.
A Guerra da Tríplice Aliança, também conhecida no Brasil como Guerra do Paraguai, aconteceu entre 1864 e 1870. O conflito colocou o Paraguai contra uma aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai.
A guerra ocorreu em um período marcado por disputas territoriais, interesses sobre a navegação na Bacia do Prata e instabilidade política na região. Forças paraguaias atacaram a província brasileira de Mato Grosso e avançaram sobre território argentino depois que o governo da Argentina negou passagem às tropas de Solano López.
O conflito terminou com a derrota do Paraguai e provocou consequências profundas para a população e para a economia do país.
Estimativas frequentemente utilizadas por autoridades paraguaias indicam que aproximadamente 70% da população teria morrido. O número exato é discutido por historiadores devido à falta de levantamentos populacionais precisos naquele período, mas existe consenso sobre a dimensão da devastação.
Por causa desse impacto, a guerra permanece como um tema extremamente sensível para a sociedade paraguaia.
Embaixador brasileiro é convocado
José Antonio Marcondes de Carvalho participou de uma reunião com o vice-presidente do Paraguai, Pedro Alliana, e representantes da chancelaria paraguaia.
Também estiveram presentes o ministro das Relações Exteriores, Rubén Ramírez Lezcano, o vice-chanceler Víctor Verdún e um representante da embaixada brasileira.
Durante o encontro, as autoridades entregaram a nota de repúdio e apresentaram formalmente o descontentamento com a fala de Lula.
Segundo o documento, acontecimentos históricos devem ser tratados com responsabilidade e espírito de reconciliação. O Paraguai também afirmou que a distorção desses fatos não contribui para consolidar o futuro comum entre os dois países.
A convocação de um embaixador é um mecanismo diplomático utilizado por um governo para solicitar explicações ou demonstrar insatisfação. A medida representa um protesto oficial, mas não significa o rompimento das relações diplomáticas.
O embaixador brasileiro explicou durante a reunião que Lula não teve a intenção de desrespeitar ou insultar o Paraguai.
Paraguai pede devolução de troféus de guerra
Além de repudiar a declaração de Lula, o governo paraguaio retomou uma reivindicação histórica dirigida ao Brasil.
A nota solicita a devolução de um canhão e de outros objetos classificados como troféus de guerra. Assunção também pediu cópias de documentos históricos mantidos no Brasil sobre o conflito.
Para o Paraguai, a entrega do material representaria um gesto de reparação e reconciliação.
Os pedidos relacionados aos objetos levados durante a guerra já apareceram em outros momentos da relação entre os dois países. Uma eventual devolução dependerá de negociações diplomáticas e da análise do governo brasileiro sobre a situação dos itens preservados por instituições nacionais.
A inclusão desse tema na nota amplia o alcance do protesto, que passou a envolver não apenas a declaração recente de Lula, mas também questões históricas ainda consideradas pendentes por Assunção.
Governo paraguaio não quer ampliar crise
Após a reunião, o vice-presidente Pedro Alliana afirmou que o descontentamento foi apresentado pelos mais altos canais diplomáticos e do Poder Executivo.
Mesmo com a nota de repúdio, Alliana ressaltou que o Paraguai não pretende aprofundar a crise com o Brasil.
O vice-presidente classificou brasileiros e paraguaios como povos irmãos e destacou a longa história de cooperação entre os dois países.
Ele também mencionou a importância da parceria dentro do Mercosul e na administração da Usina Hidrelétrica de Itaipu, localizada na fronteira entre as duas nações.
Segundo Alliana, o Paraguai pretende manter um diálogo franco, respeitoso e construtivo. O governo defende que a história seja um ponto de partida para a construção de um futuro comum, e não uma causa permanente de conflito.
A manifestação indica que Assunção considera necessário registrar oficialmente sua insatisfação, mas busca impedir que o episódio prejudique interesses políticos, econômicos e energéticos compartilhados com o Brasil.
Divergência sobre telefonema aumentou desconforto
A tensão aumentou após versões diferentes sobre uma possível conversa entre Lula e o presidente paraguaio, Santiago Peña.
A chancelaria do Paraguai informou que os dois presidentes haviam conversado por telefone sobre as declarações. O governo brasileiro, entretanto, negou que o contato tivesse ocorrido.
Durante a entrevista coletiva desta sexta-feira, o chanceler Rubén Ramírez Lezcano reafirmou que Peña disse ter conversado com Lula.
A divergência acrescentou um novo ponto de atrito ao episódio e ampliou a cobrança por esclarecimentos do governo brasileiro.
Apesar disso, as autoridades paraguaias voltaram a defender a preservação das relações bilaterais. O Itamaraty deverá analisar a nota endereçada a Mauro Vieira e decidir como responder formalmente ao protesto.
Brasil e Paraguai compartilham uma extensa fronteira, integram o Mercosul e administram conjuntamente Itaipu. A importância dessas relações deve contribuir para que os dois governos tentem encerrar o mal-estar sem comprometer a cooperação.
