Prévia da inflação oficial ficou abaixo das expectativas do mercado e desacelerou para 4,24% no acumulado de 12 meses, segundo dados divulgados pelo IBGE
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15, o IPCA-15, registrou queda de 0,40% em agosto, segundo dados divulgados nesta quarta-feira (26) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado representa uma deflação, quando os preços médios dos produtos e serviços pesquisados diminuem em relação ao mês anterior.
A redução foi puxada principalmente pela conta de energia elétrica, pelas passagens aéreas, pelos combustíveis e pelos alimentos consumidos dentro de casa. Habitação, Transportes e Alimentação e bebidas foram os grupos que mais contribuíram para a queda do indicador.
Com o resultado de agosto, o IPCA-15 acumula alta de 3,09% em 2026 e de 4,24% nos últimos 12 meses. Nesse último recorte, houve uma desaceleração em comparação com os 4,52% registrados no período imediatamente anterior.
A queda também foi maior do que a observada em agosto de 2025, quando o índice havia recuado 0,14%. Aquela havia sido a última deflação registrada pelo IPCA-15 antes do resultado atual.
Resultado ficou abaixo das expectativas do mercado
A deflação de 0,40% surpreendeu o mercado financeiro. As projeções consideradas por analistas variavam entre uma alta de 0,25% e uma queda de 0,30%.
O resultado abaixo das estimativas indica que os preços apresentaram um comportamento mais favorável durante o período analisado pelo IBGE.
Na avaliação do economista Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, a inflação menor que a esperada pode contribuir para a redução dos juros negociados pelo mercado para os prazos mais curtos.
Outros fatores econômicos, como a melhora no comportamento dos preços internacionais do petróleo e a valorização do real, também podem colaborar para diminuir as pressões inflacionárias.
Apesar da deflação mensal, o resultado não significa que todos os produtos e serviços ficaram mais baratos. Alguns grupos, como Despesas pessoais, Educação e Saúde e cuidados pessoais, continuaram registrando aumentos em agosto.
Conta de luz foi a principal responsável pela queda
O grupo Habitação apresentou redução de 1,41% em agosto, exercendo o maior impacto negativo sobre o IPCA-15. Sozinho, o segmento retirou 0,22 ponto percentual do índice.
O principal destaque foi a energia elétrica residencial, que ficou 6,25% mais barata. A conta de luz retirou, individualmente, 0,26 ponto percentual do resultado total.
A redução ocorreu principalmente após a inclusão do Bônus de Itaipu nas faturas emitidas em agosto. O benefício devolveu aos consumidores parte do saldo positivo obtido com a comercialização da energia produzida pela usina.
Mesmo com a queda, a bandeira tarifária amarela permaneceu em vigor durante o mês. Esse mecanismo acrescenta R$ 1,885 às contas de energia a cada 100 quilowatts-hora consumidos.
O efeito do bônus, no entanto, foi suficiente para superar o custo adicional provocado pela bandeira e produzir uma redução expressiva no preço médio da energia residencial.
Como a eletricidade possui um peso relevante no orçamento das famílias, o recuo contribuiu diretamente para a deflação registrada na prévia da inflação.
Gasolina e passagens aéreas ficaram mais baratas
O grupo Transportes recuou 1% em agosto, depois de registrar alta de 0,11% em julho. A queda retirou 0,20 ponto percentual do IPCA-15.
As passagens aéreas ficaram 13,30% mais baratas, representando uma das reduções mais expressivas entre todos os produtos e serviços pesquisados pelo IBGE.
Os combustíveis também apresentaram queda média de 1,43%. O etanol recuou 3,63%, enquanto a gasolina ficou 1,23% mais barata. O óleo diesel apresentou redução de 0,71%.
Na direção contrária, o gás veicular subiu 1,42%. As tarifas de táxi aumentaram 0,20%, influenciadas por um reajuste de 8,42% aplicado em Belo Horizonte a partir de 8 de agosto.
Mesmo com alguns aumentos pontuais, as quedas nos preços das passagens e dos combustíveis foram suficientes para fazer o grupo Transportes exercer uma contribuição negativa sobre a inflação do mês.
Alimentos consumidos em casa recuam 0,97%
O grupo Alimentação e bebidas apresentou queda de 0,57% em agosto, retirando 0,12 ponto percentual do IPCA-15. O resultado foi influenciado principalmente pelos alimentos consumidos dentro de casa, que ficaram 0,97% mais baratos.
O tomate apresentou a maior redução, com queda de 27,38%. A batata-inglesa ficou 25,14% mais barata, enquanto a cenoura recuou 17,05%.
O preço do café moído, que vinha pressionando o orçamento das famílias, diminuiu 2,31%. O feijão-carioca também registrou queda superior a 2%.
Na avaliação de economistas, a redução da alimentação no domicílio é um dos principais destaques do resultado porque envolve produtos presentes na rotina e na mesa de milhões de brasileiros.
Depois de períodos de aumentos consecutivos, a queda representa um alívio principalmente para as famílias de menor renda, que destinam uma parcela maior do orçamento à compra de alimentos.
Nem todos os produtos, entretanto, ficaram mais baratos. O leite longa vida subiu 3,41%, enquanto as frutas registraram aumento médio de 3,11%.
Alimentação fora de casa continua mais cara
Enquanto os produtos consumidos dentro de casa apresentaram redução, a alimentação fora do domicílio subiu 0,42% em agosto.
Apesar da alta, o resultado representa uma desaceleração em comparação com julho, quando os preços haviam aumentado 0,55%.
Os lanches ficaram 0,75% mais caros, após uma alta de 0,30% no mês anterior. As refeições subiram 0,25%, abaixo do avanço de 0,66% observado em julho.
A diferença mostra que a queda nas matérias-primas e nos alimentos vendidos em supermercados ainda não foi totalmente repassada aos preços cobrados por bares, lanchonetes e restaurantes.
Custos como aluguel, mão de obra, energia e transporte também influenciam os valores da alimentação fora de casa.
Despesas pessoais registram a maior alta
O grupo Despesas pessoais apresentou a maior elevação entre os segmentos pesquisados pelo IBGE, com alta de 0,66% em agosto.
O resultado foi influenciado principalmente pelo preço dos cigarros, que aumentou 5,56% após um reajuste aplicado a partir de 1º de agosto.
Mesmo com a queda do índice geral, o avanço das despesas pessoais mostra que a deflação não foi distribuída de maneira uniforme entre os diferentes tipos de consumo.
Serviços e produtos incluídos nesse grupo continuaram pressionando o orçamento, embora o impacto tenha sido compensado pelas reduções na energia, nos transportes e na alimentação.
Educação e saúde também apresentam aumentos
O grupo Educação avançou 0,46% em agosto. Os cursos regulares ficaram 0,52% mais caros, com alta de 0,58% no ensino fundamental e de 0,49% no ensino superior.
Os demais cursos subiram 0,36%, influenciados principalmente pelo aumento de 0,92% nos cursos de idiomas.
Saúde e cuidados pessoais apresentou elevação de 0,40%. Os produtos de higiene pessoal ficaram 0,47% mais caros, enquanto os planos de saúde subiram 0,42%.
No caso dos planos de saúde, o resultado incorpora os reajustes autorizados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar, a ANS.
Para contratos firmados após a Lei nº 9.656, de 1998, o reajuste pode chegar a 5,11%, com aplicação entre maio de 2026 e abril de 2027. Nos contratos anteriores à legislação, os percentuais autorizados foram de 5,52% e 6,20%, dependendo do plano.
Veja como ficaram os grupos pesquisados
Dos nove grupos analisados pelo IBGE, cinco apresentaram aumento, enquanto quatro registraram redução ou estabilidade negativa.
Habitação teve a maior queda, de 1,41%, seguida por Transportes, com recuo de 1%. Alimentação e bebidas diminuiu 0,57%, Vestuário caiu 0,20% e Comunicação apresentou leve redução de 0,02%.
Entre os grupos que ficaram mais caros, Despesas pessoais liderou com alta de 0,66%. Educação avançou 0,46%, Saúde e cuidados pessoais subiu 0,40% e Artigos de residência registrou variação de 0,04%.
O comportamento dos diferentes segmentos mostra que a deflação de agosto foi concentrada em itens com impacto relevante no orçamento, especialmente energia elétrica, combustíveis, passagens aéreas e alimentos consumidos em casa.
O que é o IPCA-15
O IPCA-15 é considerado uma prévia da inflação oficial do Brasil. O indicador utiliza a mesma metodologia do IPCA, mas possui um período de coleta diferente.
A pesquisa acompanha os preços de produtos e serviços consumidos por famílias com renda mensal entre um e 40 salários mínimos em determinadas regiões do país.
Por antecipar a tendência do índice oficial, o IPCA-15 é observado pelo mercado financeiro, pelo governo e pelo Banco Central na avaliação do comportamento dos preços.
Os dados também ajudam a orientar expectativas sobre juros, atividade econômica e poder de compra da população.
Em agosto, a queda de 0,40% trouxe um sinal de alívio, especialmente pela redução de despesas essenciais. Entretanto, o acumulado de 4,24% em 12 meses mostra que o comportamento da inflação continuará sendo acompanhado nos próximos meses.
