Polícia Federal e CGU cumprem 49 mandados de busca e apreensão em quatro estados; investigação apura o possível direcionamento de recursos públicos relacionados ao filme “Dark Horse”
A Polícia Federal (PF) e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram nesta quinta-feira (10) a Operação Make Up, destinada a investigar um suposto esquema de desvio de recursos provenientes de emendas parlamentares. Entre os alvos estão o deputado federal Mario Frias (PL-SP) e a produtora Karina Gama, responsável pelo filme “Dark Horse”, produção ainda não lançada que contará a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Ao todo, são cumpridos 49 mandados de busca e apreensão em endereços localizados nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará, além do Distrito Federal. Não foram expedidos mandados de prisão.
Também são alvo das buscas duas entidades pertencentes a Karina Gama: o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC). A investigação analisa a aplicação de recursos públicos destinados às organizações e possíveis conexões entre os repasses e empresas envolvidas na produção cinematográfica.
O caso tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) e está sob a relatoria do ministro Flávio Dino. O inquérito teve início em São Paulo, mas foi posteriormente levado ao Supremo devido à presença de autoridade com foro por prerrogativa de função entre os investigados.
Operação apura direcionamento de dinheiro público
Segundo a Polícia Federal, a investigação identificou indícios da atuação de uma possível organização criminosa formada por agentes públicos e integrantes do setor privado. O grupo teria direcionado recursos transferidos a uma organização da sociedade civil para empresas subcontratadas de maneira irregular.
Os investigadores suspeitam que parte dos serviços contratados não tenha sido efetivamente prestada ou devidamente comprovada. A apuração também procura esclarecer como os recursos circularam entre organizações, empresas e pessoas relacionadas aos contratos examinados.
A PF informou ter identificado movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas ligadas ao suposto esquema. De acordo com a corporação, possíveis tentativas de ocultar os desvios teriam continuado até julho de 2026.
Os investigados podem responder, conforme a participação eventualmente demonstrada ao longo do inquérito, pelos crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e delitos relacionados a licitações.
As diligências desta quinta-feira têm como objetivo recolher documentos, equipamentos eletrônicos, registros financeiros e outros materiais que possam contribuir para a identificação do destino dos valores. As buscas não representam condenação, e as responsabilidades individuais ainda deverão ser estabelecidas durante a investigação.
Emenda de Mario Frias está entre os repasses analisados
Uma auditoria realizada pela CGU apontou suspeitas envolvendo uma emenda parlamentar de R$ 2 milhões indicada por Mario Frias para entidades ligadas a Karina Gama. Entre os problemas encontrados estariam despesas sem comprovação suficiente.
A investigação busca determinar se o dinheiro público foi aplicado nas finalidades previstas ou se acabou direcionado a empresas e projetos sem relação regular com o objeto da emenda.
Mario Frias foi secretário especial da Cultura durante o governo de Jair Bolsonaro e atualmente exerce mandato de deputado federal por São Paulo. Karina Gama, por sua vez, está ligada à produção de “Dark Horse” e administra organizações que receberam ou mantiveram contratos envolvendo recursos públicos.
A Operação Make Up procura estabelecer se houve conexão entre os recursos originados de emendas parlamentares, os contratos firmados pelas entidades e o financiamento da produção cinematográfica.
Filme “Dark Horse” é investigado em dois inquéritos no STF
O financiamento de “Dark Horse” aparece em duas investigações diferentes sob a supervisão de ministros do Supremo Tribunal Federal.
O procedimento relatado por Flávio Dino concentra-se no possível uso irregular de emendas parlamentares e de outros recursos públicos destinados a entidades e empresas relacionadas à produtora do filme.
Outra investigação, conduzida sob a relatoria do ministro André Mendonça, examina os repasses realizados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Nesse segundo caso, as autoridades investigam a origem, o percurso e a destinação de valores enviados para financiar a produção.
Embora os dois inquéritos estejam relacionados ao mesmo filme, eles analisam fontes distintas de financiamento. Um trata principalmente de dinheiro público e emendas parlamentares. O outro acompanha transferências privadas atribuídas a Vorcaro e realizadas por meio de estruturas financeiras nos Estados Unidos.
Produção contará a trajetória de Jair Bolsonaro
Ainda sem data de lançamento, “Dark Horse” pretende apresentar a história política e pessoal do ex-presidente Jair Bolsonaro. O ator norte-americano Jim Caviezel foi escolhido para interpretar Bolsonaro no longa-metragem.
A dimensão dos valores envolvidos no financiamento da produção passou a chamar a atenção dos investigadores após a divulgação de mensagens, áudios e documentos relacionados a pedidos de recursos.
Reportagem publicada em maio revelou uma conversa na qual o senador Flávio Bolsonaro (PL) teria solicitado dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar o projeto. De acordo com as informações divulgadas, o ex-banqueiro teria transferido pelo menos R$ 61 milhões ao longo de 2025.
O dinheiro teria sido enviado para um fundo sediado nos Estados Unidos e administrado por Paulo Calixto, advogado ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro. A investigação tenta esclarecer se todo o montante foi realmente empregado na produção do filme ou se uma parte teve destinação diferente.
Flávio Bolsonaro e a produtora Go Up sustentam que os recursos foram destinados ao longa-metragem. A PF, entretanto, apura a hipótese de que uma parcela possa ter sido usada para outras finalidades, incluindo despesas relacionadas à permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Delação aponta sete transferências para fundo nos Estados Unidos
Um novo capítulo da investigação ocorreu na quarta-feira (9), quando o ministro André Mendonça homologou o acordo de colaboração premiada de Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”.
O empresário é proprietário da Entre Investimentos, empresa apontada como responsável por realizar transferências para “Dark Horse” a pedido de Daniel Vorcaro. O acordo foi firmado com a Procuradoria-Geral da República (PGR) em 8 de agosto.
Na colaboração, Mineiro afirmou ter feito sete repasses ao fundo Havengate, nos Estados Unidos, apresentados formalmente como subscrições de cotas. As transferências teriam ocorrido entre janeiro e setembro de 2025.
Somados, os depósitos chegaram a US$ 12,333 milhões. Considerando a cotação registrada em setembro daquele ano, o montante correspondia a aproximadamente R$ 62,8 milhões.
A subscrição de cotas acontece quando um fundo emite novas participações para receber aportes de investidores e ampliar seu patrimônio. Os investigadores agora procuram verificar se essa estrutura foi usada apenas como mecanismo regular de investimento ou se serviu para dificultar a identificação do destino final do dinheiro.
A existência de uma transferência feita em setembro de 2025 também passou a ser analisada porque contraria declarações anteriores de Flávio Bolsonaro. O senador afirmava que o último pagamento realizado por Vorcaro teria ocorrido em maio daquele ano. Segundo a delação, entretanto, houve em setembro um repasse de US$ 1,666 milhão.
Empresário relatou entrega de dinheiro em malas
Além dos pagamentos relacionados ao filme, Antonio Carlos Freixo Junior declarou que seria responsável por gerar dinheiro em espécie para a equipe de Daniel Vorcaro.
Segundo o relato do colaborador, os valores eram entregues em malas e poderiam ter sido utilizados no pagamento de vantagens indevidas. Essa parte da delação amplia o alcance das apurações relacionadas ao ex-banqueiro e às empresas que teriam atuado em seu nome.
A homologação pelo STF não significa que todas as declarações do colaborador foram confirmadas. A delação premiada é considerada um meio de obtenção de provas, e não uma prova isolada suficiente para fundamentar uma condenação.
Por isso, as autoridades precisam buscar documentos, registros bancários, mensagens, depoimentos e outros elementos que confirmem ou descartem as informações fornecidas pelo empresário.
Instituto de Karina Gama possui contrato de R$ 108 milhões com Prefeitura de São Paulo
O Instituto Conhecer Brasil, uma das entidades de Karina Gama atingidas pelas buscas, também aparece em outra investigação conduzida pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil.
A organização mantém um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalar pontos gratuitos de internet sem fio em bairros periféricos da capital.
O acordo previa a entrega de 5 mil pontos de wi-fi até junho de 2025. No entanto, de acordo com as informações do caso, cerca de 3.200 equipamentos haviam sido instalados até o período analisado.
Pelo menos três termos aditivos foram assinados para alterar o prazo de conclusão dos serviços. O Ministério Público apura possíveis irregularidades na contratação da entidade, incluindo questionamentos relacionados à concorrência adotada no processo.
Essa investigação é diferente da Operação Make Up, embora envolva a mesma organização. As autoridades deverão apurar separadamente as responsabilidades relacionadas ao contrato municipal e às emendas parlamentares.
Buscas devem ajudar a esclarecer destino dos recursos
Com os materiais recolhidos durante a operação, a Polícia Federal pretende reconstruir o caminho dos recursos públicos e privados associados às entidades investigadas e ao financiamento de “Dark Horse”.
A análise deverá verificar quem autorizou os pagamentos, quais empresas receberam os valores, quais serviços foram contratados e se houve entrega compatível com os montantes transferidos.
Os investigadores também deverão confrontar os documentos apreendidos com os dados bancários já reunidos e com as declarações apresentadas no acordo de colaboração premiada.
A partir dessas informações, será possível avaliar se os diferentes núcleos da investigação estão conectados e se parte dos recursos destinados às organizações foi desviada ou empregada para ocultar pagamentos.
Até a conclusão das apurações, Mario Frias, Karina Gama e os demais citados são considerados investigados, sem condenação definitiva pelos fatos examinados. As defesas poderão apresentar esclarecimentos e contestar as suspeitas levantadas pela PF, pela CGU e pelos demais órgãos responsáveis pelos inquéritos.