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UEFA declara boicote à Fifa e coloca Copa Feminina de 2027 em risco

As 55 federações ligadas à Uefa decidiram abandonar as competições da entidade enquanto permanecer em discussão o plano de vender participação em uma nova empresa a investidores privados


A Uefa anunciou nesta quinta-feira (30) que suas 55 federações nacionais boicotarão todas as competições organizadas pela Fifa enquanto permanecer em discussão a proposta de abrir parte das operações comerciais dos torneios para investidores privados.

A decisão foi tomada por unanimidade durante uma reunião emergencial realizada por videoconferência. Segundo a entidade europeia, nenhuma seleção do continente participará de competições da Fifa até que o projeto seja completamente abandonado.

O boicote coloca sob risco imediato diferentes torneios internacionais. Entre eles está a Copa do Mundo Feminina de 2027, marcada para acontecer no Brasil.

A crise também pode alcançar as próximas Copas masculinas, incluindo a edição de 2030.


Uefa anuncia boicote das 55 federações europeias

No documento divulgado após a reunião, a Uefa afirmou que todas as associações do continente estão unidas contra o projeto apresentado pelo presidente da Fifa, Gianni Infantino.

A medida permanecerá em vigor enquanto a proposta estiver em pauta. Para suspender o boicote, os europeus exigem que a ideia seja abandonada integralmente e que a Fifa apresente garantias vinculantes de que não voltará a abrir suas competições ou sua governança à propriedade privada.

“Nenhuma seleção nacional da Uefa participará de qualquer competição da Fifa enquanto essas propostas permanecerem em pauta”, declarou a entidade.

A Uefa classificou o projeto como “irresponsável e indefensável” e acusou a Fifa de desenvolver uma mudança estrutural sem diálogo suficiente com as confederações, federações, jogadores e torcedores.


Copa Feminina de 2027 no Brasil é ameaçada

A principal competição afetada pela crise pode ser a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será disputada no Brasil.

Caso o boicote continue até o torneio, seleções tradicionais como Espanha, Inglaterra, Alemanha, França, Itália, Holanda, Suécia e Noruega não participariam da competição.

A ausência dos países europeus comprometeria o nível técnico, o interesse comercial e a audiência internacional do Mundial.

A crise também afetaria os patrocinadores, os direitos de transmissão, a venda de ingressos e o planejamento das cidades brasileiras que receberão as partidas.

O Brasil foi escolhido como sede em 2024 e será o primeiro país da América do Sul a organizar uma edição da Copa do Mundo Feminina.


Mundial Sub-20 pode ser primeiro torneio atingido

Embora a Copa Feminina de 2027 concentre as principais atenções, o impacto do boicote pode aparecer antes.

A próxima competição da Fifa em território europeu é a Copa do Mundo Feminina Sub-20, prevista para começar em setembro, na Polônia.

Se a decisão entrar em vigor imediatamente e não houver acordo, seleções europeias podem deixar de participar até mesmo de um torneio sediado no continente.

Além dos Mundiais de seleções, a medida pode afetar competições masculinas, femininas e de base organizadas pela Fifa.


Projeto prevê criação de empresa avaliada em US$ 20 bilhões

A proposta responsável pela crise prevê a criação da Fifa Forward Enterprise, conhecida pela sigla FFE.

A nova empresa ficaria responsável pelas operações comerciais e pela organização de eventos ligados aos principais torneios da Fifa, incluindo a Copa do Mundo masculina, a Copa Feminina e competições de base.

A Fifa estima que a subsidiária teria um valor de mercado de aproximadamente US$ 20 bilhões, o equivalente a mais de R$ 100 bilhões.

O projeto permite que investidores externos adquiram uma participação minoritária de até 20% da companhia. Com a operação, a entidade espera arrecadar até US$ 4,2 bilhões, aproximadamente R$ 21,5 bilhões.


Fifa afirma que continuará com controle da empresa

A Fifa sustenta que os investidores teriam participações minoritárias e sem poder de controle.

Segundo a entidade, as decisões esportivas, regulatórias e institucionais permaneceriam sob sua responsabilidade. Os acionistas externos atuariam principalmente com capital e experiência comercial.

A organização também afirma que os recursos obtidos seriam reinvestidos no desenvolvimento do futebol.

O projeto prevê aumentar os repasses destinados às 211 federações filiadas, permitindo que cada uma tenha acesso a até US$ 20 milhões adicionais para projetos de infraestrutura e desenvolvimento.

A adesão ao programa financeiro seria voluntária.


Uefa diz que Copa do Mundo não está à venda

Para a Uefa, a entrada de investidores transformaria a Copa do Mundo em um produto financeiro submetido permanentemente à busca por retorno comercial.

A entidade afirmou que a competição foi construída durante gerações por jogadores, seleções e torcedores de todos os continentes e não pode ter parte de sua propriedade entregue ao mercado.

“A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento. Ela é um dos maiores legados esportivos do futebol”, declarou a confederação.

A Uefa também argumentou que, após a venda de uma participação, os interesses dos acionistas passariam a exercer pressão diária sobre decisões comerciais e estratégicas.

Na avaliação europeia, a Fifa deixaria de atuar exclusivamente como guardiã do futebol para também responder às expectativas financeiras de investidores privados.


Europeus acusam Fifa de falta de transparência

Outra crítica envolve a maneira como a proposta foi desenvolvida e apresentada.

A Uefa afirmou que um projeto capaz de modificar a estrutura econômica do futebol mundial foi preparado em segredo e levado para uma possível aprovação sem consulta significativa às entidades responsáveis pelo esporte.

Federações europeias também questionam a rapidez do processo e a quantidade de informações jurídicas e financeiras disponibilizadas.

Para a Uefa, oferecer recursos adicionais às associações enquanto exige uma decisão em prazo reduzido cria uma forma de pressão sobre países que dependem financeiramente dos repasses da Fifa.

A entidade classificou o processo como uma governança baseada na intimidação e na coerção.


Infantino defende votação entre as federações

Gianni Infantino afirmou que a criação da empresa ainda é apenas uma proposta e não uma obrigação.

Segundo o presidente da Fifa, o plano será submetido ao Conselho da entidade e às associações filiadas. Ele defendeu que o processo será democrático e que nenhuma federação será obrigada a participar do novo programa financeiro.

Infantino também declarou que o futebol possui um enorme valor comercial e que parte desse potencial pode ser utilizada para ampliar investimentos em países com menor estrutura.

Para ele, o capital externo permitiria construir estádios, centros de treinamento e projetos de formação que atualmente estão fora do alcance financeiro de muitas federações.


Investidores privados teriam participação minoritária

A Fifa afirma que os acionistas seriam selecionados a partir de critérios estratégicos, financeiros e de governança.

Os investidores teriam uma participação minoritária e poderiam vender suas ações futuramente por meio de processos organizados pela própria entidade.

A possibilidade de revenda aumenta as preocupações da Uefa. Os europeus temem que, depois da primeira operação, as participações circulem entre fundos e empresas sem uma ligação direta com o futebol.

A Fifa responde que manterá o controle majoritário da FFE e que os investidores não terão influência sobre regras, arbitragem, calendário esportivo ou decisões disciplinares.


Concacaf e AFC também criticam proposta

A oposição europeia ganhou força depois que a Concacaf, responsável pelo futebol da América do Norte, Central e Caribe, e a Confederação Asiática de Futebol também manifestaram críticas e preocupações.

Juntas, Uefa, Concacaf e AFC representam 143 das 211 associações filiadas à Fifa, número suficiente para dificultar a aprovação do projeto.

Isso não significa que todas as federações asiáticas e da Concacaf tenham aderido ao boicote europeu. Até agora, a decisão de não participar das competições foi anunciada pelas entidades ligadas à Uefa.

As demais confederações cobram transparência, mais tempo para analisar a proposta e esclarecimentos sobre os investidores.


Boicote pode atingir Copa do Mundo de 2030

Se o impasse continuar, o boicote poderá chegar à Copa do Mundo masculina de 2030.

O torneio terá Espanha, Portugal e Marrocos como sedes principais, além de partidas comemorativas na Argentina, no Paraguai e no Uruguai.

A realização de um Mundial parcialmente sediado na Europa sem as seleções do continente seria praticamente inviável.

O cenário transforma a ameaça da Uefa em um instrumento de pressão contra Infantino. Sem os principais mercados europeus, a Fifa enfrentaria perdas em audiência, patrocínio, venda de ingressos e direitos de transmissão.


Crise abre confronto histórico no futebol mundial

O embate representa uma das maiores rupturas institucionais da história recente do futebol.

A Fifa defende que a entrada de capital privado poderá ampliar o desenvolvimento do esporte e reduzir as diferenças financeiras entre suas federações.

A Uefa considera que o projeto ultrapassa um limite ao permitir que investidores adquiram participação em uma estrutura criada para administrar comercialmente as principais competições internacionais.

Enquanto nenhuma das partes recua, a Copa Feminina de 2027 no Brasil surge como uma das primeiras grandes competições ameaçadas pelo confronto.

A continuidade do boicote dependerá da decisão da Fifa sobre a proposta e das garantias exigidas pelas 55 federações europeias.